Brasil
Rotina de visitas a Bolsonaro em prisão domiciliar expõe articulações políticas
Levantamento anexado por Moraes ao processo mostra que o ex-presidente recebeu 185 visitas em quatro meses, entre familiares, advogados e equipe de saúde
O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) recebeu 185 visitas desde que passou a cumprir prisão domiciliar, em 27 de março, em Brasília. O balanço, incluído pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes em decisão recente, detalha a circulação de familiares, advogados, médicos, fisioterapeuta e prestadores de serviços na residência do ex-chefe do Executivo. Bolsonaro cumpre pena após condenação por tentativa de golpe de Estado e outros quatro crimes, vivendo na casa com a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, a filha do casal e a enteada.
Segundo os registros, os três filhos que mantêm contato presencial com o ex-presidente somaram 31 visitas no período. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), apontado como candidato do grupo político à Presidência da República, esteve na residência 18 vezes como filho e também passou a frequentá-la na condição de advogado da defesa. Carlos Bolsonaro (PL-SC), pré-candidato ao Senado por Santa Catarina, realizou 11 visitas, enquanto Jair Renan Bolsonaro (PL-SC), pré-candidato à Câmara dos Deputados, compareceu em duas ocasiões.
A rotina também foi marcada pelo acompanhamento médico. Os profissionais responsáveis pela saúde de Bolsonaro estiveram na residência em 70 oportunidades, enquanto o fisioterapeuta realizou 17 sessões autorizadas pelo STF. Os seis advogados constituídos no processo fizeram 64 visitas ao ex-presidente, sendo que João Henrique Nascimento de Freitas, integrante da equipe de defesa, foi quem mais compareceu ao local. Além deles, a residência recebeu prestadores de serviços, como eletricista, técnicos de refrigeração, um cabeleireiro e uma representante de cartório.
O detalhamento das visitas foi apresentado por Moraes ao justificar a decisão que suspendeu, por 30 dias, novas visitas ao ex-presidente — com exceção de familiares próximos, advogados e profissionais de saúde — e reforçou a proibição de manifestações político-eleitorais. Na decisão, o ministro afirmou que Bolsonaro descumpriu medidas cautelares ao participar da elaboração de conteúdo posteriormente divulgado nas redes sociais por terceiros.
Moraes também sustentou que a prisão domiciliar não pode resultar em privilégios incompatíveis com a legislação e destacou que a situação do ex-presidente é mais favorável do que a de detentos do sistema prisional comum.
Isolamento
Nos bastidores da direita, parlamentares e dirigentes do PL avaliam que as novas restrições impostas pelo STF reduziram significativamente a capacidade de interlocução direta de Bolsonaro com aliados e lideranças do partido. Integrantes da oposição afirmam, reservadamente, que a comunicação sobre estratégias eleitorais e decisões partidárias passou a depender quase exclusivamente da equipe jurídica e de Michelle Bolsonaro, que assumiu papel mais ativo no diálogo com dirigentes da legenda.
A leitura entre aliados é que o isolamento tende a fortalecer outros nomes do campo conservador na corrida presidencial, ao mesmo tempo em que mantém Bolsonaro como principal referência política do grupo.