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O México reintroduziu 47 bisões em 2025, depois de mais de 100 anos: apenas alguns meses depois, o ecossistema está se recuperando por conta própria
Bisões voltam ao norte do México e desencadeiam uma recuperação em cascata
Em agosto de 2025, os três primeiros bisões americanos pisaram novamente no solo de Cuatro Ciénegas, no estado mexicano de Coahuila, depois de mais de um século sem qualquer registro da espécie naquele território. Em dezembro do mesmo ano, mais 44 animais foram liberados na mesma reserva, completando um total de 47 indivíduos reintroduzidos em uma área protegida de mais de 3.700 hectares chamada El Santuario. Poucos meses depois, o ecossistema ao redor começou a responder de uma forma que os biólogos descrevem como restauração em cascata: pumas, linces e outras espécies que haviam desaparecido da região voltaram por conta própria, atraídos pela reativação de dinâmicas naturais que o bisão americano desencadeia apenas por existir no território.
Por que o bisão americano desapareceu do México e como voltou?
O bisão americano foi exterminado do norte do México durante o século XIX, principalmente pela caça intensiva e pela ocupação agrícola que transformou os pastizais nativos em terra de cultivo e pecuária. Durante décadas, a espécie foi considerada extinta na região, e apenas no final dos anos 1990 pesquisadores reconheceram formalmente que o norte do México havia feito parte da distribuição histórica original do animal.
O caminho de volta começou antes de Cuatro Ciénegas. Em 2009, o Parque Nacional Wind Cave, nos Estados Unidos, transferiu 23 bisões para o Rancho El Uno, em Janos, no estado de Chihuahua, em parceria com a The Nature Conservancy México. Essa população cresceu para mais de 600 animais distribuídos em três grupos ao longo de quase duas décadas de manejo cuidadoso. O sucesso em Janos abriu caminho para a expansão do modelo para outros territórios com condições adequadas, e Cuatro Ciénegas foi identificada como um dos destinos prioritários pela Fundação Pro Cuatrociénegas, em colaboração com o Fundo Mexicano para a Conservação da Natureza e a SEMARNAT.
O que torna Cuatro Ciénegas um local especialmente significativo para essa reintrodução?
Cuatro Ciénegas é reconhecida internacionalmente como um dos ecossistemas mais singulares do planeta. Localizada em um vale fechado no meio do deserto de Chihuahua, em Coahuila, ela abriga um sistema de lagoas, rios e pântanos de origem marinha ancestral com uma concentração extraordinária de espécies endêmicas, organismos que não existem em nenhum outro lugar do mundo. A área foi classificada como Área de Proteção de Recursos Naturais e é estudada por cientistas de todo o mundo por suas estromatolitas, estruturas microbianas que representam formas de vida entre as mais antigas do planeta.
Reintroduzir o bisão americano nesse contexto não é apenas uma ação de conservação de uma espécie. É uma aposta na capacidade do animal de reativar processos ecológicos que a ausência de grandes herbívoros nativos havia interrompido. O pastejo dos bisões, seus movimentos no solo e o transporte de sementes e nutrientes que realizam ao se deslocar criam condições que favorecem a diversidade vegetal e, por consequência, a fauna que depende dessa vegetação.

Como o retorno dos bisões desencadeou a volta de outras espécies?
A ecologia descreve esse fenômeno como efeito trófico em cascata: a reintrodução de uma espécie-chave em um ecossistema desencadeia uma série de respostas que se propagam pela cadeia alimentar em direções que frequentemente surpreendem até os próprios pesquisadores. No caso de Cuatro Ciénegas, a presença dos bisões americanos em poucos meses foi suficiente para atrair de volta pumas e linces que haviam desaparecido da região.
O mecanismo é indireto mas lógico. Os bisões alteram a vegetação pelo pastejo seletivo, o que cria mosaicos de habitat com diferentes alturas e densidades de cobertura vegetal. Esses mosaicos beneficiam pequenos mamíferos, que por sua vez atraem predadores. Ao mesmo tempo, a presença de grandes herbívoros sinaliza para os predadores de topo que a cadeia alimentar foi reconstituída o suficiente para sustentá-los. Os resultados observados em Cuatro Ciénegas em apenas alguns meses incluem:
- Retorno de pumas a áreas onde não eram registrados há anos, possivelmente atraídos tanto pelos bisões quanto pela recuperação de presas menores que os precederam.
- Reaparecimento de linces, predadores de médio porte que dependem de paisagens com estrutura de vegetação heterogênea, exatamente o que o pastejo dos bisões começa a criar.
- Reativação de processos de compactação e revolvimento do solo que favorecem a germinação de espécies vegetais nativas que haviam perdido espaço para gramíneas exóticas.
- Aumento de atividade de aves e pequenos mamíferos nas áreas próximas à manada, indicando recuperação de habitat em múltiplos níveis tróficos simultaneamente.
O que a ciência sabe sobre o papel ecológico do bisão americano nos pastizais?
O bisão americano é classificado pelos ecólogos como espécie-engenheira de ecossistema, um organismo cuja presença modifica o ambiente de forma tão significativa que cria condições para a existência de outras espécies que não prosperariam sem ele. Nos pastizais do México e dos Estados Unidos, esse papel se manifesta de várias formas simultâneas.
O pastejo intenso em determinadas áreas e a rotação natural do movimento da manada criam heterogeneidade de vegetação que aumenta a diversidade de aves e insetos. Os chafurdamentos, comportamento em que os bisões se rolam no solo, criam depressões rasas chamadas de wallows que acumulam água da chuva e formam microhabitats úmidos críticos para anfíbios e invertebrados em regiões áridas como Coahuila. Os excrementos da manada fertilizam o solo e transportam sementes de plantas nativas por distâncias consideráveis. Nenhum animal doméstico, nem o gado bovino que substituiu os bisões nesses territórios, reproduz esse conjunto de funções ecológicas com a mesma abrangência.
O projeto tem perspectivas de expansão para outras regiões do México?
O modelo desenvolvido em Janos, Chihuahua, e agora replicado em Cuatro Ciénegas demonstrou que a reintrodução do bisão americano é tecnicamente viável no norte do México e ecologicamente benéfica em prazos relativamente curtos. Gerardo Ruiz Smith, diretor da Fundação Pro Cuatrociénegas, afirmou que o objetivo não é apenas repopular uma espécie, mas usar o bisão como ferramenta de recuperação mais ampla, incluindo restauração de humedais, regeneração de solos por práticas agroecológicas e desenvolvimento de modelos produtivos sustentáveis para as comunidades da região.
A expansão para o estado de Sonora já foi anunciada como próximo passo dentro das iniciativas de rewilding em curso no norte do México. A população de Janos, que cresceu de 23 para mais de 600 animais em menos de duas décadas, fornece o estoque genético e o modelo de manejo para esses novos projetos. O que começou com 23 bisões vindos de um parque nacional americano em 2009 se tornou uma rede de populações em expansão que está redesenhando a ecologia dos pastizais do norte mexicano de uma forma que poucos projetos de conservação conseguiram reproduzir em escala e velocidade comparáveis.

Uma espécie devolvida ao território que era dela e o ecossistema que respondeu sem ser convocado
O retorno dos 47 bisões americanos a Cuatro Ciénegas não exigiu que pumas e linces fossem transportados de volta. Não exigiu plantio de vegetação específica nem intervenção direta nos processos do solo. Exigiu apenas que a espécie que havia sido retirada do sistema fosse devolvida a ele. O ecossistema fez o resto por conta própria, em meses, depois de mais de um século de ausência.
Esse resultado confirma o que a ecologia de restauração vem acumulando como evidência em projetos ao redor do mundo: ecossistemas têm memória funcional. Quando as condições certas são restabelecidas, processos que pareciam extintos se reativam com uma velocidade que surpreende até quem os esperava. A restauração ecológica de Cuatro Ciénegas está apenas começando, mas o que aconteceu nos primeiros meses já é suficiente para demonstrar que devolver ao território o que pertencia a ele é, frequentemente, a intervenção mais poderosa disponível.