Entretenimento
Adriana e Pedro provam que ainda há espaço para o romance nas novelas das nove
Letícia Colin e Chay Suede transformam cumplicidade, desejo e delicadeza no grande trunfo de Quem Ama Cuida e mostram que um casal não precisa viver em guerra para conquistar o público
Existe algo especialmente difícil em fazer um casal protagonista funcionar em uma novela: convencer o público de que duas pessoas realmente desejam estar juntas. O roteiro pode criar encontros, escrever declarações apaixonadas e multiplicar obstáculos, mas química não se fabrica apenas no papel. Em Quem Ama Cuida, Letícia Colin e Chay Suede conseguem justamente preencher esse espaço que existe entre o texto e a interpretação. Como Adriana e Pedro, os dois construíram um romance que se tornou um dos grandes acertos da novela das nove.
E talvez o aspecto mais interessante seja justamente a maneira como essa química aparece. Adriana e Pedro não dependem de discussões explosivas, provocações permanentes ou daquela dinâmica de amor e ódio tantas vezes utilizada para movimentar casais de folhetim. A atração existe, mas vem acompanhada principalmente de acolhimento, cumplicidade e admiração.
A própria origem do relacionamento explica muito disso. Segundo a apresentação oficial da Globo, os dois se conhecem após uma grande enchente em São Paulo, quando Adriana acaba de perder o marido, a casa e o trabalho. Pedro atua como advogado voluntário no abrigo e se encanta pela força daquela mulher devastada pela tragédia. Adriana, por sua vez, encontra nele acolhimento num momento em que sua vida parece ter desmoronado.
O ponto de partida poderia facilmente produzir um romance melodramático e apressado. A escolha foi outra. Letícia Colin explicou antes da estreia que o desafio de seu reencontro profissional com Chay Suede — os dois já haviam formado o casal Rosa e Ícaro em Segundo Sol, de 2018 — era justamente construir uma relação diferente. Adriana estava de luto e Pedro se aproximaria dela cautelosamente. A conexão surgiria também das características que compartilham: ambos olham para o outro, sabem escutar e carregam um forte senso de justiça e solidariedade. É exatamente essa ideia que parece ter sobrevivido melhor à passagem do roteiro para a tela.
Letícia Colin e Chay Suede fazem o silêncio funcionar
A grande qualidade de Letícia Colin e Chay Suede está menos nas declarações de amor do que na maneira como os dois personagens se comportam quando estão juntos. Existe escuta nas cenas.
Letícia interpreta Adriana como uma mulher atravessada por sucessivas perdas, mas evita reduzir a protagonista à condição de vítima. Chay, por sua vez, encontrou em Pedro um registro particularmente contido. Em vez de tentar dominar as sequências românticas, permite que o personagem observe, espere e reaja. É uma combinação eficiente porque nenhum dos dois parece disputar a cena.
A crítica também percebeu essa característica. Uma análise publicada pelo OFuxico destacou justamente a capacidade de Chay Suede de fazer a cena crescer sem tentar roubá-la, valorizando o modo como Pedro escuta e reage. Já avaliações sobre a própria novela passaram a apontar a química entre Chay e Letícia entre seus principais acertos.
Isso ganha ainda mais importância porque Quem Ama Cuida nem sempre é uma novela sutil. O folhetim de Walcyr Carrasco e Claudia Souto começou carregado de tragédias, reviravoltas e personagens apresentados algumas vezes em tons bastante elevados. A crítica de estreia do NaTelinha, por exemplo, apontou excessos na exposição da história e até nos discursos inicialmente atribuídos a Pedro.
Curiosamente, é justamente dentro dessa novela frequentemente barulhenta que Adriana e Pedro funcionam melhor quando diminuem o volume.
O público comprou “Pedriana”
Não se trata apenas de uma percepção da crítica. Um grupo de discussão realizado com telespectadores de Quem Ama Cuida apresentou avaliação bastante positiva de Adriana e Pedro. Segundo informações divulgadas pela imprensa, a química entre os protagonistas esteve entre os aspectos destacados pelos participantes.
Nas redes sociais, a resposta foi ainda mais evidente. Os reencontros do casal movimentaram os fãs ao longo da novela, e o apelido “Pedriana” passou a acompanhar a torcida pelo romance. Quando Adriana descobriu que Pedro havia se casado com Bruna (Nanda Marques), a repercussão das cenas colocou inclusive Letícia Colin entre os assuntos mais comentados nas redes.
Mas talvez o melhor exemplo tenha ocorrido quando Adriana e Pedro finalmente puderam viver sua primeira noite juntos. A sequência exibida em agosto repercutiu justamente pelo equilíbrio entre sensualidade e delicadeza. Comentários de telespectadores destacados pela CNN Brasil celebraram não apenas a química física dos atores, mas a possibilidade de finalmente assistir aos personagens vivendo algo extremamente simples: namorar, sorrir, dividir uma refeição e experimentar uma rotina juntos.
Esse detalhe diz muito sobre o sucesso do casal. O público não parece torcer apenas pelo beijo ou pela cena de sexo. Torce para que Adriana e Pedro possam viver juntos.
Um romance baseado mais no cuidado do que no conflito
Nesse sentido, o casal talvez seja uma das traduções mais eficientes do próprio título da novela. Em Quem Ama Cuida, o amor entre Adriana e Pedro é construído repetidamente por pequenos atos de cuidado. Há desejo, evidentemente, mas o componente fundamental da relação é a sensação de segurança que um encontra no outro. É uma escolha particularmente interessante num gênero que tradicionalmente associa paixão à instabilidade.
Durante décadas, a dramaturgia popular acostumou o telespectador a grandes casais marcados por ciúme, brigas, separações e reconciliações. Adriana e Pedro também enfrentam obstáculos — e muitos deles são típicos do melodrama —, mas o conflito geralmente está ao redor deles, e não necessariamente entre eles.
Essa diferença é fundamental. O espectador não acompanha o casal perguntando se aquelas duas pessoas deveriam permanecer juntas. A pergunta é quando finalmente conseguirão ficar juntas. Essa estrutura transforma o romance numa espécie de porto seguro dentro da história.
A química também nasce de uma parceria antiga
Há ainda um componente impossível de ignorar: Letícia Colin e Chay Suede já se conhecem artisticamente. A experiência de Segundo Sol poderia representar um problema. Repetir um casal de atores relativamente pouco tempo depois poderia produzir a sensação de repetição. Aconteceu o contrário.
Rosa e Ícaro tinham outra energia. Adriana e Pedro são personagens mais maduros emocionalmente, marcados por perdas, escolhas e pelo peso do tempo. O reencontro dos atores permite aproveitar uma intimidade profissional existente sem reproduzir o relacionamento anterior.
Essa familiaridade aparece na naturalidade física. Um abraço não parece coreografado. Um olhar consegue prolongar uma cena. Pequenos gestos criam intimidade antes mesmo que o texto precise explicá-la. É nesse terreno que nasce aquilo que normalmente chamamos de química.
Nem tudo é mérito dos atores — e nem tudo é perfeito
Seria exagerado, entretanto, atribuir todo o sucesso exclusivamente às interpretações. O roteiro oferece condições bastante favoráveis para que o público torça pelo casal. Adriana e Pedro compartilham valores semelhantes, são colocados repetidamente diante de injustiças e passam boa parte da história separados por forças externas. É praticamente uma máquina narrativa construída para gerar torcida.
Existe também um risco. Quando dois personagens concordam demais e possuem valores muito semelhantes, o relacionamento pode perder tensão dramática. Em determinados momentos, Quem Ama Cuida precisa recorrer sucessivamente a obstáculos externos para impedir que Adriana e Pedro simplesmente fiquem juntos.
Prisão, casamento, acusações, interesses familiares e novas complicações cumprem essa função. O desafio daqui para frente é não transformar essa sucessão de impedimentos em artificialidade. Quanto mais o público deseja ver o casal junto, maior é a tentação do roteiro de inventar um novo motivo para separá-lo. Há um ponto em que expectativa vira enrolação.
O coração romântico de Quem Ama Cuida
Ainda assim, o saldo é amplamente positivo. Letícia Colin e Chay Suede entenderam que química não significa necessariamente intensidade permanente. Às vezes, ela aparece justamente na tranquilidade com que dois atores conseguem dividir uma cena.
Adriana e Pedro possuem desejo, mas também possuem ternura. Têm cenas apaixonadas, mas funcionam igualmente tomando café, conversando ou simplesmente se olhando. E talvez esteja aí o maior triunfo da dupla: eles conseguem transmitir a impressão de que seus personagens continuariam interessantes mesmo depois do tradicional “felizes para sempre”.
No meio das armações, crimes, vinganças, segredos e reviravoltas de Quem Ama Cuida, Adriana e Pedro representam algo surpreendentemente simples: duas pessoas que parecem melhores quando estão juntas.
Para uma novela que carrega o cuidado até no título, dificilmente poderia existir química mais apropriada.
O texto Adriana e Pedro provam que ainda há espaço para o romance nas novelas das nove foi publicado primeiro no Observatório da TV.