Inspirado pela premissa do naturalista e apresentador britânico David Attenborough de que o conhecimento é o pilar da proteção, o Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ) lançou o Projeto Guigó no sul da Bahia com o objetivo de ampliar as informações sobre o primata Callicebus melanochir e orientar estratégias de preservação da espécie. A proposta inicial inclui a participação de moradores e visitantes por meio de um formulário on-line aberto até 17 de maio, ferramenta criada para reunir registros de avistamentos e ampliar o mapeamento da presença do animal na região.
Conhecido também como guigó-mascarado-do-sul-da-bahia pelo ICMBio, o primata vive entre os rios Rio Doce, no Espírito Santo, e o Rio Paraguaçu, na Bahia, tradicionalmente associado a áreas extensas de Mata Atlântica, embora registros recentes indiquem sua presença crescente em fragmentos urbanos. Segundo a pesquisadora Maria Otávia Crepaldi, essa mudança de comportamento pode refletir a pressão exercida sobre o habitat natural do animal e acende um alerta sobre o futuro da espécie.
Crédito: Wikimedia Commons/Jacek KisielewskiEla destaca que a ausência de dados atualizados dificulta avaliar com precisão a situação populacional do guigó e reforça a urgência de ampliar os estudos. Atualmente classificado como vulnerável pela IUCN, o primata ainda carece de informações recentes suficientes para confirmar esse status com segurança. Segundo o primatólogo Fábio Motta, “não há dados para afirmar que a espécie está vulnerável ainda" e a última análise, feita em 2008, resulta em um "déficit de dados muito grande”.
Crédito: Pierossi/iNaturalist/Creative CommonsApesar disso, a espécie raramente aparece associada à caça, pois apresenta comportamento discreto e cauteloso. O surgimento inesperado de indivíduos em ambientes urbanos, como falésias e corredores ecológicos, levanta novas perguntas sobre adaptação e sobrevivência fora de áreas contínuas de floresta.
Crédito: Pierossi/iNaturalist/Creative CommonsObservações recentes mostram que alguns animais demonstram tolerância incomum à presença humana, o que intriga os pesquisadores e amplia o interesse científico sobre sua ecologia. Para responder a essas questões, o projeto aposta na participação da população local como aliada essencial na produção de conhecimento.
Crédito: Cervantes-López (cabouco)/iNaturalist/Creative CommonsHabitantes do sul da Bahia já conseguem distinguir o guigó de outros primatas graças à coloração característica da face escura e da cauda longa e peluda. O corpo apresenta tons acinzentados ou castanho-amarelados e tamanho médio dentro do gênero, com cerca de 38 centímetros nos machos adultos. As mãos e os pés escuros reforçam a aparência mascarada que facilita sua identificação em campo.
Crédito: Divulgação/Instituto de Pesquisas EcológicasO Projeto Guigó integra uma trajetória de décadas do instituto na proteção de primatas brasileiros ameaçados. Entre os exemplos mais expressivos está o trabalho com o mico-leão-preto, espécie cuja recuperação populacional se tornou referência internacional em conservação.
Crédito: Flickr - Alan Hill