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A Paris dos Trópicos guarda um enorme teatro de ópera com mármore italiano no meio da Amazônia
Mármore italiano, vitrais, ferro europeu e floresta tropical.
No coração da Amazônia, a mais de 20 dias de navegação da foz do maior rio do mundo, Manaus guarda uma casa de ópera com aço escocês, telhas francesas e mármore de Carrara. A cidade que ergueu esse monumento em 1896 é a mesma metrópole de 2 milhões de habitantes que ainda hoje só se conecta ao centro-sul do Brasil por avião ou barco.
Um teatro erguido com a Europa inteira dentro
O Teatro Amazonas foi inaugurado em 31 de dezembro de 1896, depois de 12 anos de obras. Segundo o Portal Cultura do Amazonas, a maior parte dos materiais foi importada: as paredes de aço vieram de Glasgow, na Escócia; os 198 lustres e o mármore das escadas, estátuas e colunas saíram de Carrara, na Itália; e a cúpula é coberta por 36 mil peças de cerâmica esmaltada trazidas da Alsácia, na França, nas cores da bandeira brasileira.
A decoração seguiu o estilo Louis XV, com salão nobre pintado pelo italiano Domenico de Angelis, autor da obra A Glorificação das Belas Artes na Amazônia, no teto do salão. O pano de boca do palco, pintado pelo pernambucano Crispim do Amaral, retrata o encontro dos rios Negro e Solimões. A ópera de abertura foi La Gioconda, do compositor italiano Amilcare Ponchielli. Em 1966, o edifício se tornou o primeiro bem tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) no estado.

Como Manaus virou uma das cidades mais ricas do mundo
Nada disso teria sido possível sem o Ciclo da Borracha. Entre 1880 e 1912, a Amazônia foi a maior produtora mundial de látex, matéria-prima essencial para a indústria de pneus, cabos elétricos e impermeabilizantes que decolava na Europa e nos Estados Unidos. As seringueiras nativas transformaram Manaus em uma das cidades mais ricas do planeta.
O responsável direto pela reforma urbana foi Eduardo Ribeiro (1862-1900), primeiro negro a governar o Amazonas. Sob seu comando, a cidade ganhou pedra portuguesa nas ruas, bondes elétricos, iluminação pública, telégrafo, palácios do governo e da justiça, além do porto flutuante feito com ferro trazido da Inglaterra. Manaus teve luz elétrica antes de várias capitais brasileiras, no fim do século XIX. A queda veio rápido: quando as seringueiras foram levadas por ingleses para a Malásia, o Sri Lanka e a África, o monopólio brasileiro ruiu.

Os rios que correm lado a lado sem se misturar por 6 quilômetros
A 10 km do centro de Manaus acontece um dos fenômenos hidrológicos mais estudados do Brasil. As águas escuras do Rio Negro, a 28°C e velocidade de aproximadamente 2 km/h, correm ao lado das águas barrentas do Rio Solimões, a 22°C e até 6 km/h. A diferença de temperatura, velocidade e densidade impede a mistura imediata dos dois caudais, que seguem paralelos por cerca de 6 km antes de se fundirem no Rio Amazonas.
O fenômeno tem três explicações combinadas:
- Temperatura: o Rio Negro é 6°C mais quente que o Solimões, o que aumenta a diferença de densidade entre as duas águas.
- Velocidade: o Solimões corre até três vezes mais rápido que o Negro, empurrando um curso contra o outro sem provocar mistura.
- Composição química: o Rio Negro carrega ácido húmico da floresta, o que dá a cor escura, enquanto o Solimões traz sedimentos claros dos Andes.
O Encontro das Águas foi tombado pelo Iphan em 2010 como patrimônio paisagístico. É visível de barco, da margem e até de avião, com uma linha nítida separando as duas cores em pleno leito do rio.

A metrópole de 2 milhões que não tem estrada para o sul do país
Apesar do porte, Manaus continua isolada por terra. A cidade tem cerca de 2 milhões de habitantes, segundo o Censo de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e é a sétima mais populosa do Brasil. Ainda assim, não há rodovia asfaltada e transitável o ano todo que a ligue ao centro-sul do país. A saída principal é por avião ou pelos rios da Bacia Amazônica.
Foi esse isolamento que deu origem ao porto flutuante da cidade, considerado o maior porto fluvial em volume de cargas do Brasil. Construído sobre boias enormes, o cais sobe e desce conforme as cheias do Rio Negro, que podem variar mais de 10 metros ao longo do ano. O engenhoso sistema foi executado com ferro inglês no fim do século XIX e continua em funcionamento. Nas margens do largo em frente ao teatro, o piso em ondas de pedra portuguesa simboliza o mesmo encontro dos rios que fez a fortuna da cidade. Ali, no Largo de São Sebastião, a Igreja de São Sebastião, de 1888, completa o cenário. O próprio nome Manaus vem do povo indígena Manaós, que habitava a região antes da chegada dos portugueses.
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Uma cidade que continua surpreendendo o Brasil
Manaus reúne uma combinação improvável: uma casa de ópera com mármore italiano em plena floresta, rios gigantescos que se recusam a misturar as águas, um porto que boia para acompanhar as cheias e uma metrópole que segue sem estrada para o resto do país. Poucas cidades brasileiras carregam tantas condições únicas em um só endereço.
Você precisa conhecer Manaus e assistir a um espetáculo no Teatro Amazonas para entender por que essa capital continua sendo a Paris dos Trópicos.