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Superstições na Copa: por que torcedores repetem rituais antes dos jogos?

Psicologia explica como crenças ajudam a lidar com a ansiedade e a sensação de falta de controle durante competições esportivas

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Durante a Copa do Mundo, torcedores recorrem a rituais e superstições na tentativa de influenciar o resultado dentro de campo (Imagem: Kleber Cordeiro | Shutterstock)

Vestir a mesma camisa em todos os jogos decisivos, sentar-se sempre no mesmo lugar da sala, evitar mudar de canal durante a partida ou até repetir o cardápio que “deu sorte” em vitórias anteriores. Em períodos de grandes competições esportivas, como a Copa do Mundo, muitos torcedores recorrem a rituais e superstições na tentativa de influenciar, ainda que simbolicamente, o resultado dentro de campo.

Embora muitas dessas práticas sejam encaradas de forma bem-humorada, a psicologia explica que elas têm relação direta com mecanismos emocionais que ajudam as pessoas a lidar com a ansiedade, a expectativa e a imprevisibilidade dos eventos esportivos.

Segundo o psicólogo e coordenador do curso de Psicologia da Faculdade Anhanguera, Marco Aurélio Fernandes, o futebol desperta sentimentos intensos de pertencimento, identidade e envolvimento emocional. “Ao acompanhar uma partida decisiva, o torcedor investe energia afetiva em algo sobre o qual não possui qualquer controle real. É justamente nesse cenário que surgem os rituais”, afirma.

Conforme ele, a superstição funciona como uma estratégia psicológica para reduzir a sensação de impotência diante de uma situação incerta. “Mesmo sabendo racionalmente que uma camisa ou um lugar específico no sofá não interferem no desempenho dos jogadores, o cérebro encontra conforto na repetição desses comportamentos”, explica.

A necessidade humana de encontrar padrões

Marco Aurélio destaca que o fenômeno não ocorre apenas no esporte. Pessoas costumam criar rituais antes de entrevistas de emprego, provas, apresentações ou qualquer situação considerada importante e potencialmente estressante.

Do ponto de vista científico, existe uma explicação para a popularidade das superstições. O cérebro humano é programado para identificar padrões e estabelecer relações de causa e efeito. “Nosso cérebro tem dificuldade em aceitar o acaso. Por isso, muitas vezes criamos conexões entre fatos que não possuem relação causal. Isso traz uma sensação de previsibilidade e segurança”, afirma o psicólogo.

Quando o ritual vira tradição familiar

Outro aspecto interessante é que muitas superstições ultrapassam a esfera individual e se transformam em tradições familiares. Há famílias que assistem aos jogos sempre reunidas no mesmo local, reproduzem receitas especiais ou seguem pequenos costumes transmitidos entre gerações.

O psicólogo esclarece que, nesses casos, os rituais assumem um significado ainda mais profundo, funcionando como elementos de conexão afetiva e memória emocional. “Mais do que acreditar em sorte, muitas pessoas utilizam esses comportamentos para reforçar vínculos familiares e criar experiências compartilhadas. O ritual passa a representar pertencimento e identidade coletiva”, explica.

A imagem mostra um homem sorridente segurando uma bola de futebol com uma das mãos, enquanto aponta para ela com a outra. Ele veste uma camisa polo branca e aparece diante de um fundo azul-claro, transmitindo uma atmosfera leve e descontraída.
Atletas profissionais também relatam comportamentos repetitivos antes das partidas (Imagem: ViDI Studio | Shutterstock)

Atletas também são supersticiosos

As superstições não estão restritas às arquibancadas. Diversos atletas profissionais relatam comportamentos repetitivos antes das partidas, como entrar em campo com o mesmo pé, ouvir determinada música ou seguir rotinas específicas no aquecimento. “Esses hábitos podem contribuir para aumentar a confiança e reduzir a ansiedade pré-competitiva, desde que não se transformem em uma dependência emocional”, completa Marco Aurélio.

Quando a superstição pode se tornar um problema

Na maioria dos casos, os rituais relacionados ao esporte são inofensivos e fazem parte da experiência de torcer. No entanto, é importante observar quando esses comportamentos passam a gerar sofrimento. Se a pessoa acredita que a derrota ocorreu porque deixou de cumprir determinado ritual ou desenvolve níveis elevados de ansiedade quando não consegue seguir uma rotina específica, pode haver sinais de uma relação pouco saudável com a superstição.

“O problema surge quando o indivíduo passa a acreditar que possui responsabilidade direta sobre acontecimentos que estão completamente fora de seu controle. Nesse caso, é importante desenvolver formas mais equilibradas de lidar com a ansiedade e a frustração”, orienta o psicólogo.

Por Camila Souza Crepaldi