Cientistas da Universidade de Cambridge identificaram que os macacos-de-gibraltar praticam a geofagia — o consumo deliberado de terra — como uma forma de mitigar os efeitos negativos de uma dieta rica em alimentos industrializados. A pesquisa, publicada na revista Scientific Reports, revela que esse comportamento funciona de maneira proporcional a um antiácido usado pelos humanos, ajudando a aliviar desconfortos digestivos e a absorver toxinas provenientes de lanches açucarados e gordurosos oferecidos ou roubados de turistas.
"Propomos a ideia de que a comida humana, por não ser adaptada à sua dieta natural, desencadeia problemas estomacais e, potencialmente, perturbações no microbioma, cujos efeitos negativos são atenuados pelos componentes do solo [...] Eu não diria que isso ajuda a digerir alimentos processados, mas provavelmente os ajuda a se sentirem melhor durante uma digestão difícil", explicou o antropólogo biológico da Universidade de Cambridge e principal autor do estudo, Sylvain Lemoine.
Crédito: SILKE/PixabayA pesquisa acompanhou cerca de 230 macacos distribuídos em oito grupos entre 2022 e 2024 e identificou 46 episódios de geofagia, especialmente em áreas com maior fluxo de visitantes. Em contraste, grupos sem acesso a alimentos humanos não apresentaram esse comportamento. Os cientistas também observaram que a prática tende a ser aprendida socialmente, já que ocorre com frequência na presença de outros indivíduos, permitindo que os mais jovens imitem os mais velhos.
Crédito: Wikimedia Commons/Jakub HałunCom raízes geográficas no Norte da África, os macacos-de-gibraltar teriam alcançado o território europeu de Gibraltar ainda na Idade Média, sob a ocupação moura na região. Com o passar do tempo, esses animais ganharam valor simbólico para os britânicos, impulsionados por uma lenda que afirma que eles teriam ajudado a avisar soldados sobre um ataque inesperado no século 18.
Crédito: Pexels/Jędrzej KoralewskiDurante a Segunda Guerra Mundial, a população desses primatas caiu drasticamente, o que levou o então primeiro-ministro Winston Churchill a ordenar a introdução de novos indivíduos vindos do Marrocos e da Argélia. Acredita-se que boa parte dos macacos que vivem hoje na região descenda diretamente dos animais que foram reintroduzidos.
Crédito: Tuxyso/Wikimedia Commons/CC-BY-SA-4.0Conhecido cientificamente como Macaca sylvanus, o macaco-de-gibraltar se destaca como o único primata não humano que habita o continente europeu em estado selvagem. Apesar do nome popular, ele não é um macaco "verdadeiro", mas sim um tipo de macaco-do-velho-mundo sem cauda, característica rara entre primatas.
Crédito: Wikimedia Commons/Gzen92Sua origem remonta ao Norte da África, especialmente regiões de Marrocos e Argélia, onde ainda existem populações maiores. Os macacos-de-gibraltar vivem em grupos sociais organizados, que podem reunir dezenas de indivíduos, com forte interação entre machos, fêmeas e filhotes.
Crédito: Wikimedia Commons/iNaturalistUma característica marcante da espécie é o cuidado coletivo com os jovens para fortalecer laços sociais, inclusive por parte dos machos adultos, comportamento incomum entre primatas. Fisicamente, esses animais têm pelagem marrom-amarelada, rosto rosado e corpo robusto, adaptado ao clima mediterrâneo.
Crédito: Enrique/PixabayA dieta dos macacos-de-gibraltar é onívora e versátil, composta por raízes, frutos, insetos e pequenas plantas locais. Em Gibraltar, a presença deles atrai milhares de turistas anualmente, o que gera desafios constantes para a conservação e o controle populacional.
Crédito: Wikimedia Commons/Gzen92Eles pode ser avistados especialmente na área do Rochedo de Gibraltar, onde vivem em liberdade. Existe uma antiga lenda local que afirma que, enquanto houver macacos no território, Gibraltar continuará sob domínio britânico. Hoje, o comércio ilegal de filhotes e a perda de território florestal ameaçam a sobrevivência desses primatas a longo prazo.
Crédito: Adrien Jailloux/iNaturalistProjetos internacionais de proteção ambiental buscam mitigar esses riscos através de leis mais severas e reflorestamento, mas a conscientização pública é o pilar central para evitar que este primata único desapareça das montanhas africanas.
Crédito: Angela/PixabayVale ressaltar que, apesar da aparência dócil, esses macacos podem reagir de forma hostil quando se sentem ameaçados ou quando associam pessoas a comida. Por isso, a convivência com humanos exige cautela e respeito às regras locais.
Crédito: iNaturalist/Mourad Harzallah