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No Japão, pobres vivem em “favelas” que superam a qualidade e infraestrutura de muitas cidades pelo mundo
A estrutura dos bairros mais pobres do Japão está surpreendendo pessoas do mundo inteiro.
Ruas limpas, iluminação pública funcionando e trens que passam a poucos minutos dali. O bairro de Kamagasaki, em Osaka, é a maior favela do Japão e não aparece em nenhum mapa oficial da cidade.
O bairro que o governo apagou do mapa
A prefeitura de Osaka proíbe o nome Kamagasaki em mapas oficiais e desestimula seu uso na imprensa. O nome atual, adotado em documentos e placas, é Airin-chiku, algo como distrito do amor ao próximo.
A área ocupa cerca de 0,62 km² no bairro de Nishinari, ao sul do centro de Osaka. No pico da industrialização, em 1960, chegou a abrigar 30.306 moradores, quase todos diaristas da construção civil, segundo dados citados em estudo publicado na base National Center for Biotechnology Information (NCBI).

Doya-gai: os hotéis de mil ienes que viraram moradia
Nos anos 1960, o Japão precisava de mão de obra barata para erguer prédios e portos. Surgiram assim os doya-gai, aglomerados de hospedagens minúsculas onde os trabalhadores dormiam entre um turno e outro.
O termo doya é a palavra yado, hospedaria, escrita de trás para frente na gíria de rua. Os quartos têm em média três tatames, cerca de 4,8 m², e ainda hoje são alugados por menos de 1.000 ienes a diária em Kamagasaki, segundo o portal Nippon.com.
- Kamagasaki (Osaka): cerca de 25 mil moradores, o maior doya-gai do país.
- Sanya (Tóquio): fica no distrito de Taito, historicamente ligado a trabalhadores de portos e obras.
- Kotobuki (Yokohama): nasceu no pós-guerra próximo ao porto e concentra hoje idosos assistidos.
Infraestrutura de país rico dentro da pobreza
A comparação com favelas de outras partes do mundo esbarra na infraestrutura urbana japonesa. Mesmo nas ruas mais degradadas de Kamagasaki, há saneamento básico, coleta de lixo diária, iluminação, estações de metrô e centros comunitários climatizados.
O Centro Airin, aberto em 1970, funcionava como agência de emprego, refeitório e refúgio contra o calor e o frio. O governo ordenou seu fechamento como parte da limpeza urbana para a Exposição Universal de Osaka 2025, encerrando um dos símbolos do bairro.

Os números que contradizem a imagem do Japão
A pobreza no país costuma passar despercebida por turistas. Os dados oficiais, porém, mostram uma realidade menos polida do que a das ruas de Shibuya.
| Indicador | Valor | Referência |
|---|---|---|
| Taxa de pobreza relativa População geral abaixo da linha | 15,4% | Japão, 2021 |
| Média da OCDE Comparativo internacional | 11,4% | Países-membros, 2021 |
| Pobreza em lares monoparentais Famílias com um único responsável | 44,5% | Japão, 2021 |
| Tuberculose em Airin Bairro de trabalhadores diaristas | 298 casos por 100 mil | Osaka, 2018 |
| Diária mínima em doya Hospedagem popular | Menos de 1.000 ienes | Kamagasaki, atual |
Dados compilados a partir do Society at a Glance 2024 (OCDE) e da base NCBI.
Uma favela envelhecida por dentro
Kamagasaki é hoje um bairro de idosos. Muitos dos antigos diaristas envelheceram sem família, sem poupança e sem contrato formal, dependendo do sistema público de assistência para pagar o quarto no doya.
A taxa de tuberculose no distrito chegou a 298 casos por 100 mil habitantes em 2018, quase dez vezes a média de Osaka e cerca de 30 vezes a média nacional japonesa. Nas ruas próximas ao antigo Centro Airin, filas se formam quando organizações religiosas distribuem refeições.
Leia também: A cidade onde há 300 anos o mar invade as ruas na lua cheia para limpar propositalmente.
O que Airin ensina sobre desigualdade em países ricos
O caso japonês mostra que infraestrutura urbana e pobreza podem coexistir sem que uma resolva a outra. Ter metrô, água tratada e ruas asfaltadas não impede que idosos durmam em quartos de menos de 5 m² por décadas.
Você precisa entender Kamagasaki para enxergar o Japão além dos letreiros de neon e descobrir o que se esconde a poucas estações do centro de Osaka.