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Fumaça de charuto à 1h: Como Eurico Miranda tirou Donizete Pantera do Flamengo no meio da madrugada
Ex-jogador conta como Eurico Miranda o convenceu a desistir do Flamengo
O ex-atacante Donizete Pantera revelou nesta segunda-feira (13) que esteve muito perto de acertar com o Flamengo antes de se tornar ídolo do Vasco. Em entrevista ao Penido’s Podcast, da Super Rádio Tupi, apresentado por Luiz e Rafa Penido, o jogador contou em detalhes como o então dirigente Eurico Miranda, já falecido, foi pessoalmente à sua casa durante a madrugada para convencê-lo a desistir do rival e assinar com o cruzmaltino.
Segundo Donizete, ele já tinha um acordo praticamente fechado com o Flamengo quando Eurico decidiu agir. Por volta de 1 hora da manhã, o dirigente apareceu em frente à residência do jogador, acompanhado do então gerente de futebol Isaías Tinoco.
“Minha casa era toda de vidro, mas tinha um muro. Eu vi aquela fumaça saindo, era 1 hora da manhã, era o charuto dele. Eu falei: ‘Caramba, tem um cara lá’. Fui lá e ele, grandão, falou: ‘Tudo bom, boa noite'”, relembrou o ex-atacante.
A conversa foi curta e direta. Eurico sentou, pediu uma Coca-Cola, “pelo incrível que pareça eu tinha”, brincou Donizete, e disparou sem rodeios: “Vai se apresentar no Vasco amanhã”. O jogador, surpreso, ouviu do dirigente que ele trataria os detalhes com seu empresário, Léo Rabello, e que bastava ir ao Corinthians se despedir.
“Eu já estava fechado com o Flamengo. Aí eu falei: ‘Porra, o cara vem aqui na minha casa me buscar, eu vou fazer o quê no Flamengo? Vou pro Vasco’. Não tem como, né? Tá fechado”, disse o ex-atacante.
Donizete fez história pelo Vasco, onde conquistou o Campeonato Brasileiro de 1997 e a Libertadores de 1998, sendo peça importante nas duas campanhas. Antes, havia sido campeão brasileiro pelo Botafogo em 1995. O atacante também defendeu a seleção brasileira e passou por clubes como Corinthians e Grêmio ao longo da carreira.
Para Donizete, o gesto pessoal de Eurico foi decisivo. O dirigente, segundo ele, tinha esse perfil nas negociações. “O Eurico era mais jeitoso nisso, por isso que ele fez grandes contratações”, avaliou.
‘Uma figura doce de conviver’
Além da história da contratação, Donizete surpreendeu ao fazer uma descrição de Eurico Miranda que destoa da imagem que o dirigente carregou ao longo de décadas. Conhecido pelo temperamento explosivo e pelos embates constantes com a imprensa, Eurico era tido por muitos como uma figura intimidadora. Para o ex-atacante, porém, o convívio diário revelava outro lado.
“Quem não conviveu com o Eurico acha que ele era um mala, mas era uma figura doce de conviver e era muito liberal e democrático”, afirmou.
Donizete contou que tinha liberdade para brincar com o dirigente e que usava o bom humor para quebrar o gelo. “Às vezes ele vinha sério e eu falava: ‘Nossa, você tá lindo hein, doutor, elegante, parecendo um chefão’. Ele ficava olhando pra mim: ‘Tô mesmo, tô mesmo’. Ele gostava dessa resenha”, relembrou.
Veja como foi o podcast na íntegra
O ex-atacante revelou ainda que o técnico Lopes chegou a pedir que Eurico repreendesse Donizete por dar entrevistas demais. A resposta do dirigente, porém, foi na direção oposta: “Deixa, ele fala demais mesmo, deixa”. Para o jogador, aquilo era prova de cumplicidade.
Donizete reconheceu, no entanto, que a lealdade de Eurico era uma via de mão dupla com contornos radicais. “Se você ia contra ele, você era inimigo para sempre. Se você ia a favor dele, ele te defendia até a morte”, definiu.
Mesmo admitindo que os salários da época não eram altos, o ex-atacante não hesitou na avaliação final: “Nota 1000. Apesar de ele não ter me dado muito dinheiro, nota 1000”.