‘Psicose’: por que clássico de Alfred Hitchcock entrou para a história do cinema

No dia 13 de agosto de 2026 completaram-se os 127 anos do nascimento de Alfred Hitchcock, um dos mais importantes diretores da história do cinema. Nascido em 1899, em Londres, o cineasta construiu uma carreira marcada pela habilidade de transformar medo, tensão e paranoia em experiências cinematográficas. Obras como "Janela Indiscreta", "Um Corpo que Cai", "Intriga Internacional" e "Os Pássaros" ajudaram a consolidar sua reputação como mestre do suspense. Porém, entre seus trabalhos se destaca "Psicose", lançado em 1960 e considerado um divisor de águas no cinema. O longa-metragem foi eleito maior filme de todos os tempos pela revista "Variety", em 2022.

Crédito: Divulgação

Baseado no romance homônimo de Robert Bloch, "Psicose" acompanha Marion Crane, interpretada por Janet Leigh, uma secretária que rouba uma quantia em dinheiro da imobiliária onde trabalha e foge de carro. No caminho, ela decide passar a noite no isolado Bates Motel, administrado pelo aparentemente cordial, mas perturbador Norman Bates, vivido por Anthony Perkins. A partir dessa premissa, Hitchcock constrói uma narrativa que conduz o espectador por caminhos que combinam suspense, horror, humor sombrio e elementos góticos.

Crédito: Domínio Público/Wikimedia Commons

A maior ruptura acontece quando Marion, apresentada inicialmente como a protagonista, é assassinada brutalmente ainda na primeira metade do filme. A famosa sequência do chuveiro dura cerca de 45 segundos, mas reúne impressionantes 78 posições de câmera e 52 cortes. Hitchcock utilizou planos fragmentados, movimentos rápidos, enquadramentos incomuns e uma montagem extremamente precisa para sugerir a violência sem mostrá-la de maneira explícita. O espectador não vê a faca penetrar o corpo de Marion, mas a sucessão de imagens, sons e cortes produz uma sensação de violência muito mais intensa.

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A construção sonora também foi fundamental para o impacto da cena. A trilha de Bernard Herrmann, executada exclusivamente por instrumentos de cordas, tornou-se uma das marcas mais reconhecíveis do filme e do próprio cinema. Os famosos acordes agudos que acompanham os golpes da faca funcionam quase como extensões sonoras da violência visual. O som, nesse sentido, passou a desempenhar papel tão importante quanto a imagem.

Crédito: Shamley Productions/Paramount Pictures/Wikimedia Commons

"Psicose" também se destaca pelo uso expressivo da fotografia em preto e branco, assinada por John L. Russell. A opção reforça a atmosfera sombria da narrativa, acentua o contraste entre luz e sombra e aproxima o filme da tradição do cinema noir. Na célebre sequência do chuveiro, a fotografia trabalha em conjunto com a montagem para sugerir a violência sem exibi-la de maneira explícita. A escolha pelo preto e branco também ajudou Hitchcock a reduzir os custos da produção e tornou menos evidente o sangue cenográfico usado na cena.

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Outro elemento decisivo foi a escolha do elenco. Janet Leigh consegue fazer com que Marion desperte empatia em pouco tempo, o que torna sua morte ainda mais desconcertante. Anthony Perkins, por sua vez, transforma Norman Bates em uma figura simultaneamente simpática, tímida e ameaçadora, evitando que o personagem seja apresentado desde o início como um vilão convencional.

Crédito: Shamley Productions/Paramount Pictures/Wikimedia Commons

“Psicose” também foi ousado ao confrontar padrões morais do cinema americano da época. O filme mostrava uma mulher em uma relação sexual fora do casamento, apresentava voyeurismo e violência de maneira perturbadora e chegava a exibir o vaso sanitário de um banheiro, algo que ainda era considerado inadequado pelo código de produção hollywoodiano. Hitchcock explorou essas transgressões sem transformá-las em simples provocação: elas fazem parte de uma narrativa sobre culpa, desejo, vigilância e punição.

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Mais de seis décadas depois, a influência de "Psicose" permanece evidente no cinema de horror e suspense. Sua montagem, seu uso do som, a manipulação das expectativas, a ruptura com a protagonista tradicional e a maneira como Hitchcock transformou elementos cotidianos em fontes de ameaça ajudaram a estabelecer novas possibilidades para o gênero. A sequência do chuveiro tornou-se uma das cenas mais estudadas e reproduzidas da história do cinema, enquanto o Bates Motel (na imagem no lote do estúdio da Universal, em Los Angeles) e Norman Bates entraram definitivamente no imaginário popular.

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