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A primeira cidade brasileira eleita Patrimônio Mundial pela UNESCO já foi maior que Nova York em pleno século XVIII
A joia histórica do Brasil que já foi maior que Nova York.
Erguida sobre a Serra do Espinhaço, em Minas Gerais, Ouro Preto guarda nas ladeiras de pedra o auge do ciclo do ouro que abasteceu Portugal por mais de cem anos. A antiga Vila Rica foi a primeira cidade brasileira inscrita na Lista do Patrimônio Mundial da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO).
De arraial minerador à cidade mais populosa das Américas
O povoado nasceu em 1698, quando o bandeirante Antônio Dias de Oliveira encontrou ouro recoberto por uma camada escura de óxido de ferro no córrego do Tripuí. O detalhe deu nome à região: ouro preto. Em 1711 surgiu oficialmente Vila Rica, e a capital da capitania de Minas Gerais foi instalada ali em 1720, segundo a Prefeitura Municipal de Ouro Preto.
Em 1750, a vila reunia cerca de 80 mil habitantes. Mais que o dobro da população de Nova York e dez vezes maior que a de São Paulo na mesma época, segundo dados históricos compilados pela UNESCO. As 800 toneladas de ouro oficialmente enviadas a Portugal no século XVIII saíram em boa parte daqui.

Por que o barroco mineiro é tão diferente do europeu?
A Coroa Portuguesa proibiu a instalação de ordens religiosas em Minas Gerais para evitar perdas com tributos. Sem conventos nem mosteiros, as irmandades leigas, formadas por mineradores e até por escravizados, encomendaram igrejas com toda a riqueza acumulada nas minas.
Surgiu então um barroco original, com dois materiais marcantes: o gnaisse local e a pedra-sabão, lavrada em formas curvilíneas únicas no mundo. As duas figuras centrais dessa criação foram Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, escultor e arquiteto, e Manoel da Costa Athaíde, o Mestre Ataíde, pintor responsável pelos forros mais celebrados, segundo o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).
O que visitar na Praça Tiradentes e arredores?
O centro histórico cabe em uma área de poucos quilômetros quadrados, mas o desnível das ladeiras pede sapato confortável. As igrejas costumam ter ingresso conjunto vendido na entrada.
- Museu da Inconfidência: instalado na antiga Casa de Câmara e Cadeia na Praça Tiradentes, guarda o Panteão dos Inconfidentes.
- Igreja de São Francisco de Assis: obra-prima do Aleijadinho, com forro pintado por Mestre Ataíde e fachada em pedra-sabão.
- Basílica de Nossa Senhora do Pilar: talha dourada com mais de 400 kg de ouro nas paredes e nos altares.
- Igreja de Santa Efigênia: erguida por escravizados libertos no século XVIII, construída no auge da exploração aurífera.
- Mina do Chico Rei: galerias de mineração reabertas para visitação, ligadas à lenda do rei africano Galanga que comprou a liberdade dos próprios irmãos.
- Museu de Ciência e Técnica: dentro do antigo Palácio dos Governadores, exibe um dos acervos mineralógicos mais ricos do Brasil.
O berço da Inconfidência Mineira
Em 1789, Vila Rica foi o palco do primeiro grande movimento de independência do Brasil. A conjuração reuniu intelectuais, militares e padres inspirados pela Revolução Francesa e pela independência dos Estados Unidos.
O movimento foi denunciado por Joaquim Silvério dos Reis e os inconfidentes foram presos. Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, foi enforcado no Rio de Janeiro em 1792 e teve a cabeça exposta na praça que hoje leva seu nome. Em 20 de março de 1823, já depois da Independência, Dom Pedro I elevou Vila Rica à categoria de cidade e a rebatizou de Imperial Cidade de Ouro Preto.
O sabor da cozinha mineira de raiz
A mesa ouro-pretana é referência do que se entende por comida mineira. Os fogões a lenha ainda aparecem em cantinas familiares e na maioria das pousadas históricas.
- Tutu à mineira: feijão batido com farinha de mandioca, servido com torresmo, lombo, couve e ovo.
- Frango com quiabo: receita rural servida em panelas de pedra-sabão, com angu de fubá.
- Pão de queijo: as padarias do centro vendem versões assadas em fornos antigos durante a manhã.
- Doce de leite: produção artesanal de fazendas dos arredores, à venda em conservas no centro.
- Cachaça mineira: a cidade preserva alambiques centenários e bares especializados em Cachoeira do Campo.

Qual a melhor época para visitar Ouro Preto?
A altitude de 1.116 metros entrega clima tropical de altitude, com inverno frio e verão úmido. O Pico do Itacolomi, ponto mais alto do município, chega a 1.722 metros.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar à antiga Vila Rica?
De carro, Ouro Preto fica a 95 km de Belo Horizonte pela BR-040 e pela BR-356, em viagem de cerca de 1h30. Do Rio de Janeiro são 513 km, com cinco a seis horas de estrada.
O Aeroporto Internacional Tancredo Neves, em Confins, é o mais próximo, a aproximadamente 110 km. Ônibus diretos partem da rodoviária de Belo Horizonte e cidades como São Paulo e o Rio. Em Ouro Preto, o centro é melhor explorado a pé, com pausas para descanso nas ladeiras.
Suba as ladeiras de pedra e descubra Ouro Preto
Poucas cidades do mundo conseguem reunir um conjunto barroco preservado de duas obras-primas em uma só praça, um traçado urbano que sobreviveu a três séculos e o cenário onde nasceu o primeiro movimento independentista do Brasil. A antiga Vila Rica parou no tempo justamente quando o ouro acabou e o resto do país seguiu adiante.
Você precisa subir as ladeiras de pedra de Ouro Preto e entrar em uma única igreja para entender como uma cidade encravada na serra mineira virou patrimônio de toda a humanidade.