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Papagaio repete xingamentos contra vizinha no muro por 6 meses, caso vai parar na delegacia e dono paga R$ 5 mil por perturbação do sossego

Vizinha não aguenta papagaio que repete xingamentos por 6 meses.

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Quem falou foi o papagaio, mas quem responde é o dono.

Toda vez que Marlene abria a porta do quintal, o papagaio do vizinho pousava no muro e disparava a mesma frase pesada, com o nome dela no fim. Foram seis meses daquilo, gravado em vídeo pela filha, ouvido pela família toda, catalogado em áudio pela polícia. O bico repetia, mas o processo foi bater no tutor. A responsabilidade por fato do animal resolve com clareza casos assim. A história é fictícia, mas ilustra ocorrências reais registradas por delegacias de bairro pelo país.

Como um papagaio virou vizinho barulhento e ofensivo?

Marlene, professora aposentada, cuidava do jardim nos fundos há vinte e cinco anos. Bem-vinda no bairro, chá pronto para quem passasse, dessas moradoras que todo mundo cumprimenta pelo primeiro nome. Do outro lado do muro, o vizinho Reinaldo tinha um papagaio-verdadeiro adulto, chamado Zé Rico, que ficava numa gaiola grande no quintal.

Depois de uma briga por um cachorro solto, Reinaldo começou a ensinar frases ao papagaio. Não qualquer frase. Uma ofensa específica, com o nome da vizinha, dita em tom de raiva. Repetia todo dia. Semanas depois, o papagaio-verdadeiro aprendeu. E toda vez que Marlene aparecia no quintal, a ave subia no muro e disparava a linha treinada.

. O erro foi transformar a ave num escudo para ofender, como se a boca do bicho apagasse a mão que treinou a frase.

O que aconteceu quando a família da vizinha começou a gravar?

A filha de Marlene passou a filmar do celular escondido na cozinha. Dez, quinze, trinta gravações em seis meses, com data, hora e áudio nítido. A mãe começou a evitar o próprio quintal, parou de receber neta no fim de semana, teve queda no sono e procurou clínica psicológica.

Com a pasta de vídeos, ela foi à delegacia do bairro. Foi registrada ocorrência por perturbação da tranquilidade e representação por crimes contra a honra. Em paralelo, Marlene ajuizou ação cível por dano moral. O juízo fixou indenização de R$ 5 mil, considerando a repetição sistemática e o adestramento intencional como elementos agravantes.

Mas afinal, o que a lei brasileira diz sobre ato praticado por animal?

Voltando à cena do muro: quem falou foi o papagaio, mas quem responde é o dono. O Código Civil, no artigo 936, é direto: o dono do animal ressarcirá o dano por este causado, salvo se provar culpa da vítima ou força maior.

A esse dispositivo se somam os artigos 186 e 927, que obrigam quem causa dano por ato ilícito a reparar. E como o comportamento da ave foi ensinado propositalmente, o próprio tutor pode responder por crimes contra a honra no Código Penal, além de perturbação do sossego prevista no artigo 42 da Lei de Contravenções Penais quando houver barulho fora do razoável.

Quais elementos a Justiça avalia num caso de fato do animal?

Não basta o vizinho reclamar do barulho ou da ofensa. O processo precisa demonstrar autoria, repetição e dano concreto à vítima. Os pontos que mais pesam na análise são estes:

1
Titularidade do animal Comprovação de que o bicho pertence ao vizinho apontado, com testemunhas, registro veterinário ou documentação.
2
Prova do comportamento Vídeos datados, áudios contínuos e testemunhos de outros moradores captando as ofensas ou o barulho excessivo.
3
Repetição em período relevante A conduta reiterada por semanas ou meses reforça o dolo do tutor e pesa contra qualquer alegação de fato isolado.
4
Adestramento intencional Evidência de que o tutor ensinou a ofensa transforma o fato do animal em conduta pessoal com dolo direto.
5
Dano concreto à vítima Sofrimento psíquico, laudo médico, uso reduzido do próprio imóvel ou impacto no convívio familiar comprovam o abalo.

Papagaio pode ser processado no Brasil?

Voltando à gaiola do quintal: o animal em si não responde por nada. Ele não tem personalidade jurídica, não figura como réu, não é intimado. A Constituição Federal protege os animais contra crueldade no artigo 225, mas quem responde por atos deles é sempre o tutor humano.

A lógica é simples e coerente com o Código Civil: se o dono se beneficia da companhia do bicho, também assume o risco do que o bicho faz. Repassar a ofensa por bico de papagaio não afasta a responsabilidade, ao contrário, revela que o tutor procurou um caminho oblíquo para ofender alguém e continuar dizendo “não fui eu, foi o pássaro”.

Leia também: Vizinho nomeia rede Wi-Fi com acusação ofensiva contra morador do andar, caso vai parar na delegacia e Justiça fixa R$ 12 mil por dano moral.

O que muda quando comparamos o caminho de Reinaldo com o caminho legal?

A diferença entre um vizinho que discute e resolve na conversa e um tutor condenado a pagar indenização por causa do papagaio não está na criação do animal, no tempo de convivência com a vizinha ou no motivo original da briga, mas nas escolhas feitas depois do primeiro atrito. A comparação fica clara na tabela:

Etapa O que Reinaldo fez O que a lei exige
Reação à briga Depois do cachorro solto Adestrou o papagaio para ofender a vizinha Conduta dolosa
Guarda do animal Gaiola no quintal Deixou a ave livre para pousar no muro divisório Custódia responsável
Repetição em seis meses Ofensa diária Manteve o comportamento mesmo após reclamação Dolo continuado
Caminho legítimo Diante do conflito Não procurou mediação nem CEJUSC Vias formais previstas
Desfecho judicial Delegacia e ação cível Condenado a pagar cinco mil de indenização Responsabilidade objetiva

O que se aprende com a história de Reinaldo e do papagaio da esquina?

A criação de um papagaio não era o problema, e a discussão original com a vizinha por conta do cachorro solto era uma queixa legítima, dessas que qualquer bairro tem. O erro foi transformar a ave num escudo para ofender, como se a boca do bicho apagasse a mão que treinou a frase.

Quem realmente quer resolver um problema com vizinho envolvendo animais precisa seguir esse roteiro: registrar formalmente a queixa em ata da associação de moradores ou no síndico, procurar mediação na câmara de conflitos ou no CEJUSC do tribunal do estado, gravar em vídeo datado qualquer reincidência que interfira no uso do próprio imóvel, procurar delegacia para registrar boletim quando houver ofensa ou perturbação continuada, e contratar advogado para avaliar ação cível de reparação. Tutor que já se enrolou deve interromper o comportamento imediatamente e procurar orientação jurídica antes que a prova se consolide.