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Uma muralha viva de 8 mil quilômetros de árvores está sendo plantada na África e já pode ser vista de satélites

África planta uma muralha verde de 8 mil quilômetros.

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Enquanto o mundo discute cúpula de clima em cidade fria, um projeto que atravessa 11 países africanos coloca terra debaixo da unha há quase duas décadas. A Grande Muralha Verde é uma faixa de floresta com 8 mil quilômetros de extensão que está sendo plantada de Dacar, no Senegal, até o Djibuti, no leste, para conter o avanço do deserto do Saara.

Por que um deserto que avança vira problema de milhões de pessoas?

A cena é dura para quem vive no Sahel, aquela faixa semiárida logo abaixo do Saara. Terra que dava milho há 20 anos hoje só dá areia. Poço que abastecia a família seca antes do fim da estiagem. Rebanho que cabia no pasto encolhe todo ano. E quando a terra deixa de sustentar, a única saída que resta é sair: para a cidade grande, para o vizinho mais rico, para o mar do outro lado do Saara.

Esse é o cenário que a Grande Muralha Verde tenta reverter. Não como projeto ambiental abstrato, mas como resposta concreta a uma crise humana. O Sahel abriga cerca de 300 milhões de pessoas, e boa parte delas depende de agricultura de sequeiro para comer. Quando o deserto avança, é a vida dessa gente que retrocede.

A Grande Muralha Verde deixou de ser apenas uma campanha de plantio de árvores e virou uma iniciativa mais ampla de desenvolvimento rural. / Créditos: Wikipédia

O que é essa muralha viva e onde ela fica exatamente?

A Grande Muralha Verde não é uma parede de árvores em linha reta, como o nome sugere. É um mosaico de terras restauradas com florestas nativas, pastagens, plantações adaptadas ao clima seco e sistemas de captação de água da chuva. A faixa tem cerca de 8 mil quilômetros de comprimento e 15 quilômetros de largura, e atravessa o continente africano de leste a oeste.

Segundo a Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação, órgão da ONU que coordena o projeto, a iniciativa foi lançada pela União Africana em 2007 e envolve hoje 22 países africanos. Está sendo implementada em 11 países principais: Burkina Faso, Chade, Djibuti, Eritreia, Etiópia, Mali, Mauritânia, Níger, Nigéria, Senegal e Sudão.

Esse é o cenário que a Grande Muralha Verde tenta reverter. / Créditos: Wikipédia

O que essa muralha pretende entregar até 2030?

A meta oficial é grande e envolve várias frentes ao mesmo tempo. Os principais objetivos que orientam o projeto:

1
Restaurar 100 milhões de hectares Área equivalente a mais de dez vezes o estado de São Paulo, com terra degradada devolvida à produção agrícola e florestal.
2
Capturar 250 milhões de toneladas de carbono As árvores plantadas retiram carbono da atmosfera, contribuindo para o combate ao aquecimento global.
3
Criar 10 milhões de empregos verdes Postos de trabalho ligados ao reflorestamento, agricultura sustentável, gestão de água e turismo ecológico.
4
Melhorar a vida de 100 milhões de pessoas Segurança alimentar, acesso a água, renda estável e menos motivo para migração forçada por causa da seca.
5
Reduzir conflitos por recursos Água e terra escassas alimentam disputas armadas na região. Restaurar essas bases ajuda a pacificar áreas críticas.

O projeto está no rumo certo depois de tantos anos?

Aqui a resposta precisa ser honesta. A iniciativa avançou, mas bem menos do que o previsto. Entre 2007 e 2018, cerca de 20 milhões de hectares foram restaurados, o que representa aproximadamente 20% da meta de 100 milhões para 2030. Também foram criados cerca de 350 mil empregos, muito longe dos 10 milhões prometidos.

Os motivos do atraso são vários: falta de coordenação entre países participantes, financiamento que demora a chegar da mão do doador até o terreno onde a árvore será plantada, guerras e golpes que interromperam projetos em vários países da região, e a dificuldade natural de plantar em terra que não recebe chuva de forma confiável. Mesmo assim, o projeto segue de pé, e países como Senegal e Etiópia costumam ser citados como pontos de sucesso.

Dá mesmo para ver a muralha do espaço?

Dá, sim, mas com uma explicação importante. Satélites de monitoramento captam mudanças na cobertura vegetal do Sahel desde a década de 1980, e imagens comparadas mostram áreas verdes onde antes havia solo exposto. Um estudo publicado em 2024 na revista científica Remote Sensing analisou o progresso da restauração usando sensoriamento remoto por satélite e identificou tendências de esverdeamento em várias regiões cobertas pelo projeto.

O que os cientistas discutem é quanto desse verde vem realmente das árvores plantadas e quanto vem de variações naturais de chuva. Em algumas áreas do Senegal, por exemplo, pesquisadores encontraram baixa sobrevivência das mudas depois de alguns anos, o que reduz o efeito visível do céu. Ainda assim, o monitoramento por satélite permanece a ferramenta principal para acompanhar o projeto em escala continental.

Qual a diferença entre plantar árvore e restaurar a terra?

Essa é uma virada importante que o projeto sofreu nos últimos anos. A ideia inicial era plantar uma parede contínua de árvores, o que se mostrou pouco realista em terra semiárida. Hoje a estratégia envolve várias práticas combinadas:

  • Regeneração natural assistida, com agricultores locais protegendo brotos que já nascem
  • Escavação de trincheiras e bacias para captar água da chuva no solo
  • Plantio de espécies nativas resistentes à seca no lugar de árvores exóticas
  • Sistemas agroflorestais que combinam árvores com plantações de alimento
  • Cercas para proteger mudas jovens de rebanho de gado

Segundo material da ONU Meio Ambiente, a Grande Muralha Verde deixou de ser apenas uma campanha de plantio de árvores e virou uma iniciativa mais ampla de desenvolvimento rural, que envolve empreendedorismo, segurança alimentar e gestão comunitária de recursos naturais.

Como comparar essa iniciativa com outros projetos de reflorestamento?

A escala e as ambições do projeto o colocam num patamar próprio. A tabela abaixo ajuda a dimensionar o tamanho da coisa em comparação com outras iniciativas conhecidas:

Indicador Meta original Status atual
Extensão Comprimento da faixa 8.000 km de leste a oeste Em desenvolvimento contínuo
Área restaurada Terra devolvida à produção 100 milhões de hectares até 2030 Cerca de 20 milhões alcançados
Empregos gerados Trabalhadores contratados 10 milhões até 2030 Cerca de 350 mil
Captura de carbono Contribuição climática 250 milhões de toneladas Em monitoramento por satélite
Financiamento Recursos internacionais Investimento estimado bilionário Mais de 14 bilhões de dólares mobilizados

Por que essa muralha viva importa para o mundo inteiro?

Não é só a África que ganha com o projeto. Segundo material publicado pela National Geographic Education, a iniciativa usa uma abordagem integrada para restaurar diversos ecossistemas na paisagem norte-africana, devolvendo à terra a biodiversidade e a vegetação que ela já teve. O impacto disso é global: menos migração forçada, menos conflitos por recursos, menos carbono na atmosfera, mais chuva regulada na região.

Um dado que costuma passar despercebido: quando o Sahel perde vegetação, o clima do próprio Saara muda, e o vento sopra mais poeira para o Atlântico. Essa poeira chega até a Amazônia e serve de fertilizante para a floresta brasileira. Recuperar a terra na África, portanto, também mexe indiretamente com a floresta do lado de cá.

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Vale seguir apostando nesse projeto mesmo com atraso?

Vale, porque o problema que ele tenta resolver não vai esperar. A desertificação avança independentemente da vontade política dos países, das guerras que estouram na região ou da economia global entrar em crise. Enquanto o mundo debate se a meta será cumprida em 2030, o Sahel segue perdendo terra útil e ganhando migrantes forçados a atravessar o continente em busca de vida.

Voltando à cena do começo, aquela família que viu a terra deixar de produzir no Sahel: para ela, o que está em jogo não é uma meta de hectares num relatório da ONU. É a possibilidade concreta de continuar em casa, plantar o que sempre plantou, ver os filhos crescerem no mesmo lugar onde ela cresceu. A Grande Muralha Verde pode não ficar pronta no prazo previsto, pode não capturar todo o carbono prometido, pode ser criticada pelo ritmo lento. Mas cada árvore que enraiza e sobrevive é uma linha de resistência contra um deserto que não conhece fronteira nem hora de parar. E, olhando de longe pelo satélite, cada uma delas conta.