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Xuxa transforma nostalgia em espetáculo pop grandioso em O Último Voo da Nave

Estreia da nova turnê de Xuxa em São Paulo mostra que a força da Rainha dos Baixinhos está menos na perfeição musical e muito mais na capacidade de transformar memória afetiva, representatividade e quatro décadas de cultura pop em espetáculo

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Crítica do show Xuxa: O Último Voo da Nave

Poucos artistas brasileiros possuem uma relação tão profundamente afetiva com seu público quanto Xuxa Meneghel. E talvez seja justamente por compreender essa dimensão de sua própria história que a apresentadora acertou ao conceber Xuxa: O Último Voo da Nave não simplesmente como um show musical, mas como uma gigantesca celebração de memória afetiva.

A turnê estreou neste sábado, 25 de julho de 2026, no Nubank Parque, em São Paulo, diante de um estádio lotado. Aos 63 anos, Xuxa mostrou que não precisa tentar competir com as estrelas pop atuais nem fingir que os últimos 40 anos não passaram. Pelo contrário: o grande mérito do espetáculo está justamente em assumir o tempo, celebrar o passado e compreender que aquela multidão formada majoritariamente pelos antigos “baixinhos” cresceu junto com ela.

E a nave voltou a voar. Literalmente.

A nave é o grande símbolo do espetáculo

Era praticamente impossível criar uma turnê chamada O Último Voo da Nave sem que a nave se transformasse na grande protagonista visual da noite. A produção entendeu isso perfeitamente.

Uma versão moderna do objeto que se tornou um dos maiores símbolos da televisão brasileira sobrevoou o estádio, criando justamente a imagem que provavelmente ficará registrada como a síntese desta turnê.

O espetáculo utiliza palco em 360 graus, projeções, iluminação, efeitos visuais, bailarinos, personagens históricos e diferentes elementos cenográficos para reconstruir o universo da artista. A produção também recupera referências das várias fases televisivas de Xuxa.

A grandiosidade não parece gratuita. Existe uma justificativa dramatúrgica para quase tudo que aparece no palco: reconstruir um universo que durante décadas existiu principalmente dentro da televisão. Xuxa sempre trabalhou com fantasia. Portanto, seria incoerente fazer sua despedida da nave em um espetáculo minimalista. Aqui, quanto maior, melhor. E a nave sobrevoando milhares de pessoas funciona não apenas como efeito tecnológico, mas como materialização de uma lembrança coletiva.

Xuxa finalmente ganha um espetáculo compatível com sua importância para a cultura pop brasileira

Talvez este seja um dos aspectos mais interessantes da produção. Durante décadas, parte da crítica cultural brasileira teve dificuldade para compreender Xuxa como um fenômeno genuíno da cultura pop. Mas os números, o impacto cultural e a permanência de sua obra são difíceis de ignorar.

Quatro décadas depois do auge do Xou da Xuxa, dezenas de milhares de adultos ainda sabem cantar aquelas músicas, reproduzir as coreografias e reconhecer imediatamente símbolos como a nave, as Paquitas e determinados figurinos.

Isso é cultura popular. E O Último Voo da Nave parece compreender essa dimensão histórica melhor do que muitos projetos anteriores da própria artista.

A imprensa que acompanhou a estreia destacou justamente essa transformação de Xuxa em uma espécie de diva pop brasileira, com uma produção de estádio construída a partir de elementos presentes nas grandes turnês internacionais.

Antes da estreia, a própria Xuxa revelou ter observado espetáculos de artistas como Beyoncé, Pink, Michael Jackson e Taylor Swift como referências para pensar sua produção. Não significa copiar esses artistas. Significa finalmente tratar o repertório e a iconografia de Xuxa com a dimensão espetacular que eles possuem.

O repertório acerta ao não escolher apenas uma geração

Outro grande acerto está no repertório. Seria muito fácil construir um espetáculo sustentado exclusivamente pela fase do Xou da Xuxa, entre os anos 1980 e 1990. Mas isso excluiria milhões de pessoas que conheceram Xuxa posteriormente. O show percorre diferentes períodos.

“Doce Mel”, “O Xou da Xuxa Começou”, “Xuxa Lelê”, “Abecedário da Xuxa”, “Tindolelê”, “Ilariê” e “Lua de Cristal” dividem espaço com músicas de fases posteriores, incluindo “Planeta Xuxa”, “Libera Geral” e sucessos do fenômeno Xuxa Só Para Baixinhos, como “Cinco Patinhos”, “Txutxucão”, “Estátua” e “Soco, Bate, Vira”.

É uma escolha inteligente porque transforma o espetáculo em uma cronologia musical. Quem foi criança nos anos 1980 encontra sua Xuxa. Quem cresceu nos anos 1990 também. E a geração dos anos 2000 encontra a apresentadora dos DVDs infantis que se transformaram em outro fenômeno comercial. O resultado é praticamente uma linha do tempo da carreira de Xuxa contada através da música.

As Paquitas continuam fundamentais para contar essa história

A participação das Paquitas também está entre os momentos de maior carga emocional. Treze ex-Paquitas de diferentes gerações participaram da estreia, reforçando algo que os documentários recentes sobre Xuxa já haviam evidenciado: não é possível reconstruir completamente aquele universo sem elas.

Canções como “Fada Madrinha”, “Sonho de Verão”, “Trocando Energia” e “Pra Sempre Paquitas” transformam essa parte do espetáculo quase em um reencontro coletivo. Existe, evidentemente, também uma camada de nostalgia comercial nisso tudo.

Mas seria injusto reduzir o momento apenas a isso. Para boa parte daquele público, aquelas mulheres fazem parte de lembranças reais da infância. Ao colocá-las novamente juntas no palco, o espetáculo transforma memória individual em experiência coletiva.

Xuxa não precisa ser uma grande cantora para comandar um grande show

Existe ainda uma questão que precisa ser colocada em qualquer análise minimamente crítica. Xuxa nunca construiu sua carreira baseada em virtuosismo vocal. E isso continua não sendo necessário. Avaliar O Último Voo da Nave pelos mesmos critérios utilizados para analisar um espetáculo de uma cantora essencialmente vocal seria não compreender a natureza da artista.

Xuxa é uma entertainer. Sua força está na presença, no carisma, na comunicação direta, na dança, na imagem e, principalmente, na relação estabelecida com o público. As músicas são parte de um universo maior.

Por isso, os momentos mais poderosos do espetáculo não necessariamente dependem de grandes interpretações vocais. Dependem da capacidade de fazer dezenas de milhares de pessoas voltarem emocionalmente a algum momento de suas próprias vidas. Nesse quesito, Xuxa possui algo que técnica nenhuma consegue fabricar: história compartilhada com a plateia.

A nostalgia é força — mas também pode ser uma armadilha

Existe, porém, um desafio para a turnê. A nostalgia é claramente seu combustível. Quase todos os grandes momentos dependem de reconhecimento: uma música conhecida, um figurino, uma personagem, uma coreografia, uma imagem da televisão ou a aparição da nave.

Funciona extraordinariamente bem porque o público deseja exatamente isso. Mas um espetáculo construído quase integralmente sobre referências ao passado corre sempre o risco de transformar a celebração em uma sucessão de lembranças.

É justamente quando O Último Voo da Nave tenta dialogar com a Xuxa atual que o projeto ganha uma camada mais interessante. Aos 63 anos, ela não tenta simplesmente reproduzir a apresentadora de 25. A mulher que aparece no palco carrega também suas posições atuais sobre diversidade, meio ambiente, respeito e liberdade.

Essa atualização é fundamental. Sem ela, teríamos apenas um gigantesco revival. Com ela, temos uma artista revisitando a própria história sob a perspectiva de quem se tornou.

Diversidade deixa de ser subtexto

Outro elemento bastante destacado na cobertura da estreia foi a relação de Xuxa com seu público LGBTQIAPN+. Essa conexão não nasceu agora. Uma parcela significativa dos adultos que lotam seus shows atualmente pertence à comunidade, público que durante décadas manteve viva sua iconografia dentro da cultura pop.

Ao falar sobre tolerância, preconceito, homofobia, paz, preservação ambiental e respeito às diferenças durante o espetáculo, Xuxa aproxima aquela fantasia infantil dos valores que passou a defender publicamente na vida adulta.

É uma evolução coerente. A criança que ouvia que deveria acreditar nos próprios sonhos cresceu. Agora, a mensagem dirigida a esse adulto é também sobre ter liberdade para ser quem é.

Repercussão mostra que público comprou a proposta

Nas primeiras horas após a apresentação, vídeos do voo da nave, das Paquitas, dos figurinos e dos principais números musicais rapidamente circularam pelas redes sociais. O tom predominante das reações foi de nostalgia, emoção e surpresa com o tamanho da produção.

E talvez o melhor indicador da proposta seja justamente observar adultos emocionados diante de elementos que fizeram parte de suas infâncias. Não existe vergonha nisso. Existe memória.

O show aparentemente compreendeu uma característica importante da relação de Xuxa com seus fãs: eles não querem apenas ouvir as músicas novamente. Querem sentir novamente alguma coisa que associam àquela época. São experiências diferentes.

Mais do que despedida, uma reafirmação

Apesar do título, é importante fazer uma distinção.

O Último Voo da Nave não representa necessariamente a aposentadoria de Xuxa. A própria artista já explicou que pretende aposentar principalmente a nave e determinados elementos associados à imagem infantil que carregou durante décadas, e não desaparecer da vida artística.

Isso muda completamente o significado do espetáculo. Não estamos exatamente assistindo ao fim de Xuxa. Estamos assistindo ao encerramento consciente de uma personagem construída ao longo de décadas. Talvez por isso exista algo bastante simbólico na imagem da nave voando novamente.

Durante anos, Xuxa tentou se afastar de determinados símbolos do passado para provar que poderia existir profissionalmente sem eles. Agora ela parece confortável o suficiente para recuperá-los, celebrá-los e finalmente deixá-los partir.

Xuxa entende finalmente o tamanho da própria história

O Último Voo da Nave funciona porque não tenta reinventar Xuxa. Ele faz algo mais importante: reconhece sua dimensão. Pouquíssimas artistas brasileiras poderiam colocar uma nave gigantesca sobrevoando um estádio e provocar imediatamente uma reação emocional coletiva.

Isso não nasceu de uma campanha de marketing em 2026. Foi construído ao longo de mais de quatro décadas. Há excessos? Naturalmente.

A duração e a quantidade de referências podem tornar determinados blocos menos dinâmicos. Algumas escolhas existem muito mais pelo valor afetivo do que por necessidade musical. E quem não possui ligação emocional com aquele universo provavelmente experimentará o espetáculo de maneira completamente diferente.

Mas talvez seja exatamente esse o ponto. O Último Voo da Nave não pretende convencer quem nunca embarcou. Ele foi criado para quem esteve dentro dela.

Conclusão

A estreia de Xuxa: O Último Voo da Nave mostra uma artista que finalmente parece reconciliada com todas as versões de si mesma. A apresentadora infantil, a cantora pop, a estrela dos filmes, a comandante do Planeta Xuxa, a criadora do Só Para Baixinhos e a mulher de 63 anos coexistem no mesmo espetáculo.

Mais do que uma turnê musical, trata-se de uma celebração da memória afetiva de algumas gerações de brasileiros. E existe algo especialmente bonito no fato de Xuxa escolher encerrar o ciclo da nave justamente fazendo aquilo que milhões de crianças acreditaram durante anos que ela fazia: voar.

Depois de décadas entrando e saindo daquele objeto dentro de um estúdio de televisão, a nave finalmente ganhou os céus. Se este realmente será seu último voo, a estreia mostrou que a despedida está acontecendo na escala que esse símbolo merece. Porque Xuxa pode até aposentar a nave. Mas dificilmente conseguirá aposentar o lugar que ocupa na memória afetiva e na história da cultura pop brasileira.

O texto Xuxa transforma nostalgia em espetáculo pop grandioso em O Último Voo da Nave foi publicado primeiro no Observatório dos Famosos.