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No Japão, quem é pobre vive em “favelas” que superam a qualidade e infraestrutura de muitas cidades pelo mundo
Bairros simples e considerados abaixo no Japão impressionam pela qualidade urbana acima da média.
Falar de “favelas no Japão” é ousado, e o governo de Osaka evita esse rótulo. Ainda assim, Kamagasaki, ou Airin-chiku, é o bairro mais estigmatizado do país. Em Nishinari-ku, abriga 20 a 30 mil moradores, entre diaristas e pessoas em situação de rua, em apenas 2 km. O contraste impressiona: ruas pavimentadas, iluminação adequada, coleta de lixo regular e a estação Shin-Imamiya, que conecta o bairro à cidade.
Como Kamagasaki se tornou o centro da mão de obra japonesa?
A região surgiu no período pós-Segunda Guerra Mundial como um grande polo de recrutamento de trabalhadores braçais para a reconstrução do Japão. Após os bombardeios de 1945, a região se reorganizou em torno de mercados informais e passou a atrair veteranos e trabalhadores braçais em busca de renda. Nos anos 1960, viveu seu auge, com cerca de 40 mil diaristas circulando diariamente, sustentando a reconstrução de Osaka por meio da construção civil pesada e de uma economia baseada em trabalhos temporários.
Esse cenário começou a mudar nos anos 1990, com o avanço da automação e o colapso da bolha econômica japonesa, a demanda por esse perfil de trabalho despencou, transformando o perfil do bairro. Hoje, o local lida com o envelhecimento massivo de sua população e com a transição de um hub operário para uma área de assistência social e moradia de baixo custo.

A infraestrutura que contradiz o rótulo de favela
A palavra “favela” perde sentido quando se observa a realidade estrutural. Kamagasaki tem ruas asfaltadas, prédios altos, sinalização completa, máquinas de venda automática em cada esquina e transporte público integrado. A estação Shin-Imamiya conecta o bairro às linhas JR, Nankai e ao metrô municipal, colocando Namba a cinco minutos e o Aeroporto de Kansai a menos de uma hora.
A maioria dos moradores vive em doyas, quartos de hotel compactos que custam entre 800 e 1.500 ienes por noite (aproximadamente R$ 30 a R$ 55). Esses edifícios, originalmente pensados para trabalhadores solteiros, hoje abrigam também mochileiros estrangeiros atraídos pelo preço. A Expo 2025 de Osaka acelerou projetos de renovação urbana e elevou o custo dos aluguéis, pressionando moradores antigos.
Kamagasaki, em Osaka, é considerada a maior “favela” do Japão, mas o conceito japonês de periferia desafia as percepções brasileiras sobre pobreza e infraestrutura. O vídeo é do canal Lucas Bigodinho, com mais de 1 milhão de inscritos, e oferece um mergulho na realidade social de um dos bairros mais marginalizados do país:
Como é o perfil de quem vive em Kamagasaki?
Dos cerca de 30 mil habitantes estimados, a maioria é composta por homens acima de 50 anos, sem laços familiares e com histórico de trabalho braçal. Um terço recebe assistência previdenciária. Cerca de 1.500 vivem em situação de extrema pobreza, sem qualquer recurso fixo. A tabela abaixo compara o perfil do bairro com a média de Osaka.

Fontes baseadas em dados aproximados do e-Stat, Statistics Bureau of Japan, Population Census 2020.
Os mitos que não resistem a uma caminhada pelo bairro
Kamagasaki foi descrita por décadas mais por rótulos do que por fatos. A imagem de zona perigosa e isolada não sobrevive a uma visita atenta. A taxa de homicídio intencional no Japão é de 0,78 por 100 mil habitantes, uma das mais baixas do planeta, e o bairro acompanha essa tendência. A tabela abaixo confronta os estigmas mais comuns com o que se observa no cotidiano.

Fontes baseadas em dados aproximados aos do: Japan National Police Agency / Osaka City Government
O que conhecer ao caminhar por Nishinari-ku
Kamagasaki não é um destino turístico convencional, mas oferece uma imersão na história social do Japão que poucos roteiros incluem. Quem visita encontra um bairro funcional e surpreendentemente acolhedor.
- Airin Labor Welfare Center: inaugurado em 1970, foi o coração do recrutamento de diaristas. Fechado desde 2019, seu entorno ainda concentra a vida comunitária do bairro e segue em disputa judicial sobre o futuro do espaço.
- Estação Shin-Imamiya: entroncamento entre linhas JR e Nankai, ponto de partida para explorar o bairro. A poucos passos, o cenário muda por completo em relação ao restante de Osaka.
- Doyas convertidas em hostels: antigos alojamentos de trabalhadores que hoje recebem mochileiros, mantendo o preço baixo e a estrutura compacta que define a identidade local.
- Shinsekai: bairro vizinho com torres de néon, restaurantes de kushikatsu (espetinhos fritos) e a icônica Torre Tsutenkaku. O contraste com Kamagasaki é imediato e revelador.
- Festivais comunitários: organizados por grupos religiosos e ONGs, reúnem moradores e voluntários com música, comida e assistência médica gratuita.

Uma sociedade que envelhece refletida em um único bairro
Kamagasaki é um espelho do Japão contemporâneo. O envelhecimento acelerado da população, o isolamento social de idosos e a tensão entre preservação e gentrificação se concentram ali com uma nitidez rara. Muitos dos moradores atuais são os mesmos operários que ergueram a Osaka moderna nas décadas de 1960 e 1970. Hoje, dependem de auxílios governamentais e da solidariedade de ONGs como o Projeto Especial Nishinari, lançado em 2012 pela prefeitura para transformar a região.
A Expo 2025 intensificou a pressão. Hospedarias que serviam a diaristas agora atendem turistas estrangeiros, e os aluguéis sobem. O desafio é renovar sem expulsar quem construiu a história do lugar.
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O bairro que Osaka prefere não nomear nos mapas
Kamagasaki existe apesar de o governo tentar apagar seu nome. As ruas funcionam, o metrô chega, os moradores resistem. É um lugar onde pobreza e organização urbana dividem o mesmo quarteirão, e onde o rótulo de “favela” se dissolve ao primeiro passo no asfalto limpo.
Você precisa descer na estação Shin-Imamiya e caminhar por Kamagasaki sem pressa, para entender como um bairro invisível nos mapas ensina mais sobre o Japão do que qualquer guia turístico.