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No Japão, árvores centenárias não são derrubadas para construção. Em vez disso, arboristas passam meses preparando suas raízes para o transplante
Árvores antigas ganham novo lugar no Japão com raízes preparadas antes
Quando uma obra nova avança sobre terrenos arborizados, o destino mais comum das árvores antigas é a motosserra. No Japão, porém, exemplares com séculos de vida recebem um tratamento completamente diferente: equipes especializadas em arboricultura passam meses condicionando o sistema radicular antes de qualquer movimentação, aumentando as chances de que a planta sobreviva ao transplante e continue crescendo no novo local.
Por que o Japão opta pelo transplante em vez do corte?
Nem toda árvore no caminho de uma construção é candidata ao processo. A técnica é reservada para exemplares com valor histórico, cultural ou ecológico excepcional: árvores plantadas em santuários xintoístas, templos budistas, jardins tradicionais ou bairros históricos onde sua presença faz parte da identidade do lugar. Mover uma dessas plantas custa muito mais do que derrubá-la, mas o custo de perder uma árvore com 200 ou 300 anos é considerado ainda maior.
O que é o nemawashi e como ele prepara as raízes para o transplante?
A técnica central do processo se chama nemawashi, expressão japonesa que significa literalmente “ir em torno das raízes”. Meses antes de qualquer movimentação, os arboristas começam a podar seletivamente as raízes mais afastadas do tronco. Esse corte gradual, feito em etapas, estimula o crescimento de raízes absorventes finas e novas, muito mais próximas ao caule.
São essas raízes finas que fazem o trabalho pesado de absorção de água e nutrientes. Ao forçar seu desenvolvimento antes do transplante, a árvore chega ao novo local com um sistema radicular compacto e funcional, em vez de um sistema extenso que foi brutalmente amputado de uma só vez. Dependendo do porte e da espécie, essa fase de preparação pode durar entre seis meses e mais de um ano.
Como funciona a operação de transplante na prática?
Quando o sistema radicular está condicionado, começa a fase mais visível do processo. Os trabalhadores escavam ao redor da árvore preservando ao máximo o torrão de raízes formado durante o nemawashi. Esse torrão é envolvido em materiais de proteção, como aniagem de juta, para manter a estrutura íntegra durante o transporte. O tronco e os galhos principais também são amarrados e protegidos contra impactos.
Para movimentar exemplares de grande porte, são usados:
- Guindastes de alta capacidade para içar a árvore com o torrão intacto
- Equipamentos hidráulicos de elevação em casos de peso extremo
- Veículos especiais projetados para o transporte de plantas adultas
- Estruturas de estabilização instaladas no local de destino logo após o replantio

Todo transplante termina com sucesso?
Não. Mesmo com meses de preparação cuidadosa, o transplante de uma árvore madura é sempre um procedimento de alto risco. Parte do sistema radicular se perde inevitavelmente durante a escavação, e o estresse do processo pode ser severo dependendo da espécie e da condição geral da planta. O sucesso depende da época do ano escolhida para a operação, da qualidade do solo no destino e da intensidade dos cuidados pós-transplante, que incluem irrigação controlada e monitoramento constante por meses.
Por isso, os especialistas japoneses reservam a técnica para casos em que o valor da árvore justifica o investimento. Antes de aprovar o processo, são avaliados:
- O estado fitossanitário atual do exemplar
- A espécie e sua taxa histórica de sobrevivência ao transplante
- A distância entre o local de origem e o destino final
- A viabilidade do solo e das condições climáticas no ponto de chegada
O nemawashi virou metáfora na cultura japonesa
A prática horticultural foi além dos jardins. No vocabulário corporativo e político japonês, nemawashi passou a designar o processo de preparação discreta que antecede uma mudança importante: consultas informais, alinhamentos silenciosos, construção de consenso antes de qualquer anúncio oficial. A metáfora é perfeita porque captura a mesma lógica: mudanças abruptas causam choque; mudanças bem preparadas têm muito mais chances de se consolidar.
Uma prática que mostra desenvolvimento e preservação caminhando juntos
O que torna o caso japonês interessante não é apenas a sofisticação técnica do processo, mas a decisão de que ele vale o esforço. Tratar uma árvore centenária como patrimônio vivo, digno de planejamento e investimento, é uma postura que contrasta com a lógica de que vegetação é sempre o componente mais descartável de um projeto de construção.
Exemplares que sobrevivem ao transplante chegam ao novo local carregando séculos de crescimento, com caules que nenhum viveiro consegue reproduzir. Árvores assim levam gerações para se formar, e o nemawashi é, na prática, a única forma de garantir que elas continuem existindo quando o espaço onde cresceram precisa ceder lugar a outra coisa.