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O que significa ter dificuldade de jogar coisas fora
Nem sempre é bagunça, às vezes é emoção
Tem gente que até tenta, mas na hora de descartar bate um aperto: “vai que eu preciso”, “isso tem história”, “é desperdício”. À primeira vista parece só um traço de personalidade, porém muitas vezes esse comportamento está ligado a emoções bem específicas, cansaço mental e até ao jeito como seu cérebro lida com escolhas.
Por que desapegar parece tão difícil em alguns dias?
Quando a rotina está pesada, o cérebro tende a evitar decisões que envolvem perda. E jogar algo fora é exatamente isso: uma escolha definitiva. Se você já está sobrecarregado, o simples ato de decidir pode virar um esforço enorme, alimentando a indecisão e o adiamento.
Também existe o fator emocional: a bagunça visível pode ser mais fácil de encarar do que o desconforto interno. Em fases de ansiedade, segurar objetos dá uma sensação de controle, mesmo que pequena. É como se manter algo por perto diminuísse a insegurança do “e se”.

O apego emocional e a culpa têm mais força do que parecem
Muita gente não guarda “coisas”, guarda significados. Um papel simples pode carregar lembranças, vínculos e identidades. Esse apego emocional faz com que descartar pareça apagar uma parte da história, como se a memória dependesse do objeto para continuar existindo.
Outra trava comum é a culpa: medo de desperdiçar dinheiro, de parecer ingrato, de jogar fora um presente, de “não valorizar”. Some isso à memória afetiva e pronto, até itens sem uso viram “difíceis demais” de sair. O problema é que o alívio de guardar costuma ser curto, e o peso de acumular vai crescendo.
Quando isso vira transtorno e merece atenção extra?
Existe uma diferença entre ter apego e viver com sofrimento por causa disso. O transtorno de acumulação é marcado por dificuldade persistente de descartar, forte angústia ao tentar se desfazer e acúmulo que atrapalha a casa e a rotina. Não é “preguiça” nem falta de capricho: é um padrão que prende a pessoa num ciclo de evitar, guardar e se sentir pior depois.
Você olha para um item simples e sente tensão, como se qualquer escolha fosse “errada”.
O acúmulo começa a limitar uso de armários, mesas, sofá e até a circulação.
O perfeccionismo faz você pensar que só vale organizar quando der para fazer “do jeito certo”.
Como começar a desapegar sem entrar em pânico
Se você quer destravar, o caminho mais gentil é reduzir a decisão. Em vez de “vou limpar a casa inteira”, escolha um microalvo e crie regras simples. Isso evita o efeito dominó de ansiedade e ajuda a fortalecer a sensação de progresso na organização da casa.
Uma sequência prática que costuma funcionar é esta:
- Comece por itens sem vínculo emocional, como embalagens, papéis repetidos e objetos quebrados
- Use uma pergunta única para decidir: “eu usaria isso nos próximos 30 dias?”
- Faça uma caixa de “talvez” com data para reavaliar, em vez de decidir tudo na hora
- Defina um tempo curto, como 10 a 20 minutos, e pare quando ele acabar
- Feche o ciclo: coloque fora ou doe imediatamente para não voltar atrás
A psiquiatra Rita Jorge explica, em seu TikTok, como funciona a mente de um acumulador:
@ritajorge59 Acumuladores Transtorno muito difícil!!! Rita Jorge, Médica, Psiquiatra, CRM 88.994, RQE 26.859, #psiquiatrasp #qualidadedevida #depressão #tab #depressao #ansiedade #tag #tdah #tdahadulto #saudeespirital #cuidardequemcuida #atividadefísica #psiquiatraestoica #autismo #tea #acumuladores ♬ som original – Rita Jorge – Bote Salva Vidas
Quando procurar ajuda e o que melhora de verdade
Se o acúmulo está afetando relações, rotina, higiene, segurança ou causando sofrimento constante, vale buscar apoio profissional. A terapia cognitivo-comportamental é uma abordagem comum nesse tema porque trabalha pensamentos de perda, medo de errar, apego e o treino de decisão de forma estruturada, sem julgamentos.
O ponto não é virar uma pessoa “minimalista”, e sim recuperar espaço mental e físico. Quando você aprende a separar lembrança de objeto, e necessidade real de medo, o desapego deixa de ser uma briga diária e vira um hábito possível, do seu jeito e no seu ritmo.