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Duas árvores centenárias com mais de 200 anos e uma madeira rara: oferecidas por 100 bilhões, mas ainda não vendidas, e toda a aldeia se reveza para protegê-las
Árvores seguem de pé por decisão da aldeia
No interior de Hà Tĩnh, no Vietnã, duas árvores centenárias de trầm-hương guardam o pátio de um templo antigo e carregam consigo séculos de história, valor econômico e significado espiritual. Comerciantes chegaram a oferecer o equivalente a 100 bilhões de dôngs vietnamitas pelas duas. A resposta dos moradores foi a mesma todas as vezes: não está à venda.
O que torna o trầm-hương uma das madeiras mais valiosas do mundo?
O trầm-hương é produzido a partir de um processo raro que ocorre dentro das árvores da espécie dó. Quando o tronco sofre algum tipo de ferimento ou pressão, a planta começa a secretar uma resina como mecanismo de defesa. Com o tempo, essa resina se acumula, se transforma e pode originar o que é conhecido como trầm, uma substância com aroma inconfundível e altíssimo valor no mercado internacional.
O processo é lento e imprevisível. Em condições naturais, pode levar décadas. Por isso, árvores antigas com sinais visíveis de formação de resina são raras e disputadas. A combinação de escassez, aroma singular e uso em perfumaria, medicina tradicional e rituais religiosos coloca o trầm-hương entre os produtos florestais mais caros do planeta.

Quem são as duas árvores do templo Đền Khoai Vạc?
As duas árvores ficam no terreno do Đền Khoai Vạc, em Hương Phố, município pertencente à província de Hà Tĩnh, no centro do Vietnã. O templo foi construído originalmente como um pequeno santuário dedicado ao espírito da montanha durante o período do movimento Cần Vương, servindo também como espaço de memória para os heróis locais. As duas dó trầm cresceram ali por mais de dois séculos, entrelaçadas à história do lugar.
Os dados físicos registrados pela prefeitura local dão dimensão do porte dessas árvores:
- A primeira tem circunferência de 2,7 metros, altura de 8 metros e dois galhos principais
- A segunda tem circunferência de 3,7 metros, altura de 11 metros e oito galhos principais
- Ambas apresentam boa condição de saúde e continuam crescendo
Por que os moradores recusaram 100 bilhões de dôngs?
Ao longo dos anos, comerciantes de madeira rara chegaram repetidamente à aldeia para negociar a compra das árvores. Segundo relatos locais, a proposta mais alta chegou a 100 bilhões de dôngs vietnamitas pelas duas. Para os moradores de Hương Phố, porém, nenhum valor foi suficiente para mudar a decisão.
Cụ Phan Văn Chiến, de 93 anos, guarda o Đền Khoai Vạc há cerca de quatro décadas. Ele conhece as árvores desde criança e foi quem assumiu a responsabilidade de cuidar delas quando começou a zelar pelo templo. Sua posição é clara: a comunidade enxerga as duas dó trầm não como um ativo a ser negociado, mas como patrimônio vivo que pertence às gerações futuras.
Como a aldeia organiza a vigilância das árvores?
O valor das árvores também as torna vulneráveis. Partes do tronco com maior concentração de resina são visíveis, e isso atrai atenção indesejada. Para proteger as duas dó trầm de eventuais tentativas de furto ou dano, os moradores organizaram um sistema informal de vigilância comunitária.
- Moradores se revezam na guarda das árvores, especialmente à noite
- O cuidado é compartilhado entre diferentes famílias da aldeia
- A proteção é tratada como responsabilidade coletiva, não individual
- O templo e as árvores são vistos como parte indivisível do patrimônio local
O reconhecimento oficial como Árvores do Patrimônio Vietnamita
Em setembro de 2025, as duas árvores receberam um reconhecimento formal que consolidou o que os moradores já sabiam há gerações. A Associação de Proteção da Natureza e Meio Ambiente do Vietnã emitiu a decisão número 161/QĐ-HMTg, classificando as duas dó trầm do Đền Khoai Vạc como Cây Di sản Việt Nam, as Árvores do Patrimônio Vietnamita. A cerimônia de reconhecimento aconteceu no próprio município de Hương Phố.
O título vai além do aspecto ambiental. Ele reconhece simultaneamente o valor biológico das espécimes, sua relevância histórica ligada ao período do templo e o papel que essas árvores exercem na identidade cultural da comunidade. Para os moradores, o certificado confirma em papel o que eles já praticam no cotidiano há dois séculos.

O que essas árvores representam para quem as guarda
Há algo revelador na recusa de uma comunidade inteira em aceitar uma fortuna por duas plantas. As duas dó trầm de Hà Tĩnh deixaram de ser simplesmente árvores raras para se tornar marcadores de tempo, identidade e pertencimento. Cada galho que cresce carrega a memória dos que cuidaram antes e a responsabilidade com os que virão depois.
Esse tipo de vínculo entre comunidade e natureza raramente aparece em contratos ou certidões. Ele se sustenta em decisões cotidianas, como a de um grupo de pessoas que prefere perder uma negociação milionária a perder a sombra de uma árvore que cresceu junto com elas. As duas centenárias de Đền Khoai Vạc seguem de pé, guardadas não por cercas, mas por memória.