Mundo
Nepal avalia levar à ONU alerta sobre tragédia ligada ao clima
Premiê estuda levar à Assembleia Geral, neste mês, seu relato sobre o colapso da geleira e um apelo à ação contra o aquecimento global
O primeiro-ministro do Nepal, Balendra Shah, estuda uma recomendação dos assessores diretos para que vá a Nova York, neste mês, para falar à Assembleia-Geral das Nações Unidas sobre a urgência de o mundo adotar medidas efetivas para enfrentar as mudanças climáticas.
Cientistas apontam o aquecimento global como fator indiscutível por trás da tragédia da semana passada na fronteira sino-nepalesa, onde o colapso parcial de uma geleira provocou uma avalanche e inundações-relâmpago que, até terça-feira (1/9), deixavam um saldo de mais de mil mortos e ao menos 4.400 desaparecidos, além de danos materiais estimados na casa dos bilhões de dólares.
“Considerando o novo contexto no país, especialmente depois das enchentes, o primeiro-ministro está sendo aconselhado a participar em pessoa da Assembleia-Geral”, informou o gabinete, ressaltando que ainda não tinha sido tomada uma decisão. Originalmente, a delegação do país deveria ser chefiada pelo chanceler, Shisir Khanal.
O próprio Balendra Shah, um rapper de 36 anos que assumiu o governo há menos de seis meses, publicou postagem nas redes sociais na qual afirma que “não há dúvida de que as mudanças no clima são um fator por trás” da calamidade. A Cordilheira do Himalaia experimentou uma elevação da temperatura média da ordem de 1,8°C, que provoca instabilidade nas centenas de geleiras que abriga.
“Já é hora de a nossa região não apenas tornar-se mais vigilante, mas expor de maneira contundente perante a comunidade internacional os desastres que somos forçados a enfrentar como resultado das mudanças climáticas”, provoca o premiê nepalês, em seu texto. “Por que a neve e as rochas entraram em colapso? De onde veio tanta água?”, questiona. “A civilização humana tem de encontrar respostas para essas questões.”
Sinais prévios
Um relatório publicado na semana passada por um consórcio de cientistas das regiões montanhosas da Ásia sugere que, dias antes da catástrofe, a geleira que deu origem à avalanche apresentava “sinais visíveis” de risco de deslizamentos. Eles compreendem a maior presença de água em estado líquido, cuja cor marrom sugere a infiltração no solo, e rachaduras nas rochas de sustentação da encosta. “Olhando em retrospectiva, havia algumas indicações prévias”, diz o informe do HiRISK, que reúne pesquisadores e estudiosos de universidades e outras instituições da China, Índia, Paquistão, Tajiquistão e Butão.
O texto admite que a presença de um sistema mais abrangente de alertas antecipados “poderia ter salvado um número significante de vidas”. A instalação deles na região é recente e se concentra na observação de lagos glaciais na China, mas nenhum dispositivo do tipo está em operação para monitorar indícios de desastres relacionados às geleiras, diz o HiRIZK, que se dedica a dados sobre ambientes montanhosos.
A capacidade de produzir alarmes eficazes em eventos como o da semana passada, porém, é objeto de discussão na comunidade científica, e outros estudiosos do tema ponderam que as condições verificadas na fronteira sino-nepalesa dificilmente permitiriam detectar com antecipação um desastre daquela magnitude. “Praticamente, não havia meios para que alguém pudesse ter detectado aquele desastre previamente”, argumenta Austin Lord, pesquisador sênior na área de energia, águas e sustentabilidade no Stimson Center, instituto com sede em Washington. “Aquilo aconteceu em um ‘ponto cego’ (nas montanhas).”
Economista com mestrado em ciências ambientais pela Universidade Yale, Lord alerta sobre “como é profundamente necessário que Nepal e China mantenham comunicação e troquem informações e análises sobre riscos naturais transfronteiriços”.
Salvamento e luto
O Nepal entrou quarta-feira (2/9) na segunda semana desde a catástrofe com os esforços divididos entre a busca desesperada por sobreviventes e a urgência sanitária de sepultar os mais de mil corpos recuperados. Equipes especializadas de militares e outros profissionais, inclusive de países como China e Coreia do Sul, seguiam buscando acesso a cerca de 600 trabalhadores presos em túneis obstruídos onde estavam em obras 11 projetos de usinas hidrelétricas. Uma entre várias detonações controladas de rochas permitiu aos socorristas acessar uma área, mas ninguém foi encontrado.
O chanceler Shisir Khanal procurou confortar as famílias que seguem aguardando notícias sobre parentes. “Milagres acontecem”, disse à agência de notícias France-Presse (AFP). “No momento, não quero perder completamente a esperança.” Em Katmandu, diante de um mural com fotos de desaparecidos, Debu Sapkota confessou à AFP que já não acreditava em encontrar vivas a sogra de 83 anos e a neta. “Estou aqui na esperança de encontrar os corpos.”