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Frase de Viktor Frankl do dia: “Quando não podemos mudar uma situação, somos desafiados a mudar a nós mesmos”; lições de resiliência sobre como a dor molda o caráter e como devemos buscar sentido na adversidade, extraídas de um grande psiquiatra
Sobre sofrimento, resiliência e a necessidade de mudar a nós mesmos quando não podemos transformar uma situação.
Todo mundo vive um momento em que bate no muro. A doença que não escolhe hora, o luto que não aceita conselho, a demissão que veio no pior mês, o casamento que acabou sem culpado. Nessas horas, a frase de Viktor Frankl volta a circular, e não é por acaso: ela foi escrita por alguém que viveu o pior tipo de muro que um ser humano pode enfrentar.
Por que tanta gente se agarra a essa frase quando a vida aperta?
A cena é sempre parecida. A pessoa chora tudo o que tem para chorar, esgota o que dava para reclamar, e chega a um ponto em que a única coisa restante é a própria vida seguindo em frente. Ali, no meio do desespero, uma frase curta explica em uma linha algo que a mente não conseguia formular sozinha. É esse o efeito que a frase de Frankl produz há mais de 70 anos.
Ela não promete que a dor vai passar. Não diz que a situação vai melhorar. Não sugere pensamento positivo. Faz algo mais radical: reposiciona a pergunta. Quando o mundo fecha as portas, a única saída passa por dentro de quem está do lado de cá. É desconfortável, é exigente, e é justamente por isso que a frase pega tanto.

Quem foi Viktor Frankl e por que ele tinha autoridade para dizer isso?
Viktor Frankl foi um psiquiatra e neurologista austríaco, nascido em Viena em 1905. Não era um pensador que teorizava sobre sofrimento de gabinete: ele viveu tudo isso na pele, em quatro campos de concentração nazistas, entre 1942 e 1945, incluindo Auschwitz. Perdeu o pai, a mãe, o irmão e a esposa nos campos.
Segundo a Britannica, Frankl fundou a logoterapia, que é considerada a “terceira escola” da psicoterapia vienense, depois das abordagens de Sigmund Freud e Alfred Adler. Sua tese central: a motivação principal do ser humano é encontrar sentido na vida, e a psicoterapia deveria ajudar nessa busca. A frase que abriu esse texto vem do livro Em busca de sentido, publicado em 1946, um ano depois da libertação dos campos.
O que essa frase realmente propõe além do óbvio?
À primeira vista parece uma versão elegante de “aceite o que não pode mudar”. Não é isso. A ideia é bem mais profunda, e desdobrar seus pontos ajuda a entender:
Como a ciência entende essa ideia hoje?
A logoterapia não ficou parada no livro. Ela virou objeto de pesquisa em várias universidades brasileiras e do mundo. Um artigo publicado em Estudos de Psicologia da PUC-Campinas, na base SciELO, analisa como o pensamento de Frankl contribuiu para o próprio conceito moderno de resiliência, entendida como a capacidade humana de responder a adversidades sem se destruir no processo.
Outro estudo, publicado na revista Psicologia USF, também no SciELO, aborda a logoterapia e o sentido do sofrimento, destacando a experiência de Frankl nos campos de concentração como base para a ideia de que a liberdade máxima do ser humano está em escolher a atitude diante das situações-limite. Não é filosofia solta, é pesquisa acadêmica séria.
Como isso se aplica a situações comuns da vida moderna?
A maioria das pessoas não vai enfrentar um campo de concentração, felizmente. Mas todo mundo enfrenta situações menores em que não dá para mudar o que está fora. Alguns exemplos concretos onde a lógica de Frankl funciona:
- Diagnóstico de doença crônica que não vai embora, mas exige reorganizar hábitos e prioridades
- Filho adulto que faz escolhas de vida que a família não aprova, mas cabem só a ele
- Chefe difícil que não vai mudar, mas você pode mudar como reage a cada provocação
- Traição no relacionamento que não se apaga, mas pede uma decisão sobre continuar ou não
- Trabalho que não é dos sonhos, mas paga contas e pode ganhar um sentido diferente
Em nenhum desses casos existe fórmula pronta. O que a frase propõe é um deslocamento do olhar: da situação, que talvez seja imutável, para a pessoa, que sempre tem alguma margem de escolha, mesmo que pequena.
Que diferença faz enxergar sentido na dor em vez de fugir dela?
Frankl fazia uma distinção que ajuda muito. Existe o sofrimento inevitável, aquele que vem da própria condição de estar vivo (perdas, doenças, morte, frustrações reais), e existe o sofrimento evitável, gerado pela nossa própria falta de aceitação, teimosia ou fuga. Confundir os dois multiplica o desespero. Reconhecer a diferença já reduz muito a carga.
A tabela abaixo mostra como duas posturas diante da mesma dor produzem resultados bem diferentes ao longo do tempo:
| Situação | Postura de negação | Postura de sentido |
|---|---|---|
| Luto por perda Morte de alguém amado | Fuga em trabalho, bebida ou distração constante | Honrar a memória em atitudes diárias |
| Doença crônica Diagnóstico definitivo | Raiva prolongada, revolta que consome energia | Reorganizar a vida em torno do que ainda é possível |
| Fim de relacionamento Separação inesperada | Esperar o outro voltar ou culpar-se sem parar | Aprender o que a experiência ensinou sobre si |
| Fracasso profissional Demissão ou negócio falido | Identidade abalada, comparação constante com outros | Reconhecer valor além do resultado |
| Injustiça sofrida Traição ou abuso | Ressentimento crônico que envenena o presente | Transformar a dor em consciência e limite |
Existe alguma leitura equivocada da frase que faz mal?
Existe, e vale sinalizar. A frase de Frankl é frequentemente distorcida para virar cobrança contra quem está sofrendo. “Você não muda porque não quer”, “É só mudar a cabeça”, “Se ele conseguiu num campo de concentração, você consegue no seu problema”. Isso é uso errado. Frankl nunca minimizou a dor de ninguém, e a mensagem dele não serve como vara para bater em quem está em crise.
A frase é convite para si mesmo, não julgamento para o próximo. Quando alguém está passando por um momento pesado, o papel dos que estão em volta é escutar, acompanhar, ser presença. Ideias como as de Frankl podem entrar quando a própria pessoa estiver em condições de refletir sobre a experiência, quase sempre com apoio profissional adequado. Isso não substitui psicoterapia, tratamento médico ou qualquer outro suporte quando o sofrimento passa do ponto que dá para carregar sozinho.
Vale mesmo carregar essa frase pela vida?
Vale, principalmente por causa da origem dela. A frase não veio de alguém sentado em cadeira confortável escrevendo sobre a dor dos outros. Veio de um homem que sobreviveu ao pior extermínio da história moderna, perdeu a família inteira e voltou para casa sem quase nada, exceto os cadernos de anotação que mantivera escondidos durante anos nos campos.
Voltando à cena do começo, aquela hora em que a vida bate no muro e não parece haver saída: a proposta de Frankl não é fugir do muro nem fingir que ele não existe. É reconhecer o muro, respeitá-lo, e olhar para o único terreno que ainda pertence à pessoa. Isso não conserta o mundo lá fora, não devolve o que foi perdido, não apaga o sofrimento. Mas devolve algo que muitas vezes parecia ter sumido junto com a situação: a certeza de que ainda existe alguma escolha, ainda existe alguma direção, ainda existe alguém dentro daquele corpo capaz de dar um próximo passo. E foi essa escolha, dia após dia, que sustentou Frankl e milhares de outros no lugar mais improvável do mundo para se sustentar em pé.