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Robô enviado sob o gelo da Antártida encontra uma colônia gigantesca com 60 milhões de ninhos de peixes distribuídos por uma área de 240 quilômetros quadrados

São 60 milhões de ninhos em 240 km².

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O peixe-gelo de Jonah tem uma característica que o coloca sozinho entre todos os vertebrados conhecidos.

Uma equipe alemã de pesquisa saiu para mapear o fundo do mar na Antártida em fevereiro de 2021 e ficou assustada com o que apareceu na tela do navio. Os ninhos de peixes na Antártida, filmados a 500 metros de profundidade, não paravam de surgir. Quatro horas depois, a imagem seguia igual: crateras redondas na lama, uma do lado da outra, sem fim. Era o maior berçário de peixes já visto no planeta.

Como uma câmera acesa por engano virou descoberta histórica?

A tripulação do navio quebra-gelo alemão Polarstern estava com uma missão comum de mapeamento do fundo do Mar de Weddell, na costa da Antártida. O plano era estudar o ecossistema geral da região, sem procurar nada específico. Uma câmera rebocada ia registrando o solo submarino enquanto o navio avançava lentamente.

A pesquisadora que acompanhava a transmissão ao vivo, Lilian Böhringer, começou a ver crateras redondas passando na tela. E mais crateras. E mais. A câmera continuou por horas, e o padrão não mudava. No dia seguinte, a equipe ligou para o instituto na Alemanha e entendeu o que tinha encontrado. Nenhum outro registro no mundo se aproximava daquele tamanho.

A tripulação do navio quebra-gelo alemão Polarstern estava com uma missão comum de mapeamento do fundo do Mar de Weddell, na costa da Antártida.

O que exatamente esse robô encontrou?

Um estudo publicado em janeiro de 2022 na revista científica Current Biology, disponível no PubMed, detalhou a descoberta. Uma colônia de peixes-gelo de Jonah, cientificamente chamados de Neopagetopsis ionah, estava reproduzindo em escala nunca antes vista. Os números impressionam.

1
60 milhões de ninhos ativos Cada ninho com um peixe adulto por perto, guardando os ovos até a eclosão.
2
240 km² de área total Tamanho parecido com o da ilha de Malta, no Mediterrâneo, ou de uma cidade média brasileira.
3
Cerca de 1.735 ovos por ninho Cada cratera abriga uma quantidade que ajuda a explicar a densidade de vida no local.
4
Mais de 60.000 toneladas de biomassa A colônia inteira pesa o equivalente a milhares de carros, tudo isso concentrado no mesmo trecho de fundo marinho.
5
Profundidade entre 420 e 535 metros Debaixo de uma cobertura de gelo permanente, num ambiente escuro, gelado e quase inacessível.

Que peixe é esse que vive sem sangue vermelho?

O peixe-gelo de Jonah tem uma característica que o coloca sozinho entre todos os vertebrados conhecidos: ele não tem hemoglobina no sangue, a proteína que dá cor vermelha e transporta oxigênio na maioria dos animais. Por isso o sangue dele é quase transparente, e o próprio corpo do bicho tem aparência esbranquiçada, quase fantasmagórica.

Essa é uma adaptação extrema ao Oceano Austral. Como a água muito fria já dissolve mais oxigênio, o peixe conseguiu evoluir para pegar o gás direto pela pele e pelos vasos sanguíneos. Vive entre 20 e 900 metros de profundidade, e até esta descoberta ninguém sabia que ele se reunia em colônias tão grandes para se reproduzir.

Como esse robô consegue trabalhar num lugar tão hostil?

Mergulhador humano não trabalha embaixo do gelo antártico. A água está próxima do congelamento, a profundidade passa de meio quilômetro e não há luz nenhuma. Para chegar lá, o Alfred Wegener Institute usa um sistema chamado OFOBS, sigla em inglês para Sistema de Observação e Batimetria do Fundo Oceânico.

O aparelho é basicamente uma câmera de uma tonelada rebocada por cabo atrás do navio, a poucos metros do fundo. Filma, fotografa e mede o relevo do solo submarino em tempo real, mandando as imagens para as telas do navio na superfície. Cada expedição pode cobrir vários quilômetros de fundo por dia, algo impensável com qualquer outro método atual.

Leia também: Mistura de sal grosso com cinzas de lenha: para que serve e por que essa borda protetora no solo bloqueia o avanço de lagartas cortadoras.

Por que essa descoberta muda a proteção da Antártida?

Uma colônia dessas não é apenas curiosidade científica. Ela sustenta uma parte significativa da cadeia alimentar local. A pesquisa mostrou que as focas-de-Weddell, mamíferos marinhos que também vivem na região, concentram 90% do tempo de mergulho justamente sobre a área da colônia. Os peixes estão sustentando os predadores maiores dali.

A tabela ajuda a dimensionar por que essa descoberta pesa nas discussões sobre criar uma área marinha protegida no setor Atlântico do Oceano Austral.

Aspecto Antes da descoberta Depois da descoberta
Maior colônia conhecida De peixe-gelo em um só local Cerca de 60 ninhos, no máximo 60 milhões de ninhos ativos
Papel do Mar de Weddell Na cadeia alimentar antártica Área estudada por clima e correntes Berçário natural de escala global
Argumento para área protegida Debate internacional em andamento Foco em preservação por questões climáticas Ganha peso biológico direto
Comportamento reprodutivo Do peixe-gelo de Jonah Assumia-se reprodução esparsa e solitária Confirmada reprodução em colônia densa
Risco de pesca comercial Se a área for aberta no futuro Sem alerta específico Danos poderiam ser irreversíveis

O que ainda pode aparecer debaixo do gelo antártico?

O Alfred Wegener Institute explora o Mar de Weddell com o navio Polarstern desde os anos 1980, e até 2021 só tinha registrado ninhos isolados de peixe-gelo naquela mesma região. Uma colônia dessas passou décadas escondida embaixo do gelo, sob o nariz da ciência, e só apareceu porque uma câmera ficou ligada por acaso durante horas num trecho do fundo do mar.

A descoberta reforça uma ideia antiga entre pesquisadores polares: o fundo do oceano antártico não é um deserto congelado. É um ecossistema ativo, complexo e mal conhecido, cheio de espécies adaptadas ao frio extremo. Cada nova expedição com robôs submarinos pode revelar comportamentos e habitats que ainda nem entraram nos livros de biologia marinha. O berçário de sessenta milhões de peixes é só uma amostra do que a Antártida guarda debaixo da própria superfície branca.

💡 Curiosidade A água do fundo onde a colônia foi encontrada é cerca de 2°C mais quente que o entorno imediato, o que pode ajudar a explicar por que os peixes-gelo escolheram justamente aquele trecho para se reproduzir em massa.