Como em ‘Moby Dick’! Cientistas fazem registro inédito de baleias-cachalote dando cabeçadas

Com o uso de drones, um grupo de pesquisadores da Universidade de St Andrews, na cidade de mesmo nome, localizada na região costeira da Escócia, conseguiu registrar em vídeo um comportamento até então inédito entre baleias-cachalote: indivíduos da espécie desferindo cabeçadas uns contra os outros. A cena, rara e ainda pouco compreendida, foi descrita cientificamente pela primeira vez, abrindo novas perspectivas para o estudo desses gigantes marinhos. O flagra aconteceu em registros da interação social desses animais nas proximidades dos Açores, em Portugal, e das Ilhas Baleares, na Espanha, entre os anos de 2020 e 2022.

Crédito: Reprodução do Youtube Canal Headbutting Sperm Whales

O registro foi publicado na revista científica trimestral Marine Mammal Science no dia 23 de março de 2026. Ele contribui para dar respaldo a antigos relatos de marinheiros do século 19, que já mencionavam o uso da cabeça pelos cachalotes como instrumento de impacto, seja para empurrar, seja para atingir alvos com força suficiente, segundo as narrativas, até para afundar embarcações.

Crédito: Reprodução do Youtube Canal Headbutting Sperm Whales

A análise dos pesquisadores trouxe ainda um dado surpreendente. Ao contrário do que se imaginava, não são os machos adultos os principais responsáveis por esse tipo de interação, mas sim indivíduos mais jovens. A constatação levanta novas hipóteses sobre a função desse comportamento, especialmente no que diz respeito à organização social do grupo e às relações entre seus membros.

Crédito: Reprodução do Youtube Canal Headbutting Sperm Whales

Segundo os autores, ainda não há respostas definitivas sobre o motivo dessas investidas. A expectativa é que o avanço no uso de drones em pesquisas marinhas permita ampliar a observação desse tipo de interação, além de revelar comportamentos que permanecem desconhecidos por ocorrerem longe da superfície.

Crédito: Reprodução do Youtube Canal Headbutting Sperm Whales

Durante o auge da caça às baleias, no século 19, marinheiros relatavam episódios em que cachalotes investiam contra embarcações. Um dos casos mais emblemáticos ocorreu em 1820, quando o navio baleeiro Essex foi atingido duas vezes por um grande macho nas proximidades das Ilhas Galápagos, vindo a afundar após o impacto.

Crédito: Divulgação

O episódio ganhou notoriedade e inspirou o clássico da literatura “Moby Dick”, do escritor estadunidense Herman Melville. Na obra, a lendária baleia branca destrói o navio Pequod em uma sequência que se tornou símbolo da literatura marítima. Outros relatos semelhantes incluem o naufrágio do Ann Alexander, em 1851, e do Kathleen, em 1902.

Crédito: Divulgação

As baleias-cachalote (Physeter macrocephalus) são os maiores cetáceos com dentes e figuram entre os animais mais impressionantes do planeta. Podem atingir mais de 18 metros de comprimento e são facilmente reconhecidas por sua cabeça maciça, que pode representar até um terço do tamanho total do corpo.

Crédito: Reprodução do Flickr Pierre Jaquet

Essa cabeça vista como descomunal abriga o órgão do espermacete, fundamental para a produção de sons e para a ecolocalização, sistema que permite a esses animais “enxergar” no ambiente marinho profundo.

Crédito: Reprodução do Flickr GuillermoJB

Distribuídas por praticamente todos os oceanos do mundo, as cachalotes preferem águas profundas, onde realizam mergulhos que podem ultrapassar mil metros em busca de alimento.

Crédito: Gabriel Barathieu/Wikimédia Commons

Sua dieta é composta principalmente por lulas (incluindo espécies gigantes), além de peixes e outros organismos marinhos. Esses mergulhos podem durar mais de uma hora, o que faz da espécie uma das campeãs de apneia entre os mamíferos.

Crédito: Reprodução do Flickr Silvia Ancho

Do ponto de vista social, as cachalotes apresentam uma organização complexa. Fêmeas e filhotes vivem em grupos estáveis, enquanto machos adultos tendem a ser mais solitários ou formar associações temporárias.

Crédito: Divulgação

Além disso, são conhecidas por seus sofisticados sistemas de comunicação, baseados em cliques sonoros que variam entre grupos, sugerindo a existência de “dialetos”, uma característica rara e fascinante no reino animal.

Crédito: Reprodução do Flickr Pierre Jaquet