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Pessoas são obrigadas a desmontar o ar-condicionado em um calor de 40 graus para não afetar o “meio ambiente”. As autoridades as aconselham a abrir as janelas

Calor de 40°C expõe conflito entre conforto e net zero

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Pessoas são obrigadas a desmontar o ar-condicionado em um calor de 40 graus para não afetar o "meio ambiente". As autoridades as aconselham a abrir as janelas
Ar-condicionado vira alvo de regras de net zero

Enquanto o serviço meteorológico britânico emitia alertas vermelhos de risco à vida durante uma onda de calor com temperaturas chegando a 40°C, inspetores de urbanismo de conselhos municipais de Londres continuavam a notificar moradores para remover suas unidades de ar-condicionado. A orientação oficial das autoridades para quem quisesse se refrescar: abrir as janelas e portas para criar corrente de ar. A situação, revelada pelo jornal The Telegraph, expõe as tensões crescentes entre as metas climáticas do governo britânico e as necessidades imediatas da população em períodos de calor extremo.

O que é a “hierarquia de resfriamento” e por que ela está no centro da polêmica?

A chamada hierarquia de resfriamento é uma diretriz urbanística que estabelece uma ordem de prioridade para os métodos de climatização permitidos em edificações de Londres. Segundo essa lógica, o “resfriamento passivo”, como sombreamento de janelas, ventiladores e ventilação natural, deve ser sempre tentado e esgotado antes que qualquer forma de “resfriamento ativo” seja considerada. O ar-condicionado se enquadra na categoria ativa e, portanto, deve ser usado apenas como último recurso.

Esse critério está presente no London Plan de 2021, elaborado durante a gestão do prefeito Sadiq Khan, que prevê que novas construções na capital britânica devem ser projetadas para evitar ao máximo a dependência de sistemas de climatização com alto consumo de energia. Conselhos municipais como o de Camden foram ainda mais restritivos ao incorporar essas diretrizes em seus próprios planos locais, usando linguagem mais firme sobre o papel do ar-condicionado no aumento da demanda energética e no aquecimento do microclima urbano.

Pessoas são obrigadas a desmontar o ar-condicionado em um calor de 40 graus para não afetar o "meio ambiente". As autoridades as aconselham a abrir as janelas
Ar-condicionado vira alvo de regras de net zero

Quais casos concretos foram relatados pelo Telegraph?

Um morador do norte de Londres recebeu ordem para remover “definitivamente” duas unidades de ar-condicionado instaladas na parte traseira de sua propriedade. Os inspetores do conselho de Camden declararam que não havia “nenhuma justificativa” para os equipamentos e que eles não respeitavam a hierarquia de resfriamento local. Durante o processo de contestação, o proprietário foi instruído a abrir janelas e portas da sacada do apartamento no primeiro andar para ventilar o imóvel por “meios naturais”. Suas preocupações com segurança foram descartadas pelos inspetores, que argumentaram que o risco não era “tão grande quanto o de janelas no térreo”.

Outro caso envolveu um residente que recebeu ordem para retirar três unidades, mesmo tendo seguido todos os requisitos urbanísticos aplicáveis. Os inspetores apontaram especificamente a “ausência de ventiladores de teto” no imóvel, embora esses equipamentos não façam parte de nenhuma exigência obrigatória. Após um processo de apelação, esse segundo morador conseguiu manter o sistema ao demonstrar que a propriedade já contava com melhorias ecológicas, incluindo painéis solares.

Quem mais está sendo afetado por essas restrições?

Os moradores da capital britânica estão particularmente expostos a essa aplicação rigorosa das normas porque os conselhos municipais londrinos adaptaram as diretrizes do London Plan de forma ainda mais restritiva em seus próprios regulamentos locais. O conselho de Islington, por exemplo, afirma explicitamente que o ar-condicionado deve ser “considerado apenas como último recurso”. Engenheiros especializados em climatização relataram ao Telegraph que foram chamados a vários endereços em Londres exclusivamente para desmontar unidades perfeitamente funcionais, avaliadas em milhares de libras.

As situações que mais frequentemente levam moradores a receber notificações incluem:

  • Instalação de unidades externas em propriedades localizadas em zonas históricas ou de preservação
  • Apartamentos em regime de leasehold, onde as regras do condomínio podem exigir aprovação adicional
  • Imóveis em que os equipamentos foram instalados sem verificação prévia das normas urbanísticas locais
  • Propriedades que não demonstraram ter esgotado as alternativas passivas de resfriamento antes de instalar o sistema ativo

Qual é a posição do Partido Conservador sobre o tema?

O Partido Conservador britânico criticou publicamente a situação, afirmando que o país está sendo “mantido na Idade Média” por uma mentalidade orientada exclusivamente pelo objetivo de net zero, que na prática estaria negando às pessoas “o conforto moderno completamente normal em outros países”. A declaração aponta para um debate mais amplo sobre como equilibrar metas climáticas de longo prazo com necessidades de saúde pública imediatas, especialmente em um contexto em que ondas de calor extremas estão se tornando mais frequentes e intensas no Reino Unido.

O net zero justifica proibir ar-condicionado durante alertas de risco à vida?

Essa é a pergunta que o episódio coloca de forma mais direta. As restrições ao ar-condicionado têm uma lógica ambiental real: o setor de climatização responde por uma parcela significativa do consumo energético global, e os gases refrigerantes utilizados nos sistemas convencionais têm potencial de aquecimento global muito superior ao do CO₂. Reduzir a dependência desses sistemas é um objetivo legítimo dentro de qualquer estratégia de descarbonização.

O problema identificado pelos casos relatados em Londres não é a existência do objetivo, mas a aplicação inflexível de critérios urbanísticos durante eventos climáticos que o próprio serviço meteorológico classificou como risco à vida. A onda de calor que motivou o alerta vermelho causou o fechamento de escolas e a interrupção de linhas ferroviárias, enquanto inspetores continuavam a notificar moradores sobre equipamentos instalados em propriedades privadas. Esse descompasso entre a urgência do calor e a rigidez das normas é o que tornou o episódio tão amplamente comentado.

O que o caso revela sobre os desafios práticos da transição climática

O episódio de Londres é um exemplo concreto de uma tensão que vai muito além da capital britânica. Políticas climáticas bem intencionadas, quando aplicadas sem considerar as condições específicas de cada momento, podem produzir resultados que contradizem seus próprios objetivos. Forçar moradores a conviver com calor extremo sem climatização pode gerar mais pressão sobre serviços de saúde pública do que o impacto ambiental dos equipamentos que foram removidos.

A transição para cidades com menor pegada de carbono depende de soluções que funcionem tanto nos dias comuns quanto nos extremos climáticos que as próprias mudanças ambientais estão tornando mais frequentes. Quando as normas criadas para responder às mudanças climáticas entram em conflito direto com a segurança das pessoas durante eventos climáticos extremos, o resultado é exatamente o tipo de contradição que corrói a confiança pública nas políticas de net zero.