Mundo Corporativo
Falta de regulação expõe setor funerário britânico
Condenação de agente funerário britânico reabre debate sobre ausência de regulação estatutária no setor; Vinícius Chaves de Mello, CEO do Grupo Riopae, do Crematório Metropolitano São João Batista, analisa a norma EN 15017:2019 e a governança funerária no Brasil.
Um caso recente no Reino Unido reabriu o debate sobre a regulação do setor funerário britânico. Um diretor de funerária no norte da Inglaterra foi condenado a 20 anos de prisão após armazenar de forma inadequada corpos que deveriam ter sido cremados, misturar cinzas de diferentes falecidos e desviar recursos de famílias enlutadas, de acordo com reportagem da BBC. O caso, julgado no tribunal de Hull, expôs falhas que se estenderam por mais de uma década sem serem detectadas.
O episódio reforçou uma fragilidade estrutural já mapeada pelo Parlamento britânico: segundo pesquisa do Parlamento, não existe regime regulatório específico para diretores de funerária na Inglaterra, no País de Gales e na Irlanda do Norte, diferentemente da Escócia, que já adota um código estatutário para o setor. Diante da repercussão, o governo britânico passou a estudar uma regulação mais ampla, alinhada a padrões internacionais de segurança, governança e auditoria.
Para Vinícius Chaves de Mello, CEO do Grupo Riopae, que administra a Riopae e o Crematório Metropolitano São João Batista, o episódio britânico ilustra um padrão recorrente. “Grandes escândalos, raramente, começam grandes. Normalmente, antes do evento que chega à imprensa, existiram pequenos desvios, quase-incidentes, reclamações, registros incompletos, falhas de supervisão ou procedimentos que foram sendo tolerados. O escândalo é, frequentemente, apenas o momento em que uma fragilidade sistêmica se torna visível”, avalia.
De acordo com o executivo, esse tipo de caso reforça a importância de referenciais internacionais de qualidade, como a norma europeia EN 15017:2019. Ele faz uma ressalva técnica sobre o documento: “A EN 15017:2019 não é uma norma exclusivamente destinada à operação técnica de crematórios. Trata-se de um padrão europeu para serviços funerários, aplicável a profissionais, empresas funerárias e serviços relacionados prestados também em cemitérios e crematórios”, explica, detalhando que o escopo da norma alcança qualificação profissional, transporte, instalações, aconselhamento às famílias e cuidados com o falecido.
Confiança depende de rastreabilidade
Chaves de Mello ressalta que o setor funerário lida com uma assimetria particular entre instituição e família. “A família, normalmente, não acompanha a conservação do corpo, o transporte interno, a preparação, a entrada no crematório ou determinadas etapas do sepultamento. Ela precisa confiar que aquilo que não consegue ver está sendo realizado corretamente”, afirma.
Na sua visão, transparência nesse contexto significa manter rastreabilidade suficiente para responder quem recebeu o falecido, quem confirmou sua identidade, quem o transportou e qual foi o destino final dos restos mortais ou das cinzas.
O executivo também diferencia instituições que seguem apenas o mínimo legal daquelas que adotam padrões internacionais de forma proativa. “A instituição que trabalha apenas pelo mínimo legal pergunta: ‘O que a lei me obriga a fazer?’ Uma organização orientada pela excelência pergunta: ‘Qual é o melhor padrão disponível para proteger a família, o falecido, os nossos colaboradores e a própria instituição?’”, compara, destacando que essa mudança de perspectiva estimula documentação, treinamento, auditoria e melhoria contínua.
No Grupo Riopae, segundo o CEO, referências internacionais funcionam como instrumento de benchmarking, sempre compatibilizadas com a legislação brasileira e as exigências sanitárias, ambientais e administrativas do setor. “A nossa visão é que o cuidado funerário deve possuir rastreabilidade do início ao fim”, diz, mencionando a identificação segura do falecido, a documentação das autorizações e a definição clara de responsabilidades como pilares dessa gestão.
Para o executivo, o caso britânico traz um alerta direto ao Brasil. “A grande lição para o Brasil é não esperar o escândalo para construir o controle. Uma organização madura trabalha com prevenção, auditoria, indicadores e registro de quase-incidentes”, pondera. De acordo com ele, o país tem operadores qualificados, mas o desafio é transformar boas práticas isoladas em uma cultura setorial de padrões elevados, unindo legislação, fiscalização e formação profissional em uma cadeia única de responsabilidade voltada à proteção das famílias.
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