Mundo
Professores e alunos de universidades ampliam pressão sobre Milei
Mais de 1,5 milhão de argentinos, segundo organizadores, saem às ruas de Buenos Aires e das principais cidades para exigir o fim do sucateamento da universidade pública e dos cortes orçamentários
Em mais um ato de pressão contra a política implementada pelo presidente Javier Milei, professores universitários, estudantes e sindicalistas tomaram as principais ruas do coração de Buenos Aires para denunciar o sucateamento da universidade pública na Argentina e os cortes orçamentários. Os protestos estenderam-se para outras partes do país e mobilizaram, segundo organizadores, cerca de 1,5 milhão de pessoas.
O governo de Milei acusou um “ato da oposição” e um movimento “completamente político”. A marcha coincide com um escândalo de corrupção envolvendo Manuel Adorni — chefe de gabinete de Milei, ele é acusado de enriquecimento ilícito. Na segunda-feira (11/5), o Executivo publicou mudanças no orçamento, com cortes nos setores da educação e da saúde, em nome da austeridade fiscal. Ao fim da manifestação de ontem, foi lido um documento com um pedido para que a Corte Suprema intervenha e “não permita que o governo siga descumprindo com a Lei de Financiamento Universitário”.
Des dizaines de milliers de manifestants défilent dans les rues de Buenos Aires. Ils appellent à sauver l'université publique, étranglée selon eux par l'austérité budgétaire du président. pic.twitter.com/eSHwJmP1e2
— TV5MONDE Info (@TV5MONDEINFO) May 13, 2026
A psicóloga Ileana Celotto, subsecretária da Associação dos Grêmios Docentes da Universidad de Buenos Aires (UBA) e uma das principais organizadoras da marcha, afirmou ao Correio que a principal demanda dos protestos de ontem foi exigir que o Milei faça valer a Lei de Financiamento Universitário. “O texto foi votado e ratificado cinco vezes pela Câmara dos Deputados e pelo Senado. Além disso, houve duas decisões da Justiça que obrigam sua aplicação. Há 201 dias o governo não aplica essa lei”, explicou.
Ela acusou Milei de levar a um “esvaziamento brutal” da universidade pública. “O orçamento previsto pelo governo modifica muito as possibilidades de funcionamento da instituição de ensino superior pública. No caso da UBA, temos um instituto especializado no tratamento de pacientes com câncer. Dos 18 centros cirúrgicos, apenas seis ou sete estão funcionado. O restante está desativado, pois é necessário um orçamento para fazer os repartos, e esse dinheiro não existe”, acrescentou a subsecretária.
Ainda segundo Celotto, mais de 10 mil professores e funcionários de universidades públicas pediram demissão durante o governo atual. “No caso do Nacional Buenos Aires, um colégio pré-universitário da UBA, 130 docentes se demitiram. Em outro colégio similar, o Carlos Pellegrini, foram 93”, relatou. A organizadora da marcha entende que a aplicação da Lei de Financiamento Universitário implicaria um aumento de mais de 50% nos salários dos professores e nas bolsas estudantis.
Bahía Blanca, a 650km de Buenos Aires, foi uma das cidades que participaram do movimento de protestos por todo o país. Coordenador da marcha local, o professor e dirigente sindical Juan Cappa — secretário adjunto da Associação de Docentes da Universidad Nacional del Sur — disse ao Correio que eram esperados mais de um milhão de manifestantes em todo o país. “Desde a ascensão de Milei ao poder, os salários dos professores e funcionários da universidades caíram cerca de 40%, enquanto as bolsas estudantis despencaram 75% em valor e 50% na quantidade. Estamos saindo às ruas, também, contra os cortes orçamentários nas áreas da ciência e da educação”, explicou.
Demandas
A expectativa de Cappa era de que a manifestação de ontem canalizaria outro conjunto de demandas acumuladas da classe trabalhadora ao governo de Milei. “Haverá protestos contra a falha do governo em implementar a lei emergencial para pessoas com deficiência, por reivindicações pelo aumento de aposentadorias e pela defesa do sistema de saúde. Também atos contra as políticas de Milei que atacam o meio ambiente, corroem os direitos trabalhistas e implementam políticas recessivas que levaram ao fechamento de mais de 20 mil empresas no último período”, enumerou Cappa. “Somam-se a isso inúmeros casos de corrupção dentro do governo. Por todos esses motivos, a marcha universitária será um canal de expressão contra o governo Milei e uma reivindicação por melhorias para toda a população.”
Líder do movimento Polo Obrero e responsável pela organização de piquetes em Buenos Aires, Eduardo Belliboni, 67 anos, falou ao Correio durante a marcha, na capital. De acordo com ele, os manifestantes tomavam mais de 15 quarteirões da Avenida Mayo, do Congresso até a Casa Rosada. A via é uma das mais largas da Argentina. “Uma enorme multidão de trabalhadores do setor de educação no protesto. O governo reprimiu a manifestação de aposentados. Mas, quando centenas de milhares de pessoas saem às ruas, o governo se guarda e não tem possibilidade de reprimir um protesto assim”, disse.
