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Américo Vespúcio, navegador: “Se existisse um paraíso na Terra, estaria muito perto daqui” sobre a maior ilha marítima do Brasil, que abriga 10 navios naufragados e o maior evento de vela da América Latina
Mistério subaquático e esporte.
O cheiro de maresia e o verde intenso da Mata Atlântica recebem quem desembarca da balsa em Ilhabela, no litoral norte de São Paulo. Com montanhas cobertas de floresta e praias recortadas, o arquipélago é a maior ilha marítima do Brasil e guarda um equilíbrio raro entre natureza preservada e histórias que atravessam séculos.
Uma ilha que Américo Vespúcio chamou de paraíso em 1502
Quando o navegador Américo Vespúcio passou pela região em 1502, descreveu o arquipélago com admiração, afirmando que, se existisse um paraíso na Terra, ele estaria muito próximo dali. Ao longo do tempo, a ilha já teve diferentes nomes, entre eles São Sebastião e Formosa, até consolidar-se como Ilhabela em 1945, após um movimento local que oficializou a identidade atual.
Hoje, cerca de 85% do território é protegido pelo Parque Estadual de Ilhabela, criado em 1977 e reconhecido como parte da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica pela UNESCO. O parque reúne ilhas menores, comunidades caiçaras tradicionais e abriga o Pico de São Sebastião, ponto mais alto de uma ilha brasileira, com 1.379 metros de altitude, reforçando o caráter único do arquipélago no cenário nacional.

O cemitério de navios que atrai mergulhadores do mundo inteiro
As rochas ricas em magnetita no fundo do mar confundiam bússolas e transformaram Ilhabela no que pescadores chamam de “cemitério de navios”. São 10 embarcações naufragadas e documentadas ao redor do arquipélago, segundo registros da Prefeitura de Ilhabela.
O mais célebre é o Príncipe de Astúrias, transatlântico espanhol que afundou na Ponta da Pirabura em 5 de março de 1916. Era o navio mais luxuoso da Espanha e levava passageiros de Barcelona a Buenos Aires. Oficialmente, 445 pessoas morreram, mas estimativas apontam mais de mil vítimas, incluindo clandestinos. Peças resgatadas estão no Museu Náutico de Ilhabela, no Parque da Usina.
Para quem não mergulha em naufrágios, a Ilha das Cabras é o ponto ideal. Declarada Santuário Ecológico Submarino em 1992, tem águas rasas com tartarugas, raias e a famosa estátua de Netuno submersa a seis metros de profundidade.
Quais praias merecem a travessia até o outro lado da ilha?
O lado oeste, voltado para o continente, concentra as praias com infraestrutura e acesso fácil. O lado leste, selvagem, exige jipe 4×4 ou barco. A diferença compensa cada solavanco na estrada.
- Castelhanos: a maior praia da ilha, com 1,7 km de areia clara e formato de coração visto do mirante. Acesso por estrada de terra de 22 km em veículo 4×4.
- Bonete: acessível por trilha de 12 km ou barco, abriga comunidade caiçara e ondas fortes para surfe. É considerada uma das praias mais bonitas do litoral brasileiro.
- Curral: a mais badalada, com quiosques, restaurantes e mar calmo. Fica no sul da ilha, a poucos minutos de carro do centro.
- Feiticeira: águas cristalinas entre costões rochosos, com cachoeira a poucos metros da areia.
- Jabaquara: no extremo norte, com mar aberto e visual para as ilhas vizinhas. Ponto de partida para a Praia da Fome, reduto de mergulhadores.
O vídeo é do canal Vamos Fugir Blog, que conta com mais de 31 mil inscritos, e apresenta o Mirante do Piúva, a Praia do Curral e a famosa Praia do Jabaquara:

Trilhas e cachoeiras entre a serra e o mar
A serra que corta Ilhabela alimenta centenas de nascentes. Boa parte das trilhas fica dentro do Parque Estadual, com controle de acesso e horários definidos.
- Pico do Baepi: trilha de 7,4 km até 1.048 metros de altitude. Vista de 360 graus do arquipélago, da Serra do Mar e do continente. Nível difícil, cerca de 3 horas de subida.
- Cachoeira do Gato: queda de 70 metros na região de Castelhanos, acessível por trilha moderada de 40 minutos. Poço natural para banho no pé da queda.
- Cachoeira dos Três Tombos: três quedas consecutivas com piscinas naturais entre elas. Trilha curta e acessível para famílias.
- Trilha da Água Branca: no início da estrada para Castelhanos, com passarelas e placas interpretativas. Ideal para crianças e caminhadas leves.
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Do camarão caiçara à Capital Nacional da Vela
A culinária de Ilhabela carrega a herança caiçara em cada prato. Peixes grelhados na folha de bananeira, camarão em todas as versões e a tradicional farofa de taioba aparecem nos cardápios da Vila e das praias do sul. O Festival do Camarão, que chegou à 30ª edição em 2025, reúne dezenas de restaurantes com receitas autorais à base do crustáceo entre agosto e setembro.
Em julho, a ilha vira palco da Semana Internacional de Vela de Ilhabela (SIVI), o maior evento de vela oceânica da América Latina. A competição existe desde 1973, e a 52ª edição, em 2025, reuniu cerca de 120 veleiros no Canal de São Sebastião. O título de Capital Nacional da Vela foi oficializado pela Lei Federal nº 12.457, em 2011.

Quando ir a Ilhabela para aproveitar cada tipo de passeio?
O clima é tropical litorâneo, com chuvas concentradas no verão e inverno mais seco. A temperatura varia entre 18°C e 30°C ao longo do ano. O inverno é a melhor época para trilhas e mergulho, com mar mais calmo e visibilidade maior.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar ao arquipélago saindo de São Paulo
Ilhabela fica a 210 km da capital paulista pela Rodovia dos Tamoios (SP-099) até São Sebastião, onde a balsa faz a travessia em cerca de 15 minutos. As balsas operam 24 horas. De ônibus, linhas partem do Terminal Rodoviário do Tietê até São Sebastião, com conexão para a balsa. Quem vem do Rio de Janeiro percorre cerca de 450 km pela BR-101.
A ilha que merece mais do que um fim de semana
Ilhabela combina o que poucos destinos brasileiros conseguem reunir: praias selvagens no verso da ilha, naufrágios centenários sob o mar, trilhas até picos com vista infinita e uma cultura caiçara que resiste no prato e na festa. O arquipélago entrega mais do que promete, a cada curva de estrada e a cada mergulho.
Você precisa atravessar o canal de São Sebastião e sentir na pele por que Vespúcio escreveu sobre paraíso ao avistar essa ilha pela primeira vez.