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Citação de Ayrton Senna: “Não tenho ídolos. Tenho admiração por trabalho, dedicação e competência”
Declaração foi dada em 1981, quando o piloto disputava a Fórmula Ford na Inglaterra
“Eu não tenho ídolos. Tenho admiração por trabalho, dedicação e competência.” A frase de Ayrton Senna foi dita em outubro de 1981, quando o piloto tinha 21 anos e disputava a Fórmula Ford 1600 na Inglaterra, três anos antes de estrear na Fórmula 1. A declaração foi resgatada e republicada pela revista Veja na edição especial 1338-A, de 3 de maio de 1994, dois dias depois do acidente em Ímola que tirou sua vida.
Quem foi Ayrton Senna da Silva, nascido em São Paulo em 21 de março de 1960, é uma daquelas figuras que ultrapassam o esporte que praticaram. Tricampeão mundial de Fórmula 1 em 1988, 1990 e 1991, autor de 41 vitórias e 65 pole positions em 161 grandes prêmios disputados, Senna é um dos atletas mais admirados da história do automobilismo, citado por sucessores como Lewis Hamilton, Sebastian Vettel e Max Verstappen como referência de pilotagem e mentalidade.
A frase impressiona pela precocidade. Ainda na Fórmula Ford, antes de pilotar um carro de Fórmula 1, Senna já articulava uma distinção que muitos profissionais demoram a vida toda para fazer. A diferença entre ter ídolo, no sentido de devoção pela figura, e admirar a competência alheia, no sentido do respeito ao trabalho bem feito.
A coerência entre a frase e a trajetória
Em outras entrevistas ao longo da carreira, Senna mencionou pilotos que respeitava profundamente. “Meus ídolos como pilotos sempre foram Niki Lauda e Gilles Villeneuve. O primeiro pela frieza e Villeneuve pela agressividade”, afirmou em outra ocasião. O detalhe importa: quando Senna usou a palavra “ídolos”, foi sempre para qualificar uma característica técnica específica. Não admirava Lauda como persona, admirava a frieza de Lauda. Não admirava Villeneuve como ícone, admirava a agressividade de Villeneuve.
A coerência entre a frase de 1981 e o piloto que ele se tornou ajuda a entender por que a declaração ainda circula. Senna era conhecido pelo perfeccionismo técnico, pelo hábito de passar horas com engenheiros analisando dados de telemetria e pela disposição em treinar sob qualquer condição. Em depoimentos sobre a profissão, o piloto afirmou que continuava na Fórmula 1 não por glamour, mas por ter feito uma escolha de vida.
Por que a frase atravessou décadas
A formulação em três palavras articuladas, trabalho, dedicação e competência, é parte da explicação para a longevidade da frase. Ela funciona como uma régua aplicável a qualquer contexto. Atletas, treinadores, gestores, professores e profissionais de áreas distantes do automobilismo recorrem à fala porque ela desloca a noção de admiração do território da fama para o território do mérito.

Há também uma camada cultural. O Brasil dos anos 1980 e 1990, quando Senna construiu sua carreira, era um país acostumado a celebrar talentos individuais como dom natural, algo recebido sem esforço. A frase do piloto contraria essa narrativa. Sugere que aquilo que se admira em alguém não é o que essa pessoa “é”, mas o que essa pessoa “faz” e como faz.
O que a frase ensina sobre o próprio Senna
Ayrton Senna costuma ser lembrado pelo destemor nas pistas, pela religiosidade declarada, pelas voltas históricas em Mônaco e Donington, pelo confronto com Alain Prost. A frase de 1981 acrescenta uma camada que às vezes fica em segundo plano. Mostra um piloto que pensava o sucesso como construção, não como destino, e que separava a figura pública da pessoa real desde muito cedo.
Trinta e dois anos depois daquele acidente em Ímola, no dia 1º de maio de 1994, a frase continua sendo republicada em retrospectivas que veículos esportivos publicam em maio, mês que concentra as homenagens ao tricampeão. Sobrevive porque diz algo simples e raro ao mesmo tempo.
Que o trabalho admirável é o que merece admiração, e que ídolos, no sentido superficial da palavra, talvez sejam um atalho para não enxergar o esforço de quem realmente fez por merecer.