Rio
OAB vai ensinar IA a 1,4 milhão de advogados, mas quem prepara o cérebro humano para lidar com ela?
Para a juíza federal há duas décadas, mestranda em Psicologia Forense e pesquisadora da tomada de decisão Alessandra Belfort, a alfabetização tecnológica precisa vir acompanhada da compreensão dos vieses cognitivos que influenciam a confiança em sistemas de inteligência artificial
A decisão da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de lançar um plano nacional para capacitar cerca de 1,4 milhão de advogados no uso da inteligência artificial representa um marco na modernização da advocacia brasileira. Em um cenário em que ferramentas capazes de pesquisar jurisprudência, resumir processos, organizar documentos e até sugerir argumentos jurídicos se tornam cada vez mais comuns, o movimento é visto como inevitável.
Mas, enquanto a discussão pública se concentra em ensinar profissionais a utilizar a tecnologia, uma questão igualmente importante permanece em segundo plano: quem está preparando os seres humanos para lidar com os efeitos cognitivos da inteligência artificial?
Para a juíza federal há duas décadas, mestranda em Psicologia Forense e pesquisadora da tomada de decisão Alessandra Belfort, a transformação digital do sistema de Justiça não pode ser analisada apenas sob a ótica da inovação tecnológica.
“A capacitação técnica é necessária, mas ela não resolve sozinha os desafios trazidos pela inteligência artificial. Precisamos compreender como a mente humana reage às informações produzidas por essas ferramentas e como isso pode impactar a qualidade das decisões”, afirma.
Segundo a magistrada, existe uma tendência natural de acreditar que sistemas tecnológicos são mais objetivos, neutros e confiáveis do que realmente são. Esse fenômeno não decorre necessariamente da qualidade das respostas geradas pela inteligência artificial, mas da forma como o cérebro humano interpreta informações apresentadas com aparência de precisão técnica.
“Quando uma resposta chega estruturada, bem escrita e com aparência de autoridade, existe uma predisposição psicológica de atribuir maior credibilidade àquela informação. Esse mecanismo não surge com a inteligência artificial, mas pode ser potencializado por ela”, explica.
O tema desperta atenção especialmente no ambiente jurídico, onde decisões podem produzir impactos profundos na vida das pessoas. Com o avanço da inteligência artificial, cresce também a possibilidade de que petições, pareceres, pesquisas e análises sejam elaborados parcial ou integralmente com apoio dessas ferramentas.
Nesse contexto, Belfort alerta para um risco conhecido pela psicologia cognitiva: o chamado viés de automação.
“O ser humano frequentemente utiliza atalhos mentais para lidar com situações complexas e com excesso de informação. Quando uma tecnologia passa a oferecer respostas rápidas e aparentemente seguras, existe o risco de reduzir o nível de questionamento crítico. A eficiência da ferramenta pode gerar uma confiança desproporcional ao que ela de fato entrega”, afirma.
A magistrada ressalta que a inteligência artificial não deve ser encarada como uma ameaça, mas como um instrumento que exige uso responsável.
“A questão não é ser contra ou a favor da tecnologia. O desafio é garantir que ela continue sendo uma ferramenta de apoio, e não um substituto da análise humana. Nenhum sistema consegue assumir a responsabilidade ética e jurídica de uma decisão”, destaca.
A discussão ganha relevância em um momento em que o próprio Judiciário amplia o uso de recursos tecnológicos para auxiliar atividades administrativas e processuais. Em diferentes partes do mundo, tribunais já utilizam inteligência artificial para classificação de documentos, pesquisa de precedentes e gestão de grandes volumes de dados.
Para Belfort, a expansão dessas ferramentas torna ainda mais urgente o debate sobre os fatores humanos envolvidos na tomada de decisão.
“Durante muito tempo, imaginamos que os principais desafios do Judiciário fossem apenas normativos ou tecnológicos. Hoje sabemos que compreender os mecanismos psicológicos que influenciam julgamentos e escolhas é igualmente importante”, observa.
A pesquisadora explica que vieses cognitivos afetam todas as pessoas, independentemente de formação, experiência ou nível de conhecimento técnico. Por isso, a simples presença da inteligência artificial não elimina erros de julgamento e, em determinadas circunstâncias, pode até reforçá-los.
“A tecnologia não remove os vieses humanos. Em alguns casos, ela pode apenas mudar a forma como esses vieses se manifestam. Por isso, precisamos desenvolver não apenas competências digitais, mas também competências cognitivas”, diz.
Na avaliação da juíza, o debate sobre inteligência artificial no Direito está entrando em uma nova fase. Depois das discussões sobre acesso, regulamentação e produtividade, surge agora a necessidade de refletir sobre confiança, autonomia e responsabilidade.
“Capacitar profissionais para utilizar a inteligência artificial é um passo importante. Mas talvez a pergunta mais relevante para os próximos anos seja outra: estamos preparando as pessoas para pensar criticamente diante das respostas produzidas por essas ferramentas? Decidir bem não é suprimir o humano é conhecê-lo.”
A resposta a essa pergunta pode definir não apenas o futuro da advocacia, mas também a qualidade das decisões humanas em uma era cada vez mais influenciada pelos algoritmos.