Brasil
Morador volta para casa depois de 8 anos e descobre que seu bairro virou uma “cidade fantasma”
Afundamento de solo em Maceió transformou bairros em áreas fantasmas; saiba o impacto para moradores e o que fazer em caso de rachaduras
Há oito anos, uma rachadura do chão ao teto no quarto de sua casa foi o primeiro sinal de que José Jânio Profício da Silva, trabalhador da construção civil de 49 anos, teria de deixar o Mutange, em Maceió. No dia anterior, o chão havia tremido enquanto ele almoçava. “Quando começou a amanhecer, vi a luz entrando pelas frestas”, contou Jânio ao El País, em janeiro de 2020.
O que viveu Jânio se repetiu, em variações distintas, por bairros inteiros de Maceió. Rachaduras, afundamentos e crateras nas ruas avançaram pelo Pinheiro, Mutange, Bebedouro, Bom Parto e parte do Farol. O Serviço Geológico do Brasil apontou décadas de extração de sal-gema como causa principal da instabilidade do solo.
O que ficou depois da saída?
Quem permaneceu nas áreas afetadas por mais tempo viu os bairros perderem forma. A aposentada Raquel Coelho de Barros, moradora do Pinheiro há mais de quatro décadas, contava nos dedos os vizinhos que ainda não tinham ido embora. Ela vivia com a mãe de 96 anos, diagnosticada com Alzheimer. “Se você andar por aqui à noite, vai achar que é um bairro fantasma. Não tem mais ninguém”, disse ao El País.
Em prédios abandonados, ex-moradores deixaram frases nas paredes: “aqui morava uma família” e “o sonho da casa própria virou meu maior pesadelo”, segundo reportagem de O Globo de dezembro de 2023. A conselheira Fernanda Marinela, do Conselho Nacional de Justiça, levou os filhos para conhecer a região e relatou ao CNJ: “Parece uma cidade fantasma. Meu marido foi criado no Pinheiro. O que virou isso? É muito triste.”
Impactos da crise geológica em Maceió
Entenda a magnitude do desastre que transformou bairros inteiros em áreas fantasmas
A saída dos bairros afetados não encerrou a instabilidade para muitas famílias. Jânio e os seus voltaram para o Mutange em setembro de 2018, após o período de chuvas, mas novos tremores forçaram uma terceira mudança em três anos. O novo endereço ficava longe demais do trabalho. “Não deu pra manter o trabalho porque era muito longe”, disse. O deslocamento, que antes levava até 50 minutos, passou a consumir uma hora e meia.
Demolições, compensações e disputas que continuam
As primeiras ordens de evacuação foram emitidas em maio de 2019 para Pinheiro, Mutange e Bebedouro, com expansão posterior para parte de Bom Parto e Farol. Em 2023, mais de 14 mil imóveis haviam sido desocupados, com cerca de 60 mil pessoas afetadas. O colapso de uma mina próxima à Lagoa Mundaú agravou o temor e gerou novas determinações de retirada.
Em agosto de 2026, os dados indicavam que aproximadamente 78% dos imóveis incluídos na área afetada já haviam sido demolidos. A Braskem informou ter apresentado 19.205 propostas de compensação financeira e apoio à realocação, das quais 19.140 foram aceitas e 19.132, pagas. Ainda assim, moradores de áreas vizinhas, como os Flexais, seguem buscando inclusão nos programas, alegando isolamento, perda de serviços, desvalorização imobiliária e impacto econômico provocado pelo esvaziamento do entorno.
O que fazer diante de rachaduras em imóveis?
Fotografar e filmar os danos com data e registro da evolução das rachaduras ao longo do tempo.
Solicitar vistoria da Defesa Civil e guardar o número do protocolo de atendimento.
Evitar reformas estruturais sem laudo técnico, que podem ocultar ou ampliar os riscos existentes.
Reunir documentos que comprovem residência e prejuízos, como escritura, contratos e recibos.
Acionar a Defensoria Pública ou o Ministério Público em casos de risco, recusa de atendimento ou impasse sobre indenização e realocação.
Em Maceió, buscar informações sobre o Programa de Compensação Financeira e Apoio à Realocação vinculado ao caso Braskem.
A crise geológica de Maceió não desalojou apenas famílias. Desmontou bairros inteiros e, para muitos dos que saíram, a mudança forçada ainda não chegou ao fim.