‘Ilha dos Gatos’: presença de mais de 700 felinos abandonados desafia autoridades no litoral do Rio

Uma pequena ilha coberta por vegetação situada entre as baías de Mangaratiba e Angra dos Reis, na Costa Verde do Rio de Janeiro, abriga uma situação complexa que mobiliza pesquisadores, autoridades e organizações de proteção animal. Conhecida popularmente como “Ilha dos Gatos”, a Ilha Furtada se tornou lar de uma população estimada em mais de 700 felinos, resultado de décadas de abandono. Relatos locais apontam que a presença desses animais começou na década de 1950, após a breve estadia de uma família no local, o que deu início a uma triste tradição de descarte.

Crédito: Reprodução/Record TV

Com o passar dos anos, novos abandonos transformaram a área em um caso complicado de ser resolvido a curto prazo. Hoje, o crime de abandono conta com a cumplicidade de barqueiros que cobram taxas de até R$ 150 para transportar os gatinhos até as pedras da praia. Localizada a cerca de 8 km da costa de Mangaratiba, a ilha não conta com fontes naturais de água doce nem condições capazes de sustentar sozinha uma quantidade tão grande de animais.

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A sobrevivência dos gatos depende da atuação de voluntários e entidades de proteção animal, responsáveis pelo transporte de alimentos, água e assistência veterinária. O acesso difícil ao terreno exige cuidados especiais, e em alguns trechos foram instaladas cordas para auxiliar a circulação das equipes em áreas íngremes próximas ao mar. A gravidade da situação levou à criação do projeto “Uma Só Saúde na Ilha Furtada”.

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A força-tarefa reúne instituições como a Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRJ), a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), o Conselho Regional de Medicina Veterinária do Estado do Rio de Janeiro (CRMV-RJ), o Instituto Boto Cinza e a Prefeitura de Mangaratiba.

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O objetivo do grupo é compreender os impactos provocados pela presença maciça dos animais e buscar soluções que reduzam os riscos ao ecossistema local. Estudos indicam que a questão vai muito além do abandono de animais. Pesquisadores investigam a circulação de agentes infecciosos, especialmente o protozoário Toxoplasma gondii, responsável pela toxoplasmose.

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Análises realizadas na população felina da ilha identificaram anticorpos contra o parasita em uma parcela significativa dos gatos examinados. Os chamados oocistos, eliminados nas fezes dos felinos, são lavados pelas águas das chuvas em direção ao oceano, o que acende um alerta sobre os riscos sanitários em toda a região costeira.

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A contaminação marinha viabiliza a infecção de organismos filtradores como mexilhões e ostras, que posteriormente entram na cadeia alimentar de seres humanos. Especialistas ressaltam que os gatos não são responsáveis pela origem do problema, mas sim vítimas do abandono.

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"O gato é vítima nesse processo. Foi abandonado na ilha. Ninguém contrai toxoplasmose ao tocar em um gato. Isso não acontece. A transmissão está relacionada principalmente ao contato com fezes contaminadas e ao consumo de alimentos contaminados", ressaltou a professora e pesquisadora da UFRRJ, Andressa Ferreira da Silva.

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Além disso, a simples retirada dos animais não eliminaria imediatamente os riscos ambientais, já que o parasita pode permanecer viável no ambiente durante longos períodos. "Mesmo que todos os gatos sejam removidos, os oocistos podem permanecer viáveis no ambiente por meses ou até anos. Será necessário monitoramento ambiental contínuo", explicou Andressa.

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Outra frente de pesquisa busca compreender possíveis impactos sobre a fauna marinha da região. Estudos anteriores identificaram casos de toxoplasmose em golfinhos encontrados no litoral fluminense, o que motivou novas investigações para determinar se existe alguma ligação entre esses episódios e a contaminação ambiental observada na Ilha Furtada.

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Diante desse cenário, o poder público passou a adotar medidas específicas para enfrentar a situação. Após retornar ao controle da União em 2024, a ilha passou a ser alvo de novas regras voltadas ao manejo populacional dos gatos e ao endurecimento das punições para quem abandona animais em áreas insulares.

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A Costa Verde é uma das regiões turísticas mais conhecidas do estado do Rio de Janeiro, que se estende ao longo do litoral sul fluminense entre os municípios de Itaguaí e Paraty. A área se destaca pela combinação de montanhas cobertas pela Mata Atlântica com um litoral repleto de praias, baías e ilhas. Entre seus destinos mais famosos estão Angra dos Reis, Mangaratiba e Paraty.

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A região abriga centenas de ilhas, incluindo a famosa Ilha Grande, conhecida por suas praias preservadas e trilhas ecológicas. O turismo é uma das principais atividades econômicas locais, impulsionado por passeios de barco, mergulho, ecoturismo e patrimônio histórico. Além disso, a Costa Verde é considerada uma das áreas de maior biodiversidade do litoral brasileiro.

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