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Sessão de Terapia retorna madura, melancólica e mais necessária do que nunca

Sexta temporada da série estrelada por Selton Mello aposta em conflitos humanos profundos, atuações intensas e reafirma seu lugar entre as produções mais sofisticadas da dramaturgia nacional

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Crítica Sessão de Terapia

A sexta temporada de Sessão de Terapia prova que algumas séries não sobrevivem apenas pelo formato, mas pela capacidade de se reinventar emocionalmente sem perder a essência. Em tempos em que boa parte das produções apostam em ritmo frenético, reviravoltas artificiais e excesso de estímulos, a obra estrelada e dirigida por Selton Mello segue na contramão: aposta no silêncio, na escuta e no desconforto humano como motor dramático. E talvez seja justamente por isso que continue tão relevante.

Cinco anos após a última temporada, a série retorna ao Globoplay com episódios inéditos, novos pacientes e uma nova supervisora para Caio Barone. O curioso é que, mesmo depois de tanto tempo, a sensação é de que o personagem nunca saiu dali — apenas continuou acumulando dores, traumas e perguntas sem resposta.  

O maior mérito da nova temporada talvez esteja justamente em abandonar qualquer pretensão de transformar Caio em um “guru emocional”. Pelo contrário: a série reforça que terapeutas também falham, adoecem e carregam fragilidades profundas. O próprio Selton Mello definiu a temporada como uma fase em que o personagem precisa lidar com “feridas do passado” e encerrar ciclos internos.   E isso aparece na tela de maneira madura, sem didatismo e sem aquela romantização artificial da saúde mental que muitas obras atuais insistem em fazer.

A direção de Selton continua minimalista, elegante e extremamente sensível. Existe uma confiança rara no texto, nos atores e nos silêncios. A câmera quase nunca invade demais os personagens; ela observa. Isso faz com que cada sessão pareça íntima, desconfortável e real. É um tipo de televisão que exige atenção do espectador, porque não entrega tudo mastigado.

O elenco da temporada também ajuda a renovar a série sem descaracterizá-la. Nomes como Grace Passô, Olivia Torres, Alice Carvalho e Paulo Gorgulho chegam trazendo conflitos contemporâneos ligados à maternidade, envelhecimento, pressão profissional, juventude e traumas familiares.   A série continua entendendo algo fundamental: o consultório é apenas um microcosmo da sociedade.

Outro aspecto interessante é perceber como Sessão de Terapia envelheceu bem. A produção surgiu em 2012, quando debates sobre saúde mental ainda eram muito mais tímidos na televisão brasileira. Hoje, em um cenário em que ansiedade, burnout e esgotamento emocional fazem parte do cotidiano coletivo, a série parece ainda mais atual. Mas ela acerta justamente por evitar o discurso superficial de rede social. Em vez de frases prontas sobre autocuidado, a narrativa mergulha nas contradições humanas.

Nem tudo, porém, é perfeito. O formato continua repetitivo em alguns momentos, especialmente para quem acompanha a série desde as primeiras temporadas. Há episódios em que o ritmo excessivamente contemplativo pode soar cansativo. Além disso, a estrutura já conhecida — paciente da semana, supervisão, conflitos pessoais do terapeuta — inevitavelmente perde parte do impacto de novidade que teve no passado.

Ainda assim, a produção encontra força justamente na profundidade emocional. Poucas séries brasileiras conseguem trabalhar diálogos com tamanha densidade sem parecer artificiais. Existe verdade nos conflitos, nas pausas e até nos momentos de desconforto entre terapeuta e paciente.

O fato de a versão brasileira ter se tornado a adaptação mais longeva do formato israelense BeTipul não parece acaso. A série encontrou uma identidade própria no Brasil, muito sustentada pela interpretação contida e extremamente humana de Selton Mello. Caio Barone nunca é um protagonista carismático no sentido tradicional. Ele é introspectivo, falho, irritante às vezes. E justamente por isso parece tão real.

No fim, a sexta temporada reafirma algo importante: Sessão de Terapia continua sendo uma das produções mais sofisticadas e emocionalmente inteligentes da dramaturgia brasileira contemporânea. Sem explosões, sem grandes efeitos e sem fórmulas fáceis, a série segue apostando naquilo que poucas obras ainda têm coragem de fazer: ouvir as pessoas.  

O texto Sessão de Terapia retorna madura, melancólica e mais necessária do que nunca foi publicado primeiro no Observatório da TV.