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Arqueólogos estavam explorando um vasto deserto e encontraram monumentos funerários de 6.000 anos

Satélites revelam sociedade de 6 mil anos que enterrava humanos e bovinos juntos

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Arqueólogos estavam explorando um vasto deserto e encontraram monumentos funerários de 6.000 anos
Monumentos antigos ajudam a entender civilizações antigas

Entre o rio Nilo e o mar Vermelho, no deserto de Atbai, no leste do Sudão, imagens de satélite vêm revelando monumentos funerários circulares ligados a uma antiga sociedade de pastores de gado, ativa há cerca de 6.000 anos, cujas estruturas de pedra, distribuídas em pontos estratégicos da paisagem, funcionam como um registro silencioso de um período mais úmido e propício à pecuária, ajudando a reconstruir trajetos, áreas de pastagem, práticas rituais e transformações ambientais dessa cultura hoje desaparecida.

O que caracterizam as Atbai Enclosure Burials na paisagem do deserto de Atbai

Os monumentos identificados ficaram conhecidos como Atbai Enclosure Burials (AEBs), estruturas funerárias de pedra com formato predominantemente circular que cercam câmaras internas onde eram depositados corpos humanos e restos de animais, principalmente de gado. Esses complexos, que em alguns casos atingem dezenas de metros de comprimento, revelam um investimento significativo de tempo e esforço e indicam uma tradição funerária consolidada em plena região árida.

A cronologia proposta para essas sepulturas vai, em geral, de cerca de 4500 a 2500 a.C., período em que o clima era mais úmido do que hoje e favorecia o pastoreio de grande escala. Mesmo com variações de tamanho e detalhes arquitetônicos, as AEBs mantêm um padrão de paredes de pedras locais formando anéis ou recintos, o que sugere regras compartilhadas de construção e um sistema comum de marcar espaços sagrados no deserto de Atbai.

Arqueólogos estavam explorando um vasto deserto e encontraram monumentos funerários de 6.000 anos
Estruturas funerárias monumentais no deserto de Atbai – Eric Lafforgue/Art in All of Us//Getty Images

Como o gado estruturava a economia e a simbologia dessa cultura pastoril

A palavra-chave para entender as sepulturas monumentais do deserto de Atbai é gado, elemento central na economia e na vida simbólica desses grupos pastoris. Em muitas sepulturas, fragmentos de ossos de bovinos foram encontrados ao lado de restos humanos, indicando rituais em que pessoas e animais eram enterrados juntos, possivelmente associados a status, linhagens e crenças sobre o pós-vida.

A presença de arte rupestre com bois, vacas e rebanhos reforça o papel do gado como indicador de riqueza, identidade coletiva e poder. As representações mostram animais decorados ou em cenas de condução, sugerindo não só uma atividade econômica estruturada, mas também um sistema simbólico que associava controle de rebanhos a prestígio social e legitimidade territorial.

  • Indício econômico: o número de animais associados a certas sepulturas pode apontar para a posse de grandes rebanhos.
  • Função ritual: enterros compartilhados de humanos e bovinos sugerem cerimônias complexas de despedida.
  • Marca territorial: os monumentos de pedra podem ter funcionado como sinais de ocupação de áreas de pastagem.

Vestígios de trilhas antigas, interpretadas como rastros de rebanhos, indicam movimentação regular de gado entre pontos de água e zonas de alimentação. Essas marcas, ainda visíveis na paisagem, mostram que os pastores de Atbai se deslocavam em circuitos definidos, retornando a determinados pontos, entre eles as AEBs, que serviam como referências sociais, geográficas e possivelmente cerimoniais.

De que forma o clima influenciou o florescimento e o fim das AEBs

O contexto climático é fundamental para entender o surgimento e a interrupção da tradição funerária das Atbai Enclosure Burials. As evidências indicam que esses pastores atuaram durante o Período Úmido Africano, quando monções mais intensas levavam chuvas para áreas hoje desérticas, criando lagos, cursos d’água e vegetação suficiente para manter rebanhos no atual deserto de Atbai.

A distribuição dos túmulos se concentra na base de montanhas, bordas de planaltos e antigos pontos de água, o que revela escolhas estratégicas ligadas ao pastoreio e ao abastecimento hídrico. Com o recuo das chuvas e o avanço da aridez, fontes de água secaram, pastagens diminuíram e as rotas de rebanhos foram abandonadas, coincidindo com o fim da construção de AEBs e a provável migração desses grupos para áreas mais favoráveis.

  • Período mais úmido favorece expansão de gramíneas e pastagens.
  • Pastores estabelecem rotas e pontos de permanência próximos à água.
  • Sepulturas monumentais são erguidas em locais-chave desse circuito.
  • Mudança climática reduz chuvas e encurta áreas adequadas à pecuária.
  • Grupos pastorais se deslocam para o sul ou para regiões mais favoráveis.
Arqueólogos estavam explorando um vasto deserto e encontraram monumentos funerários de 6.000 anos
Estruturas funerárias monumentais no deserto de Atbai

O que as AEBs revelam sobre identidades regionais e métodos arqueológicos no nordeste africano

As AEBs mostram que o deserto de Atbai não foi apenas uma área de passagem entre grandes civilizações do Nilo, mas também palco de tradições próprias com identidade regional. A arquitetura funerária identificada é distinta de outras manifestações conhecidas no vale do Nilo, o que ajuda a corrigir visões que priorizam apenas grandes centros urbanos e tendem a invisibilizar sociedades móveis e pastorais.

O uso de imagens de satélite permitiu mapear túmulos em cerca de 175 mil milhas quadradas, identificando sepulturas já conhecidas e novas estruturas em áreas de difícil acesso. A combinação de sensoriamento remoto com escavações pontuais tende a revelar mais sítios, detalhar rotas de mobilidade, hierarquias internas e respostas às mudanças ambientais, ampliando a compreensão do passado do nordeste africano e do papel das comunidades dependentes do gado.