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Rafa Guerrero, psicólogo: “Uma criança que foi superprotegida pelos pais durante a infância se tornará uma pessoa muito indecisa quando crescer.”

Errar e se frustrar ajudam a criança a confiar em si mesma

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Rafa Guerrero, psicólogo: “Uma criança que foi superprotegida pelos pais durante a infância se tornará uma pessoa muito indecisa quando crescer.”
Superproteção na infância pode criar adultos inseguros

O alerta do psicólogo espanhol Rafa Guerrero é direto e desconfortável: uma criança que os pais impedem de errar, de frustar-se e de tomar decisões por conta própria vai se tornar um adulto com grandes dificuldades para se posicionar no mundo. Em entrevista ao podcast espanhol “Lo que tú digas”, Guerrero afirmou que a superproteção na infância não é uma expressão de amor, mas a projeção dos medos dos próprios pais sobre os filhos. E que esses medos, instalados onde deveriam existir experiências, cobram um preço alto na vida adulta.

O que Rafa Guerrero entende por superproteção?

Para Rafa Guerrero, psicólogo clínico formado pela Universidade Complutense de Madri, a superproteção não nasce de excesso de amor. Ela nasce de excesso de medo. “A superproteção acontece quando o pai ou a mãe se deixa guiar pelos próprios medos de infância”, explica o especialista. Esses medos levam os pais a intervir antes que qualquer dificuldade se instale, a resolver antes que a criança tente, a proteger de riscos que muitas vezes existem apenas na imaginação adulta.

O resultado prático é uma criança que cresce sem acumular as experiências que forjam autonomia emocional. Cada vez que um pai resolve o que a criança poderia resolver sozinha, está enviando uma mensagem implícita que ela absorve sem precisar ouvir: “Você não é capaz.” Essa mensagem repetida ao longo da infância não some com o tempo. Ela se instala como crença e acompanha o indivíduo na vida adulta.

Quais são as consequências concretas de uma infância superprotegida?

Guerrero descreve com precisão o perfil do adulto que cresceu sem a chance de enfrentar desafios reais na infância. Não se trata de fraqueza de caráter, mas do resultado previsível de uma criação que retirou sistematicamente as situações que desenvolvem recursos internos. Os traços mais comuns que o psicólogo identifica:

  • Indecisão crônica: quem não aprendeu a tomar decisões pequenas na infância chega à vida adulta sem repertório para as grandes. A dúvida paralisa porque nunca foi treinada a ser atravessada.
  • Dificuldade de estabelecer limites: dizer não, discordar e defender o próprio espaço são habilidades que se desenvolvem pela prática desde cedo. Quem foi poupado de conflitos pequenos não constrói essa musculatura.
  • Baixa tolerância à frustração: errar, perder e não conseguir o que quer são experiências formativas. Sem elas, qualquer contratempo na vida adulta parece desproporcional porque o sistema interno de amortecimento nunca foi desenvolvido.
  • Dependência e insegurança: o adulto que de criança sempre delegou tarefas aos pais aprende que não consegue fazer nada sozinho. Essa crença se perpetua e contamina relações, carreiras e decisões cotidianas.
  • Dificuldade de sustentar incertezas: a vida adulta é fundamentalmente imprevisível. Quem cresceu num ambiente controlado demais não desenvolve a capacidade de funcionar bem quando as respostas não aparecem de imediato.
Rafa Guerrero, psicólogo: “Uma criança que foi superprotegida pelos pais durante a infância se tornará uma pessoa muito indecisa quando crescer.”
Superproteção na infância pode criar adultos inseguros

Por que proteger em excesso não é a mesma coisa que amar?

Essa é a distinção central que Rafa Guerrero faz questão de nomear. Pais que superprotegem, na maioria dos casos, agem com genuína intenção de cuidar. O problema não está na intenção, mas no mecanismo. Quando um pai remove obstáculos antes que o filho os encontre, está respondendo ao próprio desconforto diante da possibilidade de ver o filho sofrer, não necessariamente à necessidade real da criança. É o medo do adulto que dirige, não o amor.

Guerrero usa uma formulação que resume bem o paradoxo: “Superproteger não é proteger, é limitar.” Os limites impostos na infância por excesso de cuidado não desaparecem quando a criança cresce. Eles se transformam em correntes invisíveis que restringem a capacidade do adulto de se arriscar, de confiar em si mesmo e de tomar posição diante das próprias escolhas.

O que Guerrero propõe no lugar da superproteção?

O psicólogo não defende negligência nem uma criação permissiva sem estrutura. O que propõe é uma presença ativa que acompanha sem interferir o tempo todo. Há uma diferença significativa entre estar disponível quando a criança precisa e estar disponível antes que ela perceba que precisa. A segunda forma retira da criança a chance de descobrir seus próprios recursos.

Guerrero defende que erro, frustração e repetição são partes fundamentais do aprendizado emocional. Validar as emoções do filho diante de um fracasso, incentivar uma nova tentativa e resistir ao impulso de resolver o problema no lugar dele são gestos que parecem menores, mas que constroem, ao longo do tempo, o que nenhuma proteção externa consegue oferecer: confiança interna.

Qual é o papel do amor incondicional nesse processo?

Um dos pilares que Rafa Guerrero destaca com frequência é o amor incondicional, e sua distinção em relação ao amor condicionado a desempenho. Amar os filhos pelo que conseguem, pelas notas que tiram ou pelas habilidades que demonstram é uma forma de afeto que cria ansiedade de aprovação. A criança aprende que precisa performar para ser amada, o que alimenta insegurança e dependência de validação externa ao longo de toda a vida.

Amar incondicionalmente significa que o vínculo não oscila conforme o resultado. “Eu amo meus filhos pelo simples fato de serem meus filhos”, disse Guerrero. Essa base estável é o que permite à criança arriscar, errar e tentar de novo sem o medo de perder o afeto de quem mais importa. Segurança emocional e autonomia crescem juntas, e a raiz de ambas é o mesmo solo.

Superproteger é limitar: o recado que Guerrero deixa aos pais

A mensagem central de Rafa Guerrero não é uma crítica aos pais que amam seus filhos com intensidade. É um convite para examinar de onde vêm os impulsos de proteção excessiva e se eles estão servindo à criança ou ao medo do adulto. Desenvolvimento emocional saudável não acontece na ausência de dificuldade. Acontece quando a criança enfrenta dificuldades proporcionais à sua idade e descobre, repetidamente, que é capaz de atravessá-las.

Cada pequena experiência de superação, um conflito resolvido com um amigo, uma tarefa concluída sem ajuda, uma frustração absorvida e digerida, constrói um tijolo na estrutura interna que o adulto vai precisar para funcionar bem no mundo. Remover essas experiências em nome do cuidado é, paradoxalmente, retirar da criança o que ela mais vai precisar quando os pais não estiverem mais por perto para resolver.