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Bruno Pivetti passa a limpo trabalho no sub-20 do Flamengo, fala sobre jogos no profissional e projeta o futuro da carreira

Treinador deixou o clube há dois meses e falou sobre a passagem na base rubro-negra, que também envolveu jogos pela categoria principal

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Foto: Caíque Coufal/Flamengo

Bruno Pivetti treinou o time sub-20 do Flamengo de julho de 2025 até maio de 2026. O técnico comandou o rubro-negro na conquista do título intercontinental sub-20 sobre o Barcelona e também em algumas partidas válidas pelo profissional. Seu contrato com o time da Gávea iria até o final da atual temporada, mas o vínculo foi rescindido pela diretoria meses antes em razão dos maus resultados no Brasileiro da categoria.

Pivetti comandou o Flamengo na última rodada do Brasileirão de 2025, contra o Mirassol, quando os jogadores do elenco principal estavam concentrados para a disputa do Intercontinental da FIFA em dezembro e precisou colocar os jogadores do sub-20 para a partida contra o time paulista. O cenário se repetiu nos três primeiros jogos do Campeonato Carioca de 2026, quando o elenco principal ainda não tinha retornado às atividades no início da temporada deste ano.

Pivetti após receber a mefalha de campeão intercontinental sub-20 no Maracanã. Foto: Gilvan de Souza/Flamengo

Em uma entrevista exclusiva para a Tupi, o treinador falou sobre sua passagem no comando da base rubro-negra e sobre os jogos que valiam pelo profissional. Antes de treinar o Flamengo, Bruno estava no comando do Operário-PR, onde foi campeão paranaense em 2025. O técnico de 42 anos também já comandou clubes como Vitória, Tombense, Goiás, Guarani, Náutico, CRB e CSA, onde foi campeão alagoano em 2021. O comandante explicou o que fez aceitar trabalhar em um time de base após diversas experiências em nível profissional, dando ênfase ao amistoso contra Bayer Leverkusen e a final do intercontinental sub-20 contra o Barcelona logo após a sua chegada ao clube, além da disputa da Libertadores sub-20 em 2026.

— Foi justamente o projeto. O Flamengo tinha um calendário muito atrativo do ponto de vista competitivo. Tinha um jogo contra o Bayer Leverkusen em julho do ano passado, contra a equipe profissional. Era um jogo muito importante que teve muita repercussão, nós vencemos por 5 a 1 e foi um grande teste para os jogadores do sub-20. Nós recebemos alguns reforços do time profissional, como o goleiro Matheus Cunha, o Viña na lateral-esquerda e o Cleiton zagueiro. Conseguimos reforçar bem o time e fazer um grande jogo. Depois nós tivemos a disputa do intercontinental sub-20 contra o Barcelona no Maracanã. Nós fomos bicampeões da competição e foi um jogo extremamente importante — disse antes de continuar falando sobre a disputa da Libertadores sub-20 em 2026:

— Nesse ano também tinha a Libertadores, um torneio muito grande e muito bem organizado. Nós disputamos e fomos vice-campeões. Infelizmente perdemos nos pênaltis mas saímos com a melhor campanha, de maneira invicta. Tínhamos todos os dados favoráveis, mas infelizmente tomamos o gol de empate no final da partida, mas foi uma grande campanha — e completou:

— Se tratando de formação, é claro que títulos sano importantes e é isso que nos move, esse DNA competitivo deve ser estimulado nos jogadores o tempo inteiro, mas a gente sabe que no sub-20 os jogadores ainda estão em etapa de formação. Então mais importante que qualquer título é o desempenho, a luta que eles demonstraram dentro de campo. Todo esse cenário em termos de calendário competitivo me fizeram aceitar a proposta do Flamengo, sem contar a grandeza do clube, a grandeza do projeto de futebol do Flamengo hoje. E saio do Flamengo um treinador melhor dado as experiências que vivi lá dentro.

Pivetti e Lorran comemorando o gol contra o Barcelona na final do intercontinental sub-20 no Maracanã. Foto: Gilvan de Souza/Flamengo

Pivetti relembrou em detalhes a conquista do título intercontinental sub-20, onde o Flamengo derrotou o Barcelona nos pênaltis no dia 22 de agosto de 2025 no Maracanã e se sagrou bicampeão da competição diante de 45 mil pessoas. A partida terminou empatada em 2 a 2 no tempo normal, com Lorran abrindo o placar para o Flamengo no primeiro tempo antes do clube espanhol virar a partida na etapa final e Iago marcar o gol de empate para o rubro-negro no último minuto.

— Foi um grande jogo, sem dúvida nenhuma muito marcante. Nós sabemos os desafios que se tem em trabalhar no sub-20 do Flamengo, porque não é sempre que temos todos os jogadores a disposição para poder oferecer um treinamento, em razão de eventuais necessidades da categoria profissional. Foi praticamente a única vez que eu tive duas semanas inteiras para trabalhar com um grupo fechado de jogadores tendo em vista a importância da competição, que era esse campeonato intercontinental contra o Barcelona no Maracanã. Conseguimos ter 15 dias de treinamento constante com os jogadores, estudamos bastante a equipe do Barcelona, é uma equipe muito qualificada, que tem um modelo de jogo parecido com a seleção espanhol — e completou:

— A gente conseguiu neutralizar na maior parte da partida o que eles tinham de melhor, que era a posse de bola e a variação de corredor. Nós conseguimos subir muito bem a marcação em bloco alto e foi assim que o nosso gol saiu. O gol do Lorran saiu após uma roubada de bola em bloco alto e em seguida ele fez uma grande jogada com o Matheus Gonçalves e o Lorran consegue definir muito bem dada a sua qualidade. Depois a gente sabia que enfrentaria muitas dificuldades em razão da qualidade do adversário. O Barcelona conseguiu a virada no finalzinho da partida em uma bola parada onde nós falhamos na questão do bloqueio defensivo, e faltando um minuto o Iago foi para a área, recebeu o levantamento do Salles e conseguiu concluir para o gol. A partir daí a partida foi definida nos pênaltis, algo que trabalhamos muito para ter êxito, nós fomos mais eficazes que o Barcelona nas cobranças e conseguimos o título, que com certeza marcou a carreira de todos que estavam envolvidos naquela partida, dada a grandiosidade do evento — encerrou.

Bruno Pivetti comemorando o título sobre o Barcelona com os filhos. Foto: Gilvan de Souza/Flamengo

O técnico também falou sobre o empate em 3 a 3 contra o Mirassol, pela última rodada do Brasileirão de 2025. Na ocasião, o Flamengo garantiu o título da competição na rodada anterior, quando derrotou o Ceará no Maracanã. Precisando viajar para o Catar para a disputa do Intercontinental da FIFA, o clube decidiu colocar o time sub-20 para jogar contra a equipe paulista no Maião.

— Foi um grande jogo, contra um adversário de altíssimo nível, não a toa o Mirassol do ano passado ficou em 4º lugar no Brasileirão. Em semelhança ao jogo contra o Bayer Leverkusen, naquela partida nós também recebemos alguns reforços do time profissional. Todas as vezes que eu tive que colaborar na categoria principal do Flamengo e nós recebemos os reforços do time profissional, o sub-20 conseguiu dar uma boa resposta e atuar em grande nível. Nós tivemos os reforços do Michael, do Wallace Yan, do Dyogo Alves e do Everton Araújo. Foram quatro jogadores que nos ajudaram demais nessa partida, justamente para pavimentar um caminho mais seguros para os jovens jogadores. A gente sabe que a confiança no futebol é determinante para o bom desempenho e para aumentar a nossa chance de sucesso em qualquer partida e eles conseguiram oferecer essa base sólida para os jogadores mais jovens terem a tranquilidade de implementar o seu melhor futebol —e prosseguiu:

— Acredito que tenha sido um jogo de altíssimo nível. Terminou 3 a 3, mas nós tivemos chances de ganhar a partida efetivamente. Acredito que tivemos um pênalti não assinalado a nosso favor, poderíamos ter saído com a vitória. Mas dado o trabalho do sub-20, a qualidade do elenco, somado também aos reforços da categoria profissional, nós conseguimos fazer uma grande partida.

Bruno Pivetti durante a partida entre Mirassol x Flamengo, pelo Brasileirão de 2025. Foto: Foto: Caíque Coufal/Flamengo

Na sequência, Bruno falou sobre as partidas pelo Campeonato Carioca de 2026, onde o Flamengo voltou a colocar o time sub-20 para jogar em nível profissional enquanto os jogadores do elenco profissional ainda estavam em pré-temporada. Na ocasião, o Flamengo fez três jogos com os jogadores da base no estadual, terminando com um empate contra a Portuguesa-RJ e duas derrotas para Bangu e Volta Redonda, fazendo a diretoria antecipar o retorno do time principal em razão do risco que a equipe correu de disputar o quadrangular do rebaixamento. Pivetti mencionou que ao contrário das partidas contra o Bayer Leverkusen e o Mirassol, o time sub-20 não recebeu nenhum reforço do time profissional além do Wallace Yan, que ainda tinha idade para a categoria e na época estava em negociações avançadas para se transferir para o RB Bragantino.

— Fato esse (reforço dos jogadores do time principal) que nós não observamos no estadual desse ano, onde decidiram que a gente ia fazer as primeiras partidas do estadual. Mas diferentemente do que aconteceu contra o Bayer Leverkusen e contra o Mirassol, nós não recebemos reforços do profissional, somente o Wallace Yan, que naquela altura também tinha idade de sub-20. Ele estava com uma proposta do RB Bragantino, chegou a sair e depois retornou, foi uma situação meio conturbada — e continuou:

— Tivemos ali 3 jogos em seis dias, uma diferença muito curta de tempo entre um jogo e outro. Contra a Portuguesa nós fizemos um grande jogo, o Wallace Yan teve duas grandes oportunidades no 1º tempo. Acabamos sofrendo o gol no 2º tempo e conseguimos empatar com o Iago em uma jogada semelhante aquela que foi o gol de empate contra o Barcelona na final do Intercontinental no ano anterior. Depois nós pegamos um campo muito difícil contra o Bangu, um dia chuvoso, e depois fomos jogar contra o Volta Redonda e tivemos um jogador expulso com 12 minutos de jogo. Foi um cenário extremamente difícil para nós, muito em função de não termos recebido os jogadores da categoria profissional para reforçar a nossa equipe e oferecer um suporte maior para os meninos. Conseguimos conquistar pelo menos um ponto em 3 jogos, que para o Flamengo é muito difícil em termos de resultado, dada a grandeza do clube. Depois o profissional assumiu os outros jogos e conseguiu sacramentar outro título para a equipe.

Bruno Pivetti na partida contra o Boavista pelo Campeonato Carioca de 2026. Foto:Adriano Fontes/Flamengo

Bruno deixou claro que não havia um planejamento exato a respeito da quantidade de jogos que o time sub-20 iria disputar pelo profissional no início da temporada de 2026.

— Para nós, o que chegava internamente é que a gente trabalhava para “o próximo jogo”. Não nos foi apresentado um planejamento sólido. A gente podia fazer um, dois, três, cinco jogos, mas a gente não tinha muita noção do que iria acontecer. Mesmo porque o profissional resolveu prolongar as férias, dado a disputa do Mundial.

O treinador voltou a falar sobre a falta de reforços do time profissional, dizendo que esperava que alguns jogadores com menor minutagem em 2025 fossem cedidos ao time sub-20, como ocorreu em outras oportunidades. Pivetti apontou que esta foi a primeira vez que a diretoria do Flamengo optou por não ceder jogadores do elenco principal, e relembrou o estadual do ano anterior, que 6 atletas do time profissional estavam a disposição, também destacando a diferença que a experiência dos jogadores já formados fazem para a equipe.

— A gente esperava que os jogadores que tiveram menos volume na temporada passada pudessem nos reforçar no início do estadual e isso não aconteceu. Salvo engano foi a única vez que o Flamengo optou por essa diretriz. No ano anterior, quando o sub-20 também começou o campeonato e também não teve um grande aproveitamento, 60% dos jogadores de linha eram da categoria profissional, somente 4 jogadores da base. Eu tramitei a maior parte da minha carreira em nível profissional e sei a diferença que é em termos de oscilação um jogador já formado e de um jogador que ainda está em formação — e prosseguiu:

— Foi uma situação que a gente teve dificuldade. O jogador sub-20 não reage ao erro da mesma maneira que um jogador profissional, é uma outra estabilidade emocional que esses jogadores têm. Os jogadores se cobraram muito em relação aos resultados não obtidos, pois se cria uma expectativa grande de poder servir da melhor maneira possível o profissional de uma equipe do tamanho do Flamengo. Nós não tivemos esse reforço e acabamos tendo essa dificuldade nesses 3 jogos que tivemos.

Time sub-20 do Flamengo na disputa do Campeonato Carioca de 2026. Foto: Gilvan de Souza/Flamengo

Após os jogos pelo profissional, Pivetti falou sobre o vice da Libertadores Sub-20 no mês de março, conquistado após a derrota nos pênaltis para o Santiago Wanderes (CHI). O comandante destacou que as reformulações no elenco impactaram o desempenho da equipe na competição, além de mencionar as dificuldades de jogar na altitude, já que a competição foi disputada em Quito, no Equador, a 2850 metros acima do nível do mar.

— Foi uma situação conturbada, por que o sub-20 do Flamengo passava por uma reformulação muito grande. Nós tivemos que contratar alguns jogadores para ter todas as opções em termos de posição, para montar a melhor lista possível para a Libertadores. Infelizmente tivemos alguns percalços pelo caminho, como a lesão do Joshua, que era um jogador importante para nós. O Douglas Telles não pôde ir para Quito em função da altitude, devido a uma situação de saúde que o impede de jogar acima do nível do mar. Fomos notificados de última hora que o exame de sangue dele detectou esse quadro e ele não poderia nops ajudar na altitude, então foram duas perdas significativas que nós tivemos — e continuou:

— Fora isso, alguns jogadores chegaram de última hora, um mês antes da competição, mas nós conseguimos dentro do cenário criar uma equipe competitiva e isso foi visto dentro de campo. A gente não pode normalizar a influência da altitude, é muito difícil jogar nesse cenário, ainda mais jogadores sub-20 que ainda não têm a experiência que jogadores profissionais têm, tanto em termos de passagens nesses ambientes, como também de você poder controlar o jogo minimizando os efeitos da altitude ao longo da partida — e prossegiu falando da final:

— E na final, a gente tava ganhando o jogo até os 40 minutos do primeiro tempo e os jogadores já desgastados em função da sequência de jogos e da altitude. Eu tive que fazer algumas mudanças, não tinha tantas opções no banco em termos de experiência. Estávamos bem preparados para as cobranças de pênalti, erramos apenas um, e o Santiago foi mais feliz que nós acertando os cinco. Ficou um gosto amargo do vice-campeonato, mas em termos de experiência eu acho que valeu muito para a formação de todos aqueles jogadores.

Flamengo x Santiago Wanderers na final da Libertadores Sub-20 • Divulgação/CONMEBOL

Posteriormente, o técnico falou sobre o período final da sua passagem, que terminou no mês de maio com a rescisão do contrato por parte da diretoria após os resultados ruins no Brasileirão Sub-20, onde o Flamengo ficou de fora das quartas de final. Pivetti falou que houve uma nova reformulção no elenco do sub-20, envolvendo contratações, lesões e cessão de jogadores ao sub-17 e a categoria profissional.

— Como aconteceu antes da Libertadores, pós-Libertadores o sub-20 do Flamengo também passou por um processo muito grande de reformulação. Alguns jogadores saíram em função de decisões internas do clube e outros jogadores chegaram para agregar mais valor a equipe. E nesse processo de reformulação, nós acabamos tendo que ceder jogadores para o sub-17 e para a categoria profissional. Nós ficamos bem desfalcados nessas últimas partidas. Alguns jogadores seguiram se recuperando em termos de lesões e geralmente lesões por choque, que não temos muita incidência — e seguiu:

— Acabamos tendo muita dificuldade de montar as equipes para ter o melhor cenário competitivo possível se tratando de Flamengo. Aí nessa sequência de maus resultados a diretoria optou pela minha saída e isso acontece no futebol, estou mais do que acostumado com isso. É uma pena não em função daquilo que aconteceu comigo, mas é uma pena para o futebol brasileiro, essa dificuldade de bancar projetos em longo prazo, nós temos isso enraizado na nossa cultura. E eu entendo que a pressão fica insuportável a partir das redes socais, de imprensa e de torcida. Ninguém tem responsabilidade nisso, o que acontece é a cultura que está enraizada em cada um de nós, e principalmente no nosso futebol — e complementou:

— Eu vejo isso como uma das principais mazelas do futebol brasileiro, porque nós não conseguimos consolidar processos, e essa consolidação depende de tempo para firmar um processo de aprendizagem. Depois que eu saí a equipe não conseguiu se acertar, muito em função dessa constante reformulação, de ter que ceder jogadores constantemente para treinos no profissional. Isso acaba gerando um cenário conturbado na preparação de jogos e acredito que às vezes o resultado fica muito difícil de ser conquistado mediante esse cenário que não é muito estável em temros de preparação para as partidas.

Bruno Pivetti no comando do Operário. Foto: Reprodução/OFEC

Veja outras respostas

O que o título paranaense pelo Operário em 2025 significou para a sua carreira?

— Foi extremamente importente, porque o Operário é um clube muito seguro, que não faz loucuras em termos de investimento. Nós tínhamos um elenco muito qualificado, apesar de enxuto. Mesmo assim conseguimos fazer um grande campeonato, nós lideramos a primeira fase e chegamos até a final, onde vencemos o Maringá nos pênaltis. Foi um título muito importante e depois no início da Série B o time oscilou e o Operário oscilou pela troca de comando e prontamente veio o convite do Flamengo, que veio muito em função dos bons jogos que tive a oportunidade de participar no Operário. Não só do Campeonato Paranaense, mas também no avanço da Copa do Brasil, fizemos um grande jogo contra o Vasco em São Januário. Fomos eliminados nos pênaltis, mas demos muito trabalho ao Vasco que tinha uma folha salarial muito mais alta que a nossa. Fizemos dois jogos e foram dois empates, um em Ponta Grossa e outro em São Januário. E isso despertou o interesse do Alfredo Almeida, diretor do Flamengo que eu já havia trabalhado junto no Villa Nova em Minas Gerais, em 2022. Recebi o convite do Flamengo e prontamente aceitei.

Chegou a trocar informações com o Filipe Luís e o Leonardo Jardim enquanto esteve no comando do time sub-20?

— Muito pouco. A conversa com o profissional ficava na ponte feita pelo nosso diretor, o Alfredo. Com o Leonardo Jardim eu não tive nenhum contato e com o Filipe Luís poucos contatos. Acho que eu falei com ele umas quatro vezes de uma maneira bem rápida. Na minha passagem não se tinha muita proximidade categoria sub-20 com a profissional, apesar de estarem no mesmo CT, não se tinha muita comunicação, a não ser pela figura do diretor esportivo da base.

Para você o que mais atrapalha o processo de transição de um jovem da base para o profissional?

— Cada clube tem a sua particularidade. Eu posso falar que desse tempo que eu passei no Flamengo, a principal dificuldade que eu vejo hoje em dia é a criação de uma janela de oportunidade para que esses jogadores possam atuar na categoria profissional. Hoje o Flamengo é a maior receita do futebol brasileiro e quando tem alguma carência no elenco a opção é sempre contratar. O espaço para os jogadores efetivamente jogarem e terem uma sequência no profissional acaba sendo bem restrito. Alguns jogadores conseguem, mas demanda-se um certo tempo, como foi o caso do Matheus Gonçalves no ano passado que teve mais oportunidades, o Evertton Araújo que está tendo mais oportunidades, mas não é um cenário fácil, porque em um clube da dimensão do Flamengo a exigência é máxima em relação ao resultado. A gente sabe que no futebol quanto menos oscilação tiver, mais próximo uma equipe vai estar do resultado, e nem sempre um jogador chega das categorias de base pronto sem oscilação nenhuma. Eu acredito que esse cenário dificulta para os jogadores terem uma janela de oportunidade, mas eu acredito que tenha muita qualidade na base do Flamengo, isso foi visto no jogo contra o Bayer Leverkusen, contra o Mirassol e nos jogos em Portugal, quando esses jogadores tiveram o suporte devido de jogadores profissionais atuando ao lado deles, eles conseguiram dar boas respostas. Eu acredito que se eles tiverem uma janela de oportunidade e forem efetivamente bancados, eeles têm condições de oferecerem muita alegria a torcida do Flamengo.

O que falta no futebol brasileiro para que se crie um processo de formação de atletas semelhante ao que ocorre na Espanha, onde o treinador da seleção principal também trabalhou nas categorias de base e levou com ele vários atletas para a Copa do Mundo?

— Para mim o que falta tanto nos clubes quanto na Seleção Brasileira é você idealizar, planejar um projeto de trabalho e efetivamente oferecer o tempo correto para que esse processo possa ser consolidado. Isso envolve a manutenção dos treinadores, a ideia que você quer defender, a metodologia que você vai utilizar para colocar essa ideia em prática e depois bancar os processos e aguentar as dores de crescimento até você alcançar o resultado que você pretende. No Brasil nós estamos sempre recomeçando o processo, porque de antemão ninguém sabe muito bem para onde quer ir. Antes de assumir as categorias de base da Espanha, o Luis de la Fuente foi demitido de um clube da 3ª divisão da Espanha por não ter resultado. E às vezes a culpa não é só do treinador, mas do contexto. A partir do momento que foi dado a ele um projeto e sendo a pessoa certa para defender as ideias e aplicar a metodologia, ele foi galgando espaços cada vez mais audaciosos na seleção até chegar a equipe principal, e hoje vemos a Espanha com um nível de organização absurdo. O que oferece isso é a ideia de jogo adequada, a metodologia de treino e o tempo para você poder alcançar esse alto nível. Outra seleção que fez esse processo de trabalho foi Marrocos. Não é a toa que eles chegam em uma Copa do Mundo podendo brigar de igual para igual com as principais seleções do planeta. É um projeto de longo prazo que foi consolidado e agora cada país a sua maneira vai recolhendo os resultados, frutos desses processos estabelecidos de trabalho.

Como você enxerga as constantes saídas precoces de jovens atletas para a Europa sem terem uma experiência prévia no Brasil?

— Eu acho uma pena porque a gente não permite ao jogador criar a devida identidade com o nosso país. Hoje a gente vê o Ryan Roberto, que estava trabalhando comigo saindo do clube antes de efetivamente fazer um jogo no profissional. Eles fez alguns jogos no profissional, mas nessa situação do sub-20 assumir a demanda do profissional, sem os devidos reforços, sem uma organização sólida em termos de processos. Não foi um jogador que teve por exemplo as oportunidades do Vinícius Júnior e do Paquetá, de jogar e se consolidar no profissional antes da sua saída. Eu temo muito por isso, porque eu acho que isso pode afetar a questão da formação da identidade do jogador com o seu país, e isso pode refletir de uma maneira muito nociva dentro de campo na minha visão.

O que esses dez meses no Flamengo signifcaram para a sua carreira?

— Foi extremamente importante, porque teve um quadro competitivo muito rico. Isso vai gerando situações que não tem como gerar aprendizagem. Sempre que se gera aprendizagem, nós nos tornamos um profissional e uma pessoa melhor. Foi desafiador no sentido de você não ter o controle absoluto de tudo. Em equipes profissionais o treinador tem quase o controle total daquilo que acontece dentro de campo, dentre as suas escolhas para treinamento e jogos. Nas categorias de base, principalmente no sub-20, você fica a mercê da categoria profissional, que é o carro chefe do clube, como também do sub-17, às vezes você tem que ceder jogadores para ambas categorias. Isso gera dificuldade no dia a dia, mas essa dificuldade também gera uma capacidade de adaptação a diferentes cenários, contribuiu demais para a minha carreira como treinador. E defender as cores do Flamengo é sempre uma honra, trabalhar em uma estrutura grandiosa que disponibiliza tudo aquilo que qualquer profissional sonha trabalhar. A cobrança nos faz sempre querer ser um profissional melhor e entregar cada vez mais para o clube, só tenho a agradecer por esse período.

Chegou a receber propostas a nível profissional depois que deixou o Flamengo?

— Eu tive algumas sondagens de Série B, C e D. Não conseguimos chegar a um denominador comum a níveis de projeto para poder sacramentar o contrato. Mas tenho certeza que daqui a pouco vai aparecer uma proposta e vou fazer aquilo que sempre fiz, que é me doar ao máximo em prol do clube que estou defendendo no momento.

O que você imagina como projeto ideal para que você volta a trabalhar o quanto antes?

— Eu costumo brincar que o ideal no futebol brasileiro não existe. A gente tem que trabalhar com aquilo que tem. Temos que analisar uma série de condicionantes para poder encabeçar um projeto de trabalho, porque a gente sabe a responsabilidade que nós tempos, pois o futebol desperta paixões, e quando você assume efetivamente um clube como treinador você está ali como o guardião da paixão de uma torcida inteira. Então é ter tranquilidade nesse momento e analisar as propostas. Eu tenho um estafe muito competente que trablha por mim no mercado, e na ahora que tiver que retornar, estarei pronto para fazer o melhor.

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