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Perdi meu filho para as apostas online: mãe compara influencers a traficantes e exige regulação das bets

Vânia Borges perdeu Rafael para o vício em bets e agora cobra a responsabilização de empresas e influenciadores pela publicidade do setor

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Foto colorida de Rafael e uma mulher sorrindo, em moldura, com filtro verde e amarelo.
A imagem de Rafael Borges Amaral, cuja vida feliz foi afetada pela dependência em jogos de apostas online, como denuncia sua mãe Vânia. Foto: Magno Borges/Agência Pública

A professora Vânia de Souza Borges, 54 anos, transformou o luto pela perda do filho em uma campanha por mais responsabilidade de empresas e influenciadores que promovem apostas on-line. Rafael Borges Amaral, de 26 anos, faleceu em meio a um quadro de dependência das chamadas bets.

Em entrevista à Agência Pública, a moradora de Uberlândia (MG) defendeu que a publicidade do setor tem um papel decisivo no estímulo ao vício e na ilusão de enriquecimento fácil. Antes de se envolver com as apostas, Rafael tinha uma rotina de trabalho e abriu o próprio lava-jato com recursos próprios.

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A mãe relembrou que o filho demonstrava disposição para o trabalho e construiu sua independência financeira. As primeiras mudanças de comportamento foram discretas. Aos poucos, Rafael passou a se isolar, faltar ao trabalho e apresentar reações agressivas, o que chamou a atenção da família.

Com o tempo, ele deixou de manter a rotina, acumulou dívidas e demonstrava ansiedade constante. Familiares tentaram ajudá-lo a reorganizar as finanças, sem saber que o problema era um vício. Rafael escondia a gravidade da situação e buscava recuperar o dinheiro perdido com novas apostas, criando um ciclo vicioso.

A responsabilidade da publicidade

Para Vânia, quem divulga casas de apostas também deve responder pelos danos causados. Ela compara a atuação de influenciadores à de traficantes. “Eles são traficantes, sim. Talvez uma modalidade diferente e mais moderna do tráfico”, disse à Agência Pública.

A professora afirma que a publicidade apresenta uma realidade distante. Segundo ela, criadores de conteúdo associam riqueza às apostas, mas são remunerados pelas empresas para isso. “Muitos deles fazem publicidade simulando o ganho de dinheiro nas plataformas, mostram uma riqueza exorbitante, dão a entender que essa riqueza veio dessas plataformas”, aponta.

Sinais de alerta da dependência em jogos

Como identificar e entender o transtorno da ludopatia.

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Mudanças financeiras e dívidas

Acúmulo de dívidas e perda de controle sobre o dinheiro, buscando recuperar perdas com novas apostas.

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Alterações de comportamento

Isolamento social, ansiedade constante, agressividade e faltas ao trabalho ou compromissos.

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Personalidade transformada

O indivíduo se torna outra pessoa, distante e focado exclusivamente nas apostas, gerando conflitos familiares.

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Ludopatia como doença

É um transtorno reconhecido de saúde pública, não uma questão de “falta de vergonha na cara”.

O vício alterou profundamente a personalidade de Rafael. O jovem, antes tranquilo, tornou-se distante e passou a viver em função das apostas. “Era outra pessoa”, resumiu a mãe. A dependência também gerou conflitos familiares e um sentimento de impotência, pois Vânia não encontrava orientação ou serviços especializados para ajudá-lo.

Luta por mudanças na regulação

Após não obter o retorno esperado da Polícia Civil e do Ministério Público de Minas Gerais, Vânia encaminhou uma carta à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) das Bets, no Senado. O documento passou a integrar os registros da comissão, cujo relatório final foi rejeitado.

A relatora, senadora Soraya Thronicke (Podemos-MS), havia proposto o indiciamento de 16 pessoas e duas empresas, além de projetos para reforçar a fiscalização. A rejeição do parecer frustrou Vânia, que esperava medidas para reduzir a exposição de jovens à publicidade das apostas.

A preocupação acompanha o crescimento do mercado. Dados da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) estimam que brasileiros movimentaram cerca de R$ 360 bilhões em apostas em um ano, aumentando os alertas sobre a ludopatia, o transtorno da dependência em jogos.

Vânia defende que o país trate o problema como uma questão de saúde pública. “As pessoas acham que é falta de vergonha na cara, falta de responsabilidade. Não é. É uma doença.” Para ela, reconhecer a ludopatia e ampliar o debate são passos essenciais para reduzir os danos, com campanhas de conscientização semelhantes às de prevenção ao uso de álcool e outras drogas.