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Pompeu Trogo, historiador romano: “Os hispânicos são muito corajosos, mas têm um grande defeito: se não têm um inimigo comum, passam o tempo lutando entre si.”
Uma frase antiga explica como povos rivais se unem contra Roma
Pompeu Trogo viveu no século I antes de Cristo e dedicou parte de sua obra a descrever os povos que resistiam ao avanço de Roma. Entre suas observações mais citadas está o veredito sobre os hispânicos: guerreiros corajosos, mas incapazes de manter a união quando faltava um adversário externo para enfrentar. Essa leitura resume um padrão que se repetiu várias vezes na Península Ibérica.
Quem foi Pompeu Trogo, o historiador que registrou a Hispânia antiga?
Pompeu Trogo nasceu na Gália Narbonense, região que hoje corresponde ao sul da França, e viveu durante o reinado de Augusto. Era descendente de uma família de origem gaulesa que já havia recebido a cidadania romana, e isso talvez explique seu interesse em olhar para Roma de fora, comparando o império com os povos que ele tentava dominar.
Sua obra principal foi a Historiae Philippicae, um projeto de história universal em 44 livros que tentava narrar a trajetória de vários reinos antigos, da Assíria à Macedônia, até chegar em Roma. O texto original se perdeu, mas sobreviveu por meio de um resumo escrito séculos depois por Justino.
Como Pompeu Trogo descrevia o caráter dos guerreiros hispânicos?
Ao tratar da Hispânia, Pompeu Trogo não poupava elogios à resistência física dos habitantes da região, mas também apontava a fragilidade que via na organização coletiva desses povos. Alguns traços descritos por ele aparecem repetidamente nos fragmentos que restaram de sua obra.
- Corpo treinado para o trabalho pesado e para longas marchas em terreno difícil.
- Disposição para enfrentar a morte em combate sem hesitação.
- Capacidade de resistir a cercos prolongados, como ocorreu em episódios posteriores da Hispânia.
- Falta de um comando único que unisse as diferentes tribos ibéricas contra Roma.

O que a Historiae Philippicae revela sobre os povos da Península Ibérica?
Nos trechos dedicados à Hispânia, Pompeu Trogo tratava a região como um território de guerreiros temíveis, mas também como um quebra cabeça político para os generais romanos. Ele descrevia tribos distintas, com lealdades próprias, que raramente agiam em conjunto por vontade própria.
Essa fragmentação política é justamente o que tornava a conquista da Hispânia um processo longo. Roma levou quase dois séculos para consolidar o controle sobre toda a região, enfrentando revoltas isoladas que se repetiam mesmo depois de derrotas anteriores.
Diante disso, um cenário se destacava com clareza para o historiador: a diferença entre os momentos em que havia um inimigo comum e os momentos em que a rivalidade interna prevalecia.
Por que a ausência de um inimigo comum enfraquecia essas tribos?
Quem foi Sertório e como sua revolta confirma essa observação?
O caso de Sertório ilustra bem o que Pompeu Trogo descrevia. Esse general romano, ligado à facção dos Populares, refugiou-se na Hispânia em 80 a.C. e conseguiu reunir várias tribos ibéricas contra o governo de Sila, formando quase um Estado paralelo dentro da própria Hispânia.
Sua liderança funcionou justamente porque criou um objetivo compartilhado entre povos que normalmente disputavam território entre si. Alguns grupos foram decisivos nesse episódio.
- Os lusitanos, descritos como um dos povos mais aguerridos da região.
- Os celtiberos, que forneceram parte importante do apoio militar a Sertório.
- Cidadãos romanos nativos da própria província, que também aderiram à causa.
Uma sentença que atravessou dois mil anos
A leitura feita por um cronista do século I a.C. sobre um povo distante da capital do império segue sendo repetida até hoje, sinal de que ela capturou algo que ultrapassa a época em que foi escrita. O contraste entre a força individual e a fragilidade coletiva continua sendo usado para explicar episódios de resistência seguidos de derrota.
Mais do que um julgamento sobre um povo específico, a frase virou um retrato de como alianças se formam e se desfazem conforme a existência ou não de um adversário externo. É esse mecanismo, descrito com precisão há dois mil anos, que continua explicando por que certas uniões duram apenas enquanto há um motivo comum para lutar.