Brasil
Lula reedita discurso de soberania contra EUA e Bolsonaro
Em reação à decisão norte-americana de classificar PCC e CV como terroristas, presidente afirma que governo Trump não pode brincar com a democracia brasileiraO presidente Luiz Inácio Lula da Silva elevou o tom, nessa sexta-feira, após os Estados Unidos classificarem o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas. Ele enfatizou que o governo norte-americano não pode tratar o Brasil como uma “republiqueta” nem brincar com a soberania e a democracia do país. Também disparou críticas ao seu principal adversário nas eleições, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), a quem chamou de traidor da pátria.
Lula disse que Flávio “não tem vergonha na cara de trair a nossa pátria e ir nos Estados Unidos pedir intervenção americana no Brasil”. “Se ele fosse pedir intervenção para prender miliciano, eles ficariam presos lá”, cutucou, em evento em Sergipe. “Estão incomodados porque eles sabem que vou vencer a eleição outra vez.”
O chefe do Executivo declarou estar “muito triste” com a postura dos EUA e reconheceu que PCC e CV, de fato, são “terroristas para as comunidades brasileiras”, mas “não são os terroristas que Trump quer”. “Não aceitamos ser tratados como moleques, como uma republiqueta”, ressaltou. Ele lembrou da aprovação da Lei Antifacção e pediu que o Senado aprove a Proposta de Emenda à Constituição ((PEC) da Segurança Pública. O presidente também citou que a decisão americana pode ter impactos no sistema financeiro brasileiro.
Lula voltou a cobrar que a gestão Trump entregue ao Brasil o deputado cassado Alexandre Ramagem, condenado pela participação na trama golpista. Também pediu que seja extraditado para o país o empresário Ricardo Magro, do Grupo Refit, suspeito de fraudes bilionárias no setor de combustíveis.
“Estou muito triste hoje com a notícia de que o secretário dos Estados Unidos da América do Norte, um tal de Marco Rubio, disse que nossos criminosos aqui são terroristas e que os americanos podem fazer intervenção”, disse Lula. “O Trump quer o Osama Bin Laden de não sei das quantas, e nós queremos os terroristas brasileiros que estão lá.”
O presidente disse que as armas contrabandeadas para o país são de origem norte-americana. Também contou que, na visita a Trump, no começo do mês, foi entregue um documento em que o Brasil se coloca “disposto a trabalhar para combater o crime organizado”. “E vamos começar pelo seu estado de Delaware que tem lavagem de dinheiro de brasileiro”, frisou Lula. “Vamos começar entregando o Ramagem que está condenado a 16 anos e está escondido lá. Vamos começar entregando o maior contrabandista de combustível desse país, Ricardo Magro, que a Polícia Federal e a Receita apreenderam quase 250 milhões de combustível contrabandeado, foi dado à Petrobras, e ele está morando em Miami. Eu entreguei para o Trump o nome dele e a fotografia da casa dele. Quer combater o crime organizado? Entregue os nossos que estão lá nos Estados Unidos”, afirmou.
Caso Master
Para o vice-presidente Geraldo Alckmin, Flávio tentou se desvencilhar do envolvimento com o caso Master criando criando um factoide. “O que eu lamento nesse episódio é que, infelizmente, membros do clã Bolsonaro pensam mais em si do que no país”, reprovou, durante agenda em Caraguatatuba (SP). “Então, para sair desse tema do Banco Master, o maior caso de corrupção e sonegação de tributos, ficam gerando factoides, fatos novos para desviar a atenção da questão do Banco Master, que é gravíssima do ponto de vista de corrupção e de sonegação”, emendou.
Conversas divulgadas pelo Intercept Brasil mostraram que Flávio negociou com o dono do Master, Daniel Vorcaro, R$ 134 milhões para, supostamente, financiar o filme Dark Horse, sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. As revelações fizeram o pré-candidato à Presidência cair nas pesquisas de intenção de voto.
Alckmin avaliou que a decisão deve ser ineficaz no combate ao crime e poderá ter impactos econômicos negativos. “Isso é ruim para o Brasil. Pode ter consequências na área do sistema financeiro, na área da economia. Não vai resolver nada em termos de combate ao crime e pode prejudicar a economia”, lamentou.
Segundo Alckmin, o combate ao crime organizado “é feito por terra, mar e ar”. “O Congresso acabou de aprovar a Lei Antifacção, novos crimes foram listados, aumento das penas ao crime organizado e dificuldade da progressão penitenciária, da progressão de pena”, elencou.
Risco ao Pix
O Palácio do Planalto, por sua vez, publicou nota que critica tanto a decisão dos Estados Unidos quanto o clã Bolsonaro. O comunicado ressaltou que o Brasil tem combatido as ações do PCC, CV, outras facções e milícias que “praticam o terrorismo nos territórios em que vivem milhões de famílias”.
“Enfrentar essas organizações criminosas com firmeza é, e continuará sendo, prioridade do Estado brasileiro”, disse a nota. Acrescentou ser “deplorável” que integrantes da família Bolsonaro “viajem aos Estados Unidos para defender intervenção estrangeira no Brasil”.
Também no comunicado, o Planalto destacou que a soberania nacional é inegociável”. “O Brasil rejeita qualquer forma de interferência externa em seus assuntos internos. Medidas unilaterais, não negociadas, podem enfraquecer o combate aos criminosos e gerar ações que colocam em risco a vida das pessoas que nada têm a ver com o crime. Podem reduzir a capacidade de compartilhamento de informações entre as polícias. Podem afetar nosso sistema financeiro e inovações nacionais como o Pix, que incomodam interesses estrangeiros”, enfatizou.
Assinada pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, a nota do Planalto foi elaborada nessa sexta-feira após uma reunião interministerial. Participaram do encontro os ministros Míriam Belchior (Casa Civil), Mauro Vieira (Relações Exteriores), Dario Durigan (Fazenda), Sidônio Palmeira (Comunicação Social).