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A cidade de 1776 que parou no tempo: onde sinos tocam 27 sons que moradores entendem, um trem de 1881 ainda cruza a serra e 700 imóveis históricos a fazem uma das mais antigas ainda ativas das Américas
De 1776 aos dias atuais.
Em São João del-Rei, no Campo das Vertentes mineiro, os sinos das igrejas ainda anunciam missas, festas e mortes numa linguagem que só os moradores decifram. A cidade guarda cerca de 700 imóveis históricos e uma orquestra fundada em 1776, considerada uma das mais antigas em atividade contínua das Américas.
Uma vila do ouro que virou capital secreta da Inconfidência
O arraial nasceu no início do século XVIII, quando paulistas liderados por Tomé Portes del Rei encontraram ouro nos cascalhos do rio das Mortes. Em 8 de julho de 1713, o povoado foi elevado a vila e batizado em homenagem a Dom João V, rei de Portugal, segundo registros do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Décadas depois, a vila virou peça central da Inconfidência Mineira: os conjurados chegaram a escolhê-la como futura capital de Minas Gerais, caso o movimento vingasse. Traição e prisões desfizeram o plano em 1789, mas a cidade seguiu prosperando pelo comércio, o que explica por que seu casario não sumiu com o fim do ouro.

Por que os sinos de São João del-Rei viraram patrimônio nacional?
Porque falam. Segundo o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), o Toque dos Sinos em Minas Gerais foi registrado como patrimônio imaterial do Brasil em 2009, tendo São João del-Rei como referência principal ao lado de Ouro Preto, Mariana, Congonhas, Diamantina, Sabará, Serro, Catas Altas e Tiradentes.
Cada repique tem nome próprio, criado ainda no período colonial e passado de sineiro em sineiro pela oralidade. O sino pequeno pergunta, o médio responde, o grande arremata. Nos funerais, o toque muda conforme o falecido seja homem, mulher ou criança, uma espécie de rádio comunitário que precede o telefone.
O casario tombado em 1938 e a igreja de Aleijadinho
O IPHAN tombou o conjunto arquitetônico e urbanístico de São João del-Rei em 1938, e a delimitação da área histórica ficou pronta em 1947, alcançando cerca de 700 imóveis, entre igrejas, capelas, pontes e casarões. A informação está registrada na ficha oficial do Iphan para o município.
A joia do conjunto é a Igreja de São Francisco de Assis, iniciada em 1774, com projeto atribuído a Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, e modificações de Francisco de Lima Cerqueira. Fachada em curva, palmeiras imperiais em frente e talha rococó lá dentro. O templo está fechado para restauro do Novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) Cidades Históricas, previsto para durar até 18 meses.
O que fazer em São João del-Rei em um fim de semana?
A cidade cabe a pé, e as ruas de pedra levam de museu a mirante em minutos. Alguns programas fogem do roteiro óbvio das cidades barrocas.
- Maria Fumaça até Tiradentes: 12 km em locomotiva de 1881, uma das poucas do mundo ainda em circulação em bitola de 76 cm, operada pela VLI.
- Museu Regional de São João del-Rei: acervo de arte sacra e mobiliário colonial no antigo sobrado dos Neves, ligado ao Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM).
- Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar: construção iniciada em 1721, com altares dourados e um dos conjuntos barrocos mais opulentos das Vertentes.
- Museu Ferroviário e a Rotunda: galpão circular com 25 linhas convergindo para um girador manual, no complexo onde a EFOM tinha sede.
- Concertos da Orquestra Lira Sanjoanense e da Ribeiro Bastos: apresentações regulares nas igrejas históricas, com repertório barroco preservado desde o século XVIII.
- Ponte da Cadeia: passagem de pedra sobre o córrego do Lenheiro, cartão-postal que separa o núcleo histórico do bairro do Bonfim.
Onde comer bem no centro histórico?
A gastronomia sanjoanense mistura receita de tropeiro com invenção de boteco. Os endereços tradicionais ficam a poucas quadras da Praça Frei Orlando.
- Bolinho de feijão: massa crocante e recheio cremoso, servido em quase todo bar do centro como aperitivo local.
- Pastel de angu: massa de fubá recheada com carne, acompanhada de couve refogada, tradição das feiras da região.
- Frango com quiabo: prato do domingo mineiro, servido com angu e arroz em restaurantes de comida caseira.
- Torresmo e linguiça artesanal: presentes em qualquer mesa de tira-gosto, herança das cozinhas de fazenda das Vertentes.

Como é o clima ao longo do ano na cidade?
São João del-Rei tem inverno seco e ameno, ideal para caminhadas e visitas às igrejas. No verão, chove com força, mas as manhãs costumam abrir para o passeio de trem.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar a São João del-Rei
A cidade fica a 185 km de Belo Horizonte pela BR-040 e BR-265, cerca de três horas de carro. Do Rio de Janeiro, são aproximadamente 330 km pela BR-040 até Barbacena e depois pela BR-265. Há voos regionais para o Aeroporto Prefeito Octávio de Almeida Neves e linhas rodoviárias diretas partindo das duas capitais.
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Suba a serra e escute a cidade
São João del-Rei é rara porque não se limita a exibir o passado: continua tocando, badalando e fumaçando em locomotivas que nasceram no Império. Poucas cidades do país oferecem essa combinação de acervo barroco vivo, música centenária e ferrovia em uso.
Você precisa conhecer São João del-Rei e ficar em silêncio por alguns minutos numa praça do centro, só para entender o que os sinos estão dizendo.