Rival brasileiro no Oscar, ‘Foi Apenas um Acidente’ reforça prestígio do cinema iraniano

O filme “Foi Apenas um Acidente”, do diretor iraniano Jafar Panahi, chega à temporada de premiações cinematográficas como um dos títulos mais comentados do ano. 

 

Crédito: Divulgação

O longa concorre a duas estatuetas no Oscar e desponta como um dos principais rivais do brasileiro “O Agente Secreto” (foto), com Wagner Moura e direção de Kleber Mendonça Filho, na categoria de Melhor Filme Internacional. Os outros concorrentes são o norueguês “Valor Sentimental”, o espanhol “Sirât” e o tunisiano “A Voz de Hind Hajab”. 

Crédito: Divulgação

Antes disso, a produção já havia conquistado a Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2025, reafirmando a força e a vitalidade do cinema iraniano no circuito mundial. 

Crédito: Divulgação

A trajetória do filme sintetiza uma história maior: a de uma cinematografia que, mesmo atravessada por censura, restrições políticas e vigilância estatal, consolidou-se como uma das mais respeitadas e influentes do mundo contemporâneo.

Crédito: Divulgação

As primeiras filmagens realizadas no Irã datam dos anos 1900. Em 1933, houve um salto técnico com “A Filha do Lor”, dirigido por Abdolhossein Sepanta em parceria com o cineasta indiano Ardeshir Irani. Produzido em Bombaim, o filme é considerado o primeiro longa sonoro em língua persa e tornou-se um enorme sucesso de público, inaugurando a era do cinema falado no país.

Crédito: Reprodução do X @HardGerd

Ao longo das décadas de 1940 e 1950, a indústria cinematográfica local começou a se estruturar de forma mais consistente, com a criação de estúdios e aumento da produção. Consolidou-se então um modelo popular conhecido posteriormente como Filmfarsi, caracterizado por melodramas, romances, musicais e narrativas moralizantes que atraíam grandes plateias urbanas. 

Crédito: Divulgação

O reconhecimento internacional do cinema iraniano ganhou novo patamar a partir da década de 1990, especialmente com a obra de Abbas Kiarostami. Seu filme “Gosto de Cereja”, vencedor da Palma de Ouro em Cannes em 1997, colocou definitivamente o Irã no mapa da cinefilia global. 

Crédito: Tasnim News Agency/Wikimédia Commons

Além de “Gosto de Cereja”, Abbas Kiarostami teve grande prestígio internacional com “Onde Fica a Casa do Meu Amigo?” (1987), “Close-Up” (1990) e “Através das Oliveiras” (1994), obras celebradas em festivais europeus. O cineasta tornou-se referência por uma linguagem minimalista, narrativas abertas e forte dimensão poética, muitas vezes explorando a fronteira entre documentário e ficção. 

Crédito: Divulgação

A partir dele, críticos e festivais passaram a olhar com mais atenção para uma produção que já vinha se desenvolvendo desde os anos 1960, mas que passou a ter uma identidade estética reconhecível.

Crédito: Divulgação

A chamada “nova onda” iraniana, iniciada ainda antes da Revolução Islâmica de 1979, ganhou novo contorno no período pós-revolucionário. Apesar do endurecimento ideológico imposto pela República Islâmica, a limitação de recursos e a vigilância da teocracia acabaram estimulando soluções criativas. 

Crédito: Reprodução de vídeo CNN Brasil

Como o contato físico entre homens e mulheres é rigidamente regulado nas telas, e determinados temas são vetados, muitos cineastas passaram a trabalhar com metáforas, narrativas infantis e alegorias sociais para discutir questões profundas como desigualdade, opressão e identidade. 

Crédito: Divulgação

A simplicidade formal, com filmagens em locações reais, atores não profissionais e roteiros enxutos, tornou-se marca estética e também estratégia de sobrevivência artística.

Crédito: Divulgação

Entre os nomes centrais dessa renovação está o próprio Jafar Panahi, cuja filmografia inclui obras como “O Círculo” e “Taxi Teerã”, premiado no Festival de Berlim. 

Crédito: Divulgação

Panahi enfrentou prisão domiciliar e proibição de filmar imposta pelo regime iraniano, mas continuou produzindo clandestinamente, transformando o próprio ato de filmar em gesto político.

Crédito: César/Wikimédia Commons

Outro cineasta fundamental é Asghar Farhadi, que conquistou dois Oscars de Melhor Filme Internacional com “A Separação” e “O Apartamento”. 

Crédito: Manfred Werner/Wikimédia Commons

Seus dramas familiares, construídos com rigor narrativo e tensão moral, alcançaram grande público internacional e provaram que o cinema iraniano podia dialogar tanto com festivais quanto com audiências amplas.

Crédito: Divulgação

A presença feminina também se consolidou como força criativa importante. Samira Makhmalbaf, revelada ainda adolescente, chamou atenção em Cannes com “A Maçã” e “O Quadro Negro”, abordando educação e desigualdade social. Sua mãe, Marzieh Meshkini, e outros realizadores ligados à família Makhmalbaf ampliaram o espectro temático e estético da produção local. 

Crédito: Reprodução

Mais recentemente, cineastas como Mohammad Rasoulof, diretor de “Não Há Mal Algum” e “A Semente do fruto Sagrado”, ganharam notoriedade internacional ao abordar de forma direta as contradições do regime, enfrentando processos judiciais e restrições de viagem.

Crédito: Divulgação

O êxito recente de “Foi Apenas um Acidente” reafirma essa tradição de excelência artística e resistência cultural. Ao disputar espaço no Oscar e acumular reconhecimento em Cannes, o filme demonstra que o cinema iraniano segue pulsante, reinventando-se diante das adversidades.

Crédito: Divulgação/The Academy of Motion Picture Arts and Sciences