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A pequena vila ecológica que abriu duas vagas para voluntários e famílias dispostas a morar em comunidade
Vilarejos pequenos costumam perder gente para as capitais, quase nunca o contrário. No interior do departamento de Cundinamarca, na Colômbia, uma comunidade rural sustentada desde 2006 faz o movimento inverso e mantém uma convocatória aberta para receber duas famílias que queiram viver em regime coletivo. A vaga na vila existe, tem casa e cozinha comum, mas o processo de entrada leva quase um ano.
O que significa ter uma vaga aberta em uma ecoaldeia colombiana?
Significa que a comunidade escolhe seus próprios moradores, um por um. A Aldeafeliz informa em sua convocatória oficial que tem dois cupos disponíveis para casais ou famílias decididas a viver em comunidade, com duas moradias já prontas para receber quem for aprovado no processo.
Hoje vivem no território cerca de 10 famílias, algumas com filhos, em uma área de 3,5 hectares na vereda San Miguel. As casas disponíveis não são equivalentes: a Casa Acuarela tem banheiro e cozinha próprios, para quem quer alguma autonomia doméstica, enquanto o Refúgio Xandalú é um espaço menor com acesso ao banheiro e à cozinha comunitários usados por toda a aldeia. A prioridade fica com pessoas experientes em bioconstrução, permacultura, produção de alimentos ou captação de recursos.
A postagem é do perfil Aldeafeliz Ecovillage, que conta com mais de 8 mil seguidores, e apresenta ações práticas de desenvolvimento baseadas na felicidade e no cuidado constante com a natureza:
Por que entrar nessa comunidade leva quase um ano?
Porque o ingresso é escalonado e começa muito antes da mudança. Segundo o manual de convivência da Aldeafeliz, o processo tem etapas bem definidas antes da entrega da chave:
Nada disso é decidido por um dono ou um síndico: a aldeia adota sociocracia desde 2013 e o território pertence a uma associação sem fins lucrativos criada em 2009.
Onde fica a Aldeafeliz e como é o entorno da encosta?
A aldeia ocupa uma encosta da vereda San Miguel, no município de San Francisco de Sales, província do Gualivá, a cerca de duas horas de carro de Bogotá pela autoestrada rumo a Medellín. Conforme a Alcaldía Municipal de San Francisco, o município fica a 55 km da capital colombiana, tem temperatura média de 20 °C, chuva anual próxima de 1.493 mm e abriga mais de 30 espécies de beija-flor.
Dentro desse recorte existe uma anomalia que a própria comunidade descreve como topoclima, ou seja, um microclima criado pelo relevo e pelo caminho dos ventos. A 1.550 metros de altitude, a média local sobe para 22 °C, com mais umidade, mais nuvens e mais biodiversidade do que seria esperado nessa faixa de altura. O resultado aparece no chão: café, banana, laranja, abacate e goiaba crescem no terreno, que ainda tem 250 metros de margem no rio San Miguel e um lago onde se pode nadar, com vista para a reserva hídrica de El Tablazo.
Acompanhe a trajetória de criação de uma ecovila na Colômbia. O vídeo é do canal Aldeafeliz Ecoaldea, que conta com mais de 160 inscritos, e apresenta os relatos dos fundadores Carlos e Anamaria sobre a transição do projeto de ecobairros em Bogotá para a construção comunitária do espaço:
Quando ir: o calendário de chuvas da região andina
Diferente do Brasil, a Colômbia andina não tem verão nem inverno tradicionais. O que define o calendário é o regime bimodal de chuvas descrito pelo Instituto de Hidrología, Meteorología y Estudios Ambientales (IDEAM), com dois períodos secos e dois chuvosos ao longo do ano. Para quem pensa em conhecer a aldeia, o mês escolhido muda bastante a experiência.
Médias aproximadas com base em dados do IDEAM. Fenômenos como El Niño e La Niña podem alterar o padrão, portanto vale checar a previsão antes de viajar.
Quanto peso a Aldeafeliz tem fora da Colômbia?
Mais do que o tamanho sugere. A comunidade integra a Global Ecovillage Network (GEN), rede que alcança cerca de 6.000 comunidades em 114 países, e participou de dois marcos que ampliaram o seu alcance internacional:
- Fundação da CASA Latinoamérica: a Aldeafeliz ajudou a criar tanto a rede colombiana de ecoaldeias quanto o Conselho de Assentamentos Sustentáveis da América Latina.
- Presidência da GEN Internacional em 2015: no encontro de Findhorn, na Escócia, Beatriz Arjona, da Aldeafeliz, foi eleita para uma das duas presidências da GEN Internacional, ao lado do norte-americano Daniel Greenberg.
- Objeto de pesquisa acadêmica: a pesquisa Ecoaldeas en Colombia transitando hacia el buen vivir, publicada na revista Entramado em 2018, acompanhou o cotidiano da aldeia e da ecoaldeia Anthakarana, no Quindío.
Segundo o Ministério das Relações Exteriores, o turismo na Colômbia vai até 90 dias, mas trabalho voluntário exige visto próprio.
Morar em comunidade continua sendo uma escolha rara
O que chama atenção na Aldeafeliz não é a paisagem, ainda que a encosta de café com rio ao fundo justifique a viagem. É a existência de um lugar que anuncia publicamente ter espaço para mais gente e, ao mesmo tempo, cobra quase um ano de convivência antes de entregar a chave.
Em um continente onde a migração corre quase sempre do campo para a cidade, duas vagas abertas em uma encosta colombiana funcionam como um pequeno contraponto estatístico. Elas medem menos o tamanho do movimento das ecoaldeias e mais a disposição de algumas pessoas em trocar a privacidade urbana por uma cozinha, uma horta e uma decisão dividida com mais dez famílias.