A Bacia Amazônica concentra uma das maiores diversidades de peixes de água doce do planeta. São mais de 2,7 mil espécies identificadas, o que corresponde a cerca de 15% de todas as espécies conhecidas no mundo. Aproximadamente dois terços desses peixes são encontrados exclusivamente na região. Os números estão na quarta edição do relatório “Peixes Esquecidos da Amazônia”, liderado pela The Nature Conservancy (TNC) com a participação de mais de 50 especialistas de 30 organizações.
Segundo o levantamento, essa diversidade exerce funções que vão muito além da presença dos peixes nos rios. Diferentes espécies participam diretamente da dinâmica dos ecossistemas amazônicos e ajudam a conectar ambientes aquáticos e terrestres. Tambaqui, pacu e matrinxã, por exemplo, aproveitam o período de cheia para entrar em áreas de floresta alagada em busca de frutos. Nesse processo, eles também contribuem para espalhar sementes por grandes distâncias.
Crédito: Wikimedia Commons / BloopityboopA movimentação dos peixes pelos rios também tem importância para a circulação de nutrientes e energia na região. Entre os casos destacados está o da dourada, que percorre mais de 11 mil quilômetros durante seu ciclo de vida. De acordo com o relatório, trata-se da mais longa migração exclusivamente em água doce já registrada. O exemplo reforça a necessidade de preservar a conexão entre os diferentes trechos dos rios para garantir a sobrevivência de diversas espécies.
Crédito: ReproduçãoA construção de barragens representa uma ameaça para essa conectividade. O relatório aponta que as interrupções provocadas por usinas no rio Madeira, um dos principais afluentes do Amazonas, contribuíram para a redução dos estoques de peixes. Um dos efeitos ocorreu na região da Cachoeira do Teotônio, onde uma atividade pesqueira histórica praticamente deixou de existir. O estudo considera a manutenção dos corredores fluviais um dos fatores fundamentais para a conservação da biodiversidade aquática amazônica.
Crédito: Wilson Dias/Agência BrasilA importância dos peixes também se estende diretamente à vida das populações que vivem às margens dos rios. Em algumas comunidades ribeirinhas remotas, o consumo de pescado ultrapassa 600 gramas por pessoa diariamente. Pelo menos 200 espécies são exploradas pela pesca comercial na região. Além disso, o comércio de peixes ornamentais movimenta dezenas de milhões de exemplares todos os anos e representa uma fonte de renda para milhares de famílias.
Crédito: Rjcastillo/Wikimedia CommonsO relatório chama atenção para o conjunto de pressões que ameaçam os ecossistemas de água doce da Amazônia. Entre os principais problemas estão as hidrelétricas, o desmatamento, a poluição, a pesca excessiva, as mudanças climáticas e o garimpo. A mineração não industrial de ouro aparece como um caso particularmente preocupante devido à contaminação por mercúrio.
Crédito: Divulgação/Norte EnergiaO mercúrio lançado no ambiente pode se acumular ao longo da cadeia alimentar e atingir os seres humanos por meio do consumo de pescado. Na Amazônia, essa é considerada a principal forma de exposição da população ao contaminante. Diante desse cenário, o relatório destaca que proteger os rios significa também preservar a segurança alimentar das comunidades e atividades econômicas dependentes dos recursos pesqueiros. A conservação da biodiversidade, portanto, está diretamente ligada às condições de vida da população local.
Crédito: FOTO: By Andre Deak / Wikimedia CommonsO estudo também apresenta experiências consideradas positivas de gestão dos recursos pesqueiros pelas próprias comunidades. Foram identificadas pelo menos 155 iniciativas de manejo comunitário da pesca no Brasil, Peru, Bolívia e Colômbia. Em conjunto, essas ações abrangem quase 13 milhões de hectares, envolvendo mais de 1,2 mil comunidades e 21 mil pescadores. Conforme o relatório, os projetos estão relacionados ao aumento da abundância dos peixes, à maior diversidade de espécies e à geração de benefícios econômicos e sociais.
Crédito: Agência de Notícias do Acre/Wikimedia Commons