Explorador brasileiro refaz viagem de Charles Darwin pela Patagônia e lança livro sobre a expedição

As Ilhas Galápagos costumam ocupar o centro das narrativas sobre as descobertas de Charles Darwin, mas uma nova expedição conduzida pelo explorador brasileiro Marcio Pimenta propõe outro olhar sobre a origem das ideias que ajudaram a transformar a ciência moderna. Os diários do naturalista revelam que a base de suas ideias surgiu muito antes, durante um período de isolamento na Patagônia. Em busca desse “jovem Darwin”, Pimenta percorreu sozinho cerca de 11 mil quilômetros de Jeep em 2023, revisitando paisagens descritas nos antigos diários do cientista inglês.

Crédito: Divulgação/Diorginis Pandini

A jornada resultou no livro "Encontrando Darwin – Uma expedição pelos confins do mundo", de 284 páginas, publicado pela Editora Solisluna com apoio da National Geographic Society. A obra, que chega às livrarias no dia 22 de maio, reúne relatos da viagem, reflexões pessoais e observações sobre os cenários naturais que influenciaram Darwin no século 19. O autor fará um tour de lançamento por várias cidades do Brasil, incluindo Curitiba, Florianópolis, Porto Alegre, Rio de Janeiro, São Paulo e Salvador.

Crédito: Divulgação/Diorginis Pandini

Diferentemente das narrativas tradicionais de aventura, Pimenta decidiu retratar também seus momentos de vulnerabilidade emocional durante o percurso. O explorador contou que o isolamento extremo enfrentado em cidades austrais como Ushuaia provocou um forte desgaste psicológico após semanas de solidão e silêncio. Segundo o autor, a experiência serviu para desmontar a ideia romantizada do explorador invulnerável.

Crédito: Divulgação/Marcio Pimenta

"Pensamos no Darwin como o senhor sábio de barba grisalha e estátua de sabedoria, mas antes disso ele viveu muitos transtornos emocionais e físicos porque tinha medo do que estava para revelar", explicou Pimenta. Ao revisitar locais mencionados nos cadernos do naturalista, o brasileiro também se impressionou com a permanência das paisagens descritas há mais de um século.

Crédito: Divulgação/Diorginis Pandini

"Eu olhava para os diários dele e olhava para a paisagem tentando entender o que ele estava fazendo. Quando cheguei em Monte Hermoso, as camadas biológicas descritas por ele estavam exatamente lá. 150 anos para a Terra não são nada", descreveu.

Crédito: Divulgação/Marcio Pimenta

O livro também aborda questões contemporâneas relacionadas às mudanças climáticas e aos povos indígenas da Patagônia. Durante a expedição, o pesquisador analisou os registros históricos sobre comunidades como os Selk’nam e os Yámana, frequentemente descritos de maneira preconceituosa pelos viajantes europeus do século 19.

Crédito: Divulgação/Marcio Pimenta

O brasileiro pondera que, embora os movimentos nativos contemporâneos avaliem os escritos daquele período com críticas severas ao anacronismo de certas expressões, Darwin manteve uma postura firmemente antirracista e utilizou essas memórias de estranhamento para concluir que a humanidade partilha da mesma igualdade.

Crédito: Julia Margaret Cameron/Wikimedia Commons

A viagem ainda marcou uma mudança profunda na carreira do explorador brasileiro, que abandonou a área de Economia e o doutorado Relações Internacionais para se dedicar integralmente às expedições e à pesquisa histórica: "Não me reconheço mais apenas como fotógrafo. Esse livro é o início de uma nova fase como explorador."

Crédito: Divulgação/Diorginis Pandini

Inspirado pelas teorias evolucionistas, Pimenta já planeja um novo projeto no Vale do Rift, região da África considerada por muitos cientistas como o berço da humanidade. O objetivo da futura jornada será investigar as origens da espécie humana e compreender como populações espalhadas pelo planeta desenvolveram culturas, fronteiras e divisões ao longo da história.

Crédito: samson tarimo/Unsplash

A passagem de Charles Darwin pela Patagônia ocorreu entre 1832 e 1834, durante a expedição do HMS Beagle. Na região, o então jovem cientista encontrou fósseis de grandes mamíferos extintos semelhantes a espécies ainda vivas na América do Sul. Essa descoberta o fez despertar questionamentos sobre transformação das espécies ao longo do tempo.

Crédito: Domínio público

Darwin também observou diferenças entre animais da mesma família em áreas distintas da Patagônia, como variedades de emas sul-americanas. As formações geológicas locais reforçaram sua percepção de que a Terra possuía uma história muito antiga e dinâmica. O naturalista registrou ainda impressões sobre o clima hostil, o isolamento e a imensidão da paisagem patagônica.

Crédito: Andrew Shiva/Wikipedia/CC BY-SA 4.0

O contato com comunidades indígenas da região também marcou seus relatos de viagem. Historiadores consideram que foi ali que começaram a surgir as primeiras bases de suas futuras ideias sobre a origem, adaptação e transformação das espécies, antes mesmo das observações feitas nas Ilhas Galápagos.

Crédito: Martin De Luca/Pixabay