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A vila onde o mar invade as ruas de propósito para limpar: o segredo colonial é o mesmo há mais de três séculos e guarda o único fiorde tropical do país

Onde o mar encontra as ruas.

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O sistema natural de limpeza opera há mais de três séculos sem manutenção. / Imagem ilustrativa

Em Paraty, no litoral sul do Rio de Janeiro, o mar sobe pelo calçamento de pedra do centro histórico e escorre entre os casarões brancos de esquadrias coloridas. Não é falha de drenagem, é projeto colonial. A vila foi desenhada no século XVII para que a maré alta lavasse as ruas por dentro, e o resultado virou uma das paisagens urbanas mais raras do planeta.

Por que a maré entra pelas ruas de Paraty?

O calçamento irregular do centro histórico, conhecido como pé de moleque, foi assentado com desnível intencional. Nas fases de lua cheia e lua nova, quando a atração gravitacional puxa o Atlântico com mais força, a água atravessa as vielas por gravidade e recua horas depois, arrastando areia, folhas e detritos.

O sistema natural de limpeza opera há mais de três séculos sem manutenção. Quem chega no momento certo encontra uma fina lâmina d’água refletindo os lampiões e as fachadas caiadas, cena que rende fotografias e explica boa parte da fama do destino.

Uma das melhores cidades do Rio de Janeiro com charme colonial e natureza preservada se torna alvo de turistas
Viva o encanto de Paraty RJ, joia colonial cercada por mata atlântica e mar cristalino, onde história e natureza inspiram sonhos eternos. // Créditos: depositphotos.com / xura

O primeiro Patrimônio Mundial Misto do Brasil

Em julho de 2019, durante a 43ª reunião do Comitê do Patrimônio Mundial em Baku, no Azerbaijão, Paraty e Ilha Grande foram inscritas na Lista do Patrimônio Mundial da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO). Segundo o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), o conjunto se tornou o primeiro sítio brasileiro na categoria mista, que reconhece ao mesmo tempo valores culturais e naturais.

A área total do bem chega a 148.831 hectares e envolve territórios de oito municípios do Rio de Janeiro e de São Paulo. O sítio abrange o Parque Nacional da Serra da Bocaina, o Parque Estadual da Ilha Grande, a Reserva Biológica Estadual da Praia do Sul e a Área de Proteção Ambiental de Cairuçu. Cerca de 85% da cobertura vegetal nativa está preservada, formando o segundo maior remanescente de Mata Atlântica do país.

Saco do Mamanguá: o braço de mar chamado de único fiorde tropical do mundo

A cerca de 25 km do centro histórico está uma das formações costeiras mais incomuns do Brasil. O Saco do Mamanguá avança oito km continente adentro, com dois km de largura em alguns trechos, entre paredões da Serra do Mar cobertos de mata. A paisagem lembra os fiordes escandinavos, ainda que a origem geológica seja distinta: fiordes clássicos foram esculpidos por geleiras, o Mamanguá é um estuário afogado por elevação do mar.

Guias de turismo e órgãos ambientais o classificam como o único fiorde tropical do mundo, título que ajudou a colocar a região no mapa internacional. No interior do braço de mar, há 33 praias, 8 comunidades caiçaras tradicionais e a trilha do Pico do Pão de Açúcar do Mamanguá, que chega aos 438 metros de altitude e entrega vista de 360 graus sobre a paisagem inteira.

A única cidade da América Latina onde o mar lava as ruas e UNESCO reconheceu como patrimônio misto
Paraty, RJ, oferece roteiros práticos de barco às ilhas, trilhas na Serra da Bocaina e gastronomia local acessível a todos. / Imagem ilustrativa

Do ouro esquecido à Cidade Criativa da Gastronomia

Fundada no século XVII, Paraty foi o principal porto de escoamento do ouro extraído em Minas Gerais. A riqueza atravessava a serra pelo Caminho do Ouro até chegar aos navios ancorados na baía. Quando novas rotas encurtaram o trajeto para o Rio de Janeiro, a cidade perdeu importância econômica e ficou isolada por quase dois séculos.

Esse esquecimento salvou o conjunto arquitetônico. Foi só nos anos 1970, com a abertura da rodovia Rio-Santos, que Paraty voltou a atrair visitantes, agora encantados com um núcleo colonial praticamente intacto. Em 2017, a UNESCO incluiu a cidade na Rede de Cidades Criativas na categoria gastronomia, reconhecendo a cachaça artesanal e a cozinha caiçara como marcas culturais.

Leia também: A cidade histórica de Minas que preserva as ladeiras de Vila Rica e foi o 1º patrimônio brasileiro reconhecido pela UNESCO e recebe 1,5 milhão de visitantes por ano.

Os números que fazem de Paraty um destino singular

Poucos endereços brasileiros reúnem tantos títulos e reservas em um mesmo território. O sítio protegido pela UNESCO combina cinco áreas de conservação, centenas de ilhas e uma das maiores concentrações de biodiversidade do país.

  • 148.831 hectares: área núcleo do Sítio Misto reconhecido pela UNESCO em 2019.
  • 407 mil hectares: área de entorno do bem, com 187 ilhas cobertas de vegetação nativa.
  • 85%: cobertura de mata nativa preservada dentro do sítio.
  • 8 km: extensão do Saco do Mamanguá, com 33 praias e 8 comunidades caiçaras.
  • 438 metros: altitude do Pico do Pão de Açúcar do Mamanguá, mirante natural sobre o braço de mar.

Espere a maré subir para conhecer Paraty

Paraty guarda em poucos quilômetros um centro histórico que dialoga com o Atlântico, um braço de mar com fama internacional e um dos maiores conjuntos preservados de Mata Atlântica do país. É um destino onde história colonial, natureza e engenharia urbana centenária se encontram na mesma vila.

Você precisa cruzar a serra em direção à Costa Verde e caminhar por Paraty no momento em que a maré sobe, o mar toma o pé de moleque e a cidade parece flutuar sobre o próprio reflexo.