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Como os EUA moldam o Brasil: podcast de Marcos Uchôa analisa influência
Episódio mostra como cultura, consumo e política dos americanos impactam hábitos no país e questiona o fascínio brasileiro pelo modelo dos EUALançado nesta terça-feira (31/03) no YouTube da Rádio Tupi e nas principais plataformas de áudio, o segundo episódio do podcast apresentado por Marcos Uchôa volta o olhar para um tema central na formação do mundo contemporâneo, e também do próprio Brasil: a influência dos Estados Unidos. Intitulado “Estados Unidos da América e o fascínio dos brasileiros”, o episódio amplia a proposta da série ao analisar como hábitos, valores e percepções foram moldados, ao longo do tempo, pela presença americana.
Ao longo do programa, a análise percorre diferentes dimensões dessa influência, da cultura ao poder político, passando por tecnologia, economia e comunicação, para explicar por que os Estados Unidos seguem como referência global, mesmo diante de contradições internas e questionamentos crescentes.
Do cotidiano à construção histórica da influência
A presença americana não se limita a grandes decisões políticas ou econômicas, ela aparece de forma constante no cotidiano. Expressões em inglês incorporadas ao vocabulário, hábitos de consumo e referências culturais difundidas pelo cinema e pela televisão ajudam a ilustrar como essa influência se consolidou ao longo do tempo.
“A cultura americana impõe esse lado da imagem acima do conteúdo, como se a linguagem valesse mais”, observa Uchôa, ao apontar que essa presença vai além do entretenimento e interfere diretamente na forma como as pessoas se comunicam e se percebem.
Essa influência cotidiana, no entanto, não surge de forma isolada. Ela está conectada a processos históricos mais amplos, que ajudam a explicar por que os Estados Unidos ocupam esse espaço de centralidade no imaginário global.
Da Doutrina Monroe ao domínio cultural
Para compreender essa trajetória, o episódio recorre à Doutrina Monroe, formulada no século XIX, que estabelecia a ideia de que o continente americano deveria permanecer sob a influência dos Estados Unidos, afastando a atuação de outras potências.
Ao longo do tempo, essa lógica se desdobrou em diferentes formas de presença política, econômica e cultural na América Latina, e ajuda a entender por que essa influência se tornou tão naturalizada.
“Isso vai mais ou menos explicando porque ao longo do tempo a gente foi ficando assim dominado pela cultura americana”, afirma o jornalista.
A análise mostra que essa relação não se constrói apenas por imposição, mas também por adesão, o que reforça o alcance dessa influência em países como o Brasil.

Democracia, contradições e permanências históricas
Ao revisitar a independência dos Estados Unidos, em 1776, o episódio destaca como o país se estruturou a partir de um discurso associado à liberdade e à democracia. Ao mesmo tempo, chama atenção para as contradições presentes desde a origem, como a manutenção da escravidão e a exclusão de mulheres da participação política.
Essa dualidade aparece como um elemento recorrente ao longo da história americana: um modelo que se apresenta como referência global, mas que carrega tensões internas profundas.
Ciência, tecnologia e poder global
Outro eixo importante da análise é o papel dos Estados Unidos na produção de conhecimento e inovação. O episódio destaca o investimento em universidades e pesquisa como um dos pilares do protagonismo americano ao longo das últimas décadas.
“Os Estados Unidos foram criando as universidades mais incríveis […] grande parte do sucesso americano tem a ver com essas universidades sugando os melhores cérebros do mundo”, afirma Uchôa.
Esse modelo articula investimento público, iniciativa privada e produção acadêmica, permitindo que avanços científicos sejam transformados em produtos e serviços com impacto global. “A ciência é empacotada, comercializada e transformada em produto pela capacidade americana de juntar uma coisa com a outra”, explica.
Comunicação concentrada e disputa de narrativas
Esse domínio tecnológico também se reflete na forma como a comunicação é estruturada globalmente. Grandes plataformas digitais, controladas por poucos grupos, passaram a influenciar não apenas a circulação de informações, mas também a formação de opiniões.
Nesse cenário, algoritmos e redes sociais ampliam a polarização e moldam o debate público, criando ambientes em que diferentes visões de mundo competem por espaço e visibilidade.
Violência, identidade e construção simbólica
Ao tratar de aspectos culturais, o episódio aponta a violência como um elemento presente desde a formação dos Estados Unidos, passando pela expansão territorial, pela relação com populações indígenas e pela construção institucional do país.
Esse traço também se reflete no imaginário coletivo, especialmente na indústria cultural, onde a figura do indivíduo que resolve conflitos de forma isolada é recorrente.
Racismo e política externa
A questão racial surge como um ponto central da análise, tanto no contexto interno quanto na atuação internacional dos Estados Unidos. O episódio sugere que essa dimensão ajude a compreender decisões políticas e conflitos ao longo da história recente.
“Esse racismo vai muito além do que os negros americanos sofrem […] as guerras americanas têm sido contra pessoas não brancas”, afirma o jornalista.
A reflexão propõe uma leitura mais ampla sobre o papel do país no cenário global, questionando narrativas consolidadas e ampliando o debate sobre poder e desigualdade.

O fascínio e os limites do modelo americano
Na parte final, o episódio revisita o chamado “sonho americano” e discute sua permanência no imaginário coletivo. Embora ainda exista forte atração global pelo país, a análise aponta mudanças na realidade interna, como desigualdade social, dificuldades de acesso à saúde e o perfil socioeconômico das forças armadas.
“Os Estados Unidos são pra gente de um fascínio incrível e continuam a ser, mas eu acho que há um profundo vira-latismo da nossa parte quando a gente se entrega completamente à valorização do que é americano”, afirma.
A leitura sugere que, apesar do prestígio internacional, o modelo americano apresenta contradições que precisam ser consideradas, especialmente quando observado a partir de países como o Brasil.
Assista ao segundo episódio de ‘Uchôa no Mundo’ na Rádio Tupi!