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A psicologia revela que pais que criaram filhos nos anos 80 e 90 sem internet, sem psicólogo e sem manual não foram negligentes, mas usaram um modelo de amor silencioso que essa geração só vai entender depois dos 30
Pais dos anos 80 e 90 não foram negligentes: a psicologia mostra que praticaram um modelo de afeto silencioso que só é compreendido décadas depois
🏠 Sem internet, sem psicólogo, sem manual
Eles criaram filhos na base do instinto, da tentativa e do silêncio. Não diziam “eu te amo” todo dia, mas acordavam de madrugada para cobrir a criança que tinha destampado. A geração que só entende esse amor depois dos 30. ⬇️
O pai chegava do trabalho, jantava em silêncio e sentava no sofá. A mãe dava banho, ajeitava o uniforme e conferia o caderno. Ninguém perguntava “como você está se sentindo”. O amor não era dito. Era servido no prato, costurado na bainha da calça, escondido na lancheira. Uma geração inteira cresceu achando que faltou carinho. Até perceber, já adulta, que o carinho estava em cada gesto que passou despercebido.
Que tipo de criação predominava entre os anos 80 e 90?
A psicóloga Diana Baumrind, da Universidade da Califórnia em Berkeley, classificou os estilos parentais em três categorias principais nos anos 1960: autoritário, autoritativo e permissivo. O modelo mais comum nas famílias brasileiras das décadas de 80 e 90 ficava entre o autoritário e o autoritativo, com regras claras, pouca verbalização emocional e expectativa de obediência.
Os pais dessa época não tinham acesso a grupos de apoio online, vídeos de psicólogos infantis ou livros de parentalidade positiva. O que tinham era o exemplo dos próprios pais, geralmente mais rígidos ainda. A margem de evolução era estreita. O fato de muitos terem flexibilizado certas regras já representava uma ruptura significativa com a geração anterior.

O silêncio emocional significava falta de amor?
Na maioria dos casos, não. O afeto existia, mas se expressava por meio de ações concretas. Trabalhar horas extras para pagar a escola, acordar de madrugada para levar ao hospital, escolher o melhor pedaço de carne para o prato do filho. Esse modelo de amor instrumental não combinava com abraços demorados ou declarações verbais. Não porque o sentimento faltasse, mas porque a cultura da época não autorizava essa expressão.
Pesquisas sobre transmissão intergeracional de estilos parentais confirmam que pais tendem a reproduzir o modelo que receberam, com adaptações graduais. Um estudo com 286 mães e 274 pais, publicado na revista Australian Journal of Psychology, mostrou que continuidades intergeracionais são especialmente fortes nos estilos autoritário e permissivo. A mudança de padrão acontece, mas de forma lenta.
O contraste entre o modelo dos pais de antigamente e a parentalidade contemporânea gera tensões, mal-entendidos e, muitas vezes, julgamentos injustos. Entender as diferenças ajuda a colocar cada geração no seu contexto.
Por que os filhos só entendem esse tipo de amor depois dos 30?
Porque é na vida adulta que a pessoa começa a enfrentar as mesmas pressões que seus pais enfrentaram: contas, cansaço, responsabilidades que não param. É quando o filho troca uma lâmpada, cozinha pela primeira vez para alguém ou perde o sono preocupado com outra pessoa que ele reconhece os gestos que recebeu.
- O carinho silencioso dos pais das décadas passadas se revela nos detalhes: a marmita pronta, a conta paga em dia, o remédio dado no horário certo.
- A ausência de palavras de afeto não significava ausência de sentimento. Era um código diferente, transmitido por uma cultura que valorizava o “fazer” acima do “dizer”.
- Filhos que aprendem a traduzir esse código conseguem reconhecer amor onde antes viam apenas distância.

Julgar esses pais com as lentes de hoje é justo?
Não. Cada geração educa com as ferramentas que tem. Os pais de antigamente não foram negligentes. Foram filhos de uma época ainda mais rígida e fizeram o que puderam para suavizar as arestas. Cobrar deles uma linguagem emocional que não existia no vocabulário da época é anacronismo.
- Reconhecer as limitações dos pais não exige defendê-los de tudo. É possível honrar o esforço e, ao mesmo tempo, buscar preencher as lacunas emocionais que ficaram.
- A geração que criou filhos sem manual abriu caminho para que a geração seguinte pudesse criar com mais consciência.
- O amor silencioso não é inferior ao amor verbalizado. É diferente. E diferente não é sinônimo de errado.
É possível reconhecer esse amor e ainda assim buscar algo diferente?
Sim. E essa é, talvez, a maior maturidade possível. Olhar para os pais que criaram sem manual, sem internet e sem psicólogo, e reconhecer que fizeram o melhor que sabiam. Ao mesmo tempo, escolher conscientemente oferecer algo diferente aos próprios filhos.
Se os seus pais foram dessa geração, pare um instante e lembre-se de um gesto pequeno que eles repetiam sem alarde. Ali estava o amor que você procurava. Ele só falava outra língua.