A trajetória de religiosos que deixaram as atividades exclusivamente pastorais para viver e trabalhar ao lado de operários, desafiando a ditadura militar no Brasil, é o foco do novo livro da historiadora Larissa Rosa Corrêa, lançado no dia 8 de setembro em um evento na Janela Livraria de Laranjeiras, na Zona Sul do Rio de Janeiro.
Professora do departamento de História da PUC-Rio, a autora apresenta em "Trabalho como missão: padres-operários entre a Europa e o Brasil (1943-1976)" uma investigação sobre as relações entre fé, mundo do trabalho e mobilização política ao longo de mais de três décadas.
Crédito: Reprodução/InstagramO estudo parte do surgimento dos chamados padres-operários na Europa após a Segunda Guerra Mundial, período marcado pelo distanciamento de parcelas da classe trabalhadora em relação à Igreja Católica. Em vez de permanecer restritos às paróquias, esses sacerdotes passaram se "infiltrar" em fábricas e a compartilhar o cotidiano das comunidades operárias.
Crédito: Reprodução/MagnificA iniciativa também alcançou o Brasil durante o contexto da Guerra Fria, com a chegada de religiosos estrangeiros a cidades industriais e áreas periféricas. Em Osasco, por exemplo, a Vila Yolanda se tornou um dos espaços analisados pela pesquisadora.
Crédito: Domínio PúblicoO trecho mostra como os padres desenvolveram uma experiência comunitária baseada na divisão de tarefas. O grupo funcionava de forma semelhante a uma república: os religiosos mais jovens cumpriam jornadas nas fábricas e contribuíam para as despesas da casa, enquanto os mais experientes cuidavam da organização do espaço, preparavam as refeições e atuavam na evangelização dos moradores do bairro.
Crédito: Imagem gerada por IAEntre os personagens destacados pela autora está o padre Pierre Wauthier, que participou da mobilização dos trabalhadores e apoiou a Greve de Osasco, em 1968. A atuação fez com que ele entrasse na mira da repressão, fosse preso e torturado e, posteriormente, acabasse expulso do Brasil.
Crédito: ReproduçãoA pesquisa também registra casos de outros religiosos submetidos à vigilância dos órgãos de segurança, além de prisões, interrogatórios e torturas. Para os estrangeiros, a deportação era outra possibilidade diante do envolvimento com trabalhadores e sindicalistas.
Crédito: MARCIN CZERNIAWSKI/UnsplashO recorte da obra chega aos anos 1970, período em que os padres-operários perderam parte do espaço que haviam conquistado dentro do catolicismo progressista. A expansão da chamada "Teologia da Libertação" alterou essa perspectiva ao dar mais atenção a populações pobres e grupos considerados oprimidos nas periferias latino-americanas.
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