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Parece a Califórnia, mas é o sertão: a cidade brasileira que fatura US$ 1 bilhão com frutas e produz duas safras de vinho por ano
Região que quase não chove produz 2 safras por ano e abastece mais de 50 países
O esperado são cactos e caatinga seca. O que o viajante encontra em Petrolina são parreirais irrigados, pomares de manga que chegam à Europa e um aeroporto movimentado por empresários do agronegócio. A cidade sertaneja de Pernambuco transformou a escassez hídrica em vocação de exportação.
Como o sertão virou celeiro do mundo
A virada começou nos anos 1960, quando estudos apontaram o potencial da irrigação no Vale do Rio São Francisco. A Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf) implantou os perímetros irrigados e o primeiro grande projeto, o Nilo Coelho, entrou em operação em 1984. A Embrapa Semiárido, instalada em Petrolina em 1975, desenvolveu as tecnologias que permitiram induzir a floração da mangueira em qualquer época do ano e adaptar variedades de uva ao calor do sertão.
O resultado foi uma paisagem improvável: mais de 100 mil hectares irrigados entre Petrolina e Juazeiro (BA), segundo dados da própria Codevasf. Juntas, as duas cidades formam o maior polo de fruticultura irrigada do Brasil e respondem por cerca de 30% de todas as exportações brasileiras de frutas.

O que Petrolina exporta e para onde vai?
Em 2024, as frutas do Vale chegaram a mais de 50 países, movimentando aproximadamente US$ 1 bilhão em exportações, segundo a Associação Brasileira dos Produtores e Exportadores de Frutas e Derivados (Abrafrutas). O destaque vai para dois produtos que dominam o mercado global.
- Manga: em 2025, cerca de 92% de toda a manga exportada pelo Brasil teve origem no Vale do São Francisco, segundo especialista do Observatório de Mercado da Manga da Embrapa Semiárido. A área plantada cresceu de cerca de 15 mil para aproximadamente 50 mil hectares em uma década.
- Uva de mesa: a região responde por mais de 90% das uvas de mesa destinadas à exportação no país. Com volume anual entre 60 mil e 70 mil toneladas, os mercados-alvo incluem Europa e Estados Unidos, conforme dados da Prefeitura de Petrolina.
- Goiaba, melão e acerola: completam a pauta de exportação, com crescimento nas vendas para a Europa e o Oriente Médio.

O sertão que produz duas safras de vinho por ano
Há uma curiosidade que surpreende sommelier francês: o Vale do São Francisco é a primeira região de vinhos tropicais do mundo a conquistar uma Indicação Geográfica com padrões equivalentes aos da União Europeia. Em novembro de 2022, o Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) concedeu a Indicação de Procedência (IP) Vale do São Francisco para vinhos finos, espumantes e moscatel espumante, conforme publicação na Revista de Propriedade Industrial do INPI.
O segredo é o clima. O semiárido entrega mais de três mil horas de sol por ano, baixa precipitação e temperaturas estáveis. Com irrigação pelo Velho Chico, o ciclo da videira dura quatro meses, o que permite duas safras por ano, algo inexistente em outras regiões vitivinícolas do planeta. As vinícolas Rio Sol, Terranova (Grupo Miolo), Botticelli e Garziera estão entre as que recebem visitantes para degustação e passeios pelos parreirais.

O que visitar na Califórnia do Sertão
Petrolina oferece um roteiro que mistura rio, vinho, cultura e gastronomia. Quem fica mais de um dia consegue ver os dois lados do São Francisco, já que Juazeiro (BA) fica do outro lado da Ponte Presidente Dutra.
- Orla de Petrolina: calçadão à beira do São Francisco com ciclovia, quiosques e vista direta para Juazeiro. O pôr do sol é um dos mais fotografados do interior nordestino.
- Enoturismo nas vinícolas: passeios guiados saem de Petrolina em direção a Lagoa Grande e Casa Nova, com visita a parreirais e degustações. O roteiro do Vapor do Vinho inclui navegação no Lago de Sobradinho com música ao vivo e visita à Terranova Miolo.
- Ilha do Fogo: localizada entre Petrolina e Juazeiro, é o destino favorito para banho de rio e prática de esportes aquáticos.
- Catedral do Sagrado Coração de Jesus: construção em estilo neogótico com pedras locais, com vitrais que filtram a luz do sol do sertão de forma impressionante.
- Mercado do Produtor: feira ao ar livre onde frutas, especiarias e produtos regionais chegam direto dos pomares para as bancas. Ideal para entender a escala da produção local.

O que comer em Petrolina além das frutas
A identidade gastronômica da cidade tem um endereço fixo: o Bodódromo, complexo com mais de dez restaurantes na Avenida São Francisco especializados em carne de bode e carneiro. Nos fins de semana, os restaurantes do complexo preparam entre 150 e 200 quilos de carne de bode por noite, servida na brasa com feijão de corda, macaxeira frita e farofa d’água. O bode é presença constante na mesa das famílias petrolinenses, tanto pelo hábito cultural quanto pela criação local do animal.
Fora do Bodódromo, a carne de sol com macaxeira e queijo coalho é pedida certa. Quem visita as vinícolas ainda tem a opção de almoços regionais harmonizados com espumantes do próprio Vale.
Quando ir e como chegar
O clima é semiárido quente, com temperaturas raramente abaixo dos 20°C. Entre junho e novembro, o tempo fica mais seco, o que favorece o enoturismo e as visitas às vinícolas. É também a principal janela de exportação de frutas, quando os parreirais e pomares estão em plena atividade.
O Aeroporto Senador Nilo Coelho (PNZ) recebe voos diretos de Recife e São Paulo. Por terra, a viagem de Recife leva cerca de 8 a 9 horas pela BR-232. De Salvador, o percurso é similar pela BR-407.