Mundo Corporativo
Flor tem origem: o mercado que o Brasil ainda não vê
Por trás de cada flor vendida no Brasil existe um sistema de propriedade intelectual, contratos e royalties que o consumidor, em grande maioria, ainda não conhece.
Quando alguém compra flores no supermercado, passa por uma floricultura ou contrata decoração para um evento, raramente faz a pergunta mais básica sobre a flor que está na mão: de onde ela veio?
No mercado de vinhos, a denominação de origem é argumento de venda. No café especial, o nome da fazenda está na embalagem. No setor de flores, que movimentou R$ 23,3 bilhões em 2025 no Brasil segundo o Ibraflor, a cadeia de origem ainda é invisível.
Por trás de cada variedade floral comercializada no mundo existe uma empresa que investiu décadas em pesquisa genética para desenvolvê-la. Essa empresa detém direitos de propriedade intelectual sobre a variedade. Para que qualquer produtor possa cultivá-la legalmente, é necessário contrato formal e pagamento de royalties por volume produzido. No Brasil, esse sistema é regulado pela Lei de Proteção de Cultivares (Lei nº 9.456/1997) e gerido pelo Ministério da Agricultura.
Breeders: os donos das flores que ninguém conhece
As empresas que desenvolvem geneticamente flores são chamadas de breeders. Concentradas principalmente na Holanda, Itália e Alemanha, elas trabalham durante décadas em cruzamentos controlados e seleção de características. Coloração, durabilidade pós-colheita, estrutura da haste, resistência a pragas: cada detalhe da flor que chega ao mercado é resultado desse trabalho.
O sistema de licenciamento funciona como o de software ou de cultivares na agricultura de grãos. A diferença é que, na floricultura, esse sistema é quase desconhecido fora do círculo de produtores que já operam dentro dele. “O maior desafio é manter o sistema de licenciamento para todos. Fiscalizamos os sítios dos clientes e temos cooperação estreita com cooperativas e centros comerciais para detectar a produção ilegal das nossas variedades”, afirma Paco van der Louw, diretor da Könst Alstroemeria, empresa holandesa com 80 anos no mercado e 51 anos dedicados ao melhoramento genético de Alstroemeria.
Para ele, um obstáculo recorrente é a imagem distorcida do que são as licenças: o pagamento costuma ser visto como imposto ou lucro puro para o melhorista. “Na realidade, temos 120 trabalhadores no mundo dedicados exclusivamente a isso. O licenciamento das variedades de Alstroemeria é um sistema em que o produtor ganha acesso às novas variedades e o melhorista recebe pelo investimento feito no desenvolvimento.”
Um desenvolvimento que leva de 10 a 12 anos desde o primeiro cruzamento — e em que apenas 0,1% das combinações testadas chega a se tornar uma variedade comercial. De cada mil cruzamentos, só um sobrevive. Os outros 99,9% são testados e descartados ao longo do processo.
A Alstroemeria como caso de estudo
A história da Alstroemeria no Brasil começa com um produtor de Andradas, Minas Gerais. Petrus De Wit, produtor do sítio Lagoa Dourada e cooperado Cooperflora, é apontado como um dos pioneiros no cultivo legal da espécie no país. Nos anos 1990, quando a flor ainda era raridade nas lavouras brasileiras, ele estabeleceu parcerias com breeders internacionais e garantiu o pagamento de royalties desde o início, num mercado que, segundo ele, carregava a má fama de alta informalidade genética. “No início, ser tomado a sério era difícil. O mercado brasileiro era muito conhecido internacionalmente como um mercado informal”, diz De Wit. A parceria com a Könst, um dos primeiros breeders a aceitar o desafio no território nacional, levou anos de testes: diversas variedades foram validadas ou descartadas nos primeiros 15 anos por dificuldades de aclimatização.
Hoje, a Cooperflora, cooperativa localizada em Jaguariúna (SP), reúne 16 produtores especializados na espécie, com portfólio de mais de 80 variedades, todas com licenciamento ativo junto aos respectivos breeders. A evolução é visível: flores que não passavam de 4 a 5 cm de diâmetro chegam agora a 8 cm, com coloração mais estável, hastes mais limpas e o dobro de flores por haste. “Sem o desenvolvimento conjunto de variedades adaptadas ao clima brasileiro, muito provavelmente o produto ainda seria sazonal no país”, avalia De Wit.
O que acontece quando o sistema não é respeitado
Cultivar variedades registradas sem contrato é infração legal e o impacto se distribui por toda a cadeia. O breeder não recebe pelo que desenvolveu. O produtor informal opera com custo menor e pratica preços que distorcem segmentos mais sensíveis, afetando diretamente quem joga dentro das regras. “O trabalho irregular acaba custando menos e, apesar da perda de qualidade, impacta nos segmentos mais especulativos e na comercialização informal sem tributação”, explica Francisco Silva, que gerencia a área comercial da Cooperflora e acompanha de perto o cenário. Mas há uma virada em curso. Para De Wit, “o mercado está se desenvolvendo de maneira sustentável e muito mais profissional, principalmente nos últimos cinco anos após a pandemia.”
Um modelo documentado
A Cooperflora opera com contratos de licenciamento para todas as espécies do portfólio, cada uma com breeder nomeado, contrato ativo e fluxo documentado de conformidade. A cooperativa também é pioneira na rastreabilidade via padrão GS1, levando informações de origem até o ponto de venda. “Operamos junto a uma parcela das classes A, B e C, onde o interesse pelo que se consome tem se tornado cada vez mais relevante”, diz Francisco. Para ele, a melhora na percepção dos clientes é fruto de um trabalho consistente e a origem rastreável deixou de ser detalhe técnico e passou a ser algo que o comprador enxerga e começa a valorizar.
O caminho que o café especial e o vinho percorreram, da invisibilidade à origem como argumento de valor, é o mesmo que a floricultura brasileira está construindo. O consumidor que sabe de onde vem a flor passa a exigir essa informação. A origem, afinal, não é só um dado: é o que separa uma flor de uma commodity.
Website: https://cooperflora.com.br/