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Parece filme, mas é real: o 4º maior lago do planeta secou e hoje é um deserto de navios fantasmas enferrujados na Ásia Central que perdeu mais de 90% da superfície

O lugar onde navios enferrujam no meio do deserto já foi um dos maiores lagos do planeta.

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Parece filme, mas é real: o 4º maior lago do planeta secou e hoje é um deserto de navios fantasmas enferrujados na Ásia Central que perdeu mais de 90% da superfície
Entre o Cazaquistão e o Uzbequistão, na Ásia Central, estava o Mar de Aral.

Há uma paisagem no coração da Ásia Central que parece ter saído de um filme pós-apocalíptico: barcos de pesca abandonados enferrujam sobre uma imensidão de areia, onde antes existia água até perder de vista. Esse é o cenário deixado pelo Mar de Aral, antigo quarto maior lago do planeta, que encolheu a ponto de quase desaparecer dos mapas.

Como o Mar de Aral desapareceu do mapa?

O sumiço de uma massa de água que chegou a ter dimensões comparáveis às da Bélgica não foi resultado de um processo natural. A transformação começou na década de 1960, quando autoridades soviéticas decidiram desviar os rios que alimentavam o lago para irrigar áreas desérticas e ampliar o cultivo de algodão. O projeto foi planejado em Moscou e, inicialmente, parecia uma solução eficiente para aumentar a produção agrícola e movimentar a economia da União Soviética.

A estratégia trouxe resultados rápidos para a produção de algodão, mas deixou consequências que se acumularam durante décadas. Comunidades inteiras que dependiam da pesca perderam sua principal fonte de sustento, enquanto milhões de pessoas passaram a conviver com os efeitos da degradação ambiental, da perda do corpo d’água e das mudanças na qualidade do ar. O mar foi recuando pouco a pouco até deixar para trás uma paisagem que hoje revela, em terra firme, a dimensão da transformação.

Parece filme, mas é real: o 4º maior lago do planeta secou e hoje é um deserto de navios fantasmas enferrujados na Ásia Central que perdeu mais de 90% da superfície
O Mar de Aral ficava na fronteira entre o Cazaquistão e o Uzbequistão, na Ásia Central. / Créditos: Wikipédia

Em que região ficava o antigo Mar de Aral?

Entre o Cazaquistão e o Uzbequistão, na Ásia Central, estava o Mar de Aral, embora a denominação esconda uma diferença importante: apesar de ser chamado de mar, ele sempre foi classificado tecnicamente como um lago. Em 1960, sua superfície chegava a aproximadamente 68 mil quilômetros quadrados, colocando-o como o quarto maior corpo de água doce do mundo, atrás do Cáspio, do Superior e do Vitória.

A dimensão do lago sustentava uma atividade econômica intensa nas cidades próximas. O Amu Daria, que descia das montanhas Pamir, e o Sir Daria, localizado mais ao norte, eram os dois principais rios responsáveis por levar água ao Aral. Na época, a pesca era abundante, os portos permaneciam movimentados e comunidades inteiras dependiam das margens. Muynak, no Uzbequistão, chegou a ser um dos principais centros pesqueiros da União Soviética.

O que os soviéticos fizeram para provocar o desaparecimento do lago?

O destino do Aral começou a mudar quando, durante a década de 1960, engenheiros soviéticos passaram a retirar grandes volumes dos dois rios para abastecer sistemas de irrigação destinados principalmente às plantações de algodão e arroz nos desertos da região. A estratégia transformou o Uzbequistão em um dos grandes exportadores mundiais de algodão, mas deixou cada vez menos água disponível para o lago.

Os números mostram a dimensão da mudança. De acordo com o Earth Observatory da NASA, a quantidade de água doce que chegava ao Aral caiu de cerca de 50 quilômetros cúbicos por ano, em 1960, para praticamente zero no início dos anos 1980. Com os rios deixando de repor o volume perdido pela evaporação, a superfície começou a recuar rapidamente: nas primeiras décadas, o lago perdeu 60% de sua área e, nos anos 2000, a redução já ultrapassava 90%.

O que sobrou disso hoje no meio do deserto?

A paisagem atual do antigo leito é uma das cenas mais impressionantes já registradas de destruição ambiental. Os principais elementos que ficaram:

1
Navios enferrujados na areia Barcos de pesca da era soviética ficaram encalhados quando a água recuou e nunca foram removidos. Viraram cartão-postal macabro de Muynak.
2
O deserto de Aralkum O antigo leito do lago virou o mais novo deserto do planeta, com solo salgado, tóxico e coberto de resíduos químicos do algodão.
3
Tempestades de sal e pesticida O vento levanta pó carregado de sal, resíduos de fertilizante e pesticida, que atinge cidades a centenas de quilômetros.
4
Cidades pesqueiras esvaziadas Muynak e Aralsk perderam a razão de existir. Milhares de famílias que viviam da pesca migraram ou empobreceram.
5
Clima da região alterado Sem o efeito regulador do lago, os invernos ficaram mais frios e os verões mais quentes num raio de centenas de quilômetros.

Que tamanho tem o impacto na saúde de quem mora perto?

O National Geographic, que documentou o desastre ainda em 1990, descreveu o processo como uma química maligna: as águas secando, virando sal, subindo como poeira nociva e atingindo a população com doença e morte. Passadas mais de três décadas, a descrição continua exata para quem vive na região do Karakalpakstão, no norte do Uzbequistão.

Os índices de câncer de esôfago, tuberculose e mortalidade infantil na área são muito acima da média nacional. A comunidade dos caracalpaques, povo indígena da região, foi das mais afetadas. Beber água virou apuro, respirar virou risco. E a fonte do problema é uma bacia que já não existe mais como existia.

Como o mundo reagiu a esse desastre?

O ex-secretário-geral da ONU Ban Ki-moon classificou o desaparecimento do Mar de Aral como um dos piores desastres ambientais do planeta em uma visita à região em 2010. Segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, cerca de 60 milhões de pessoas vivem na bacia do Aral e sofrem consequências diretas ou indiretas da secagem.

Vale comparar como o lago era e como está hoje, para entender a dimensão do estrago:

Indicador Nos anos 1960 Situação atual
Área do lago Superfície de água Cerca de 68 mil km² Menos de 10% do original
Posição no ranking Entre lagos do mundo 4º maior lago do planeta Fora da lista dos maiores
Pesca comercial Empregos diretos Dezenas de milhares de pescadores Praticamente extinta no sul
Cidade portuária de Muynak Uzbequistão Porto ativo com estaleiro A 150 km da água mais próxima
Clima local Amplitude térmica Regulado pela massa de água Extremos de calor e frio

O Mar de Aral ainda pode ser recuperado?

Uma recuperação parcial já aconteceu na porção norte, dentro do Cazaquistão. Em 2005, a construção da barragem Kok-Aral, com apoio do Banco Mundial, ajudou a concentrar a água que ainda chegava pelo rio Sir Daria. O nível do lago aumentou, a salinidade diminuiu e a atividade pesqueira voltou em pequena escala. O antigo Mar de Aral não retornou, mas a região conseguiu recuperar sinais de vida em uma área que havia se transformado em deserto.

A situação é muito mais complicada ao sul, no Uzbequistão, onde o rio Amu Daria continua tendo grande parte de suas águas direcionada para a produção de algodão. No antigo leito, surgiu o deserto de Aralkum, considerado o mais novo deserto do planeta. Fazer a água retornar a essa área exigiria uma transformação profunda na forma como os recursos hídricos são utilizados em toda a região, algo que ainda não ocorreu.

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Por que o desaparecimento do Aral continua sendo um alerta?

Mais do que contar o desaparecimento de um lago, a história do Mar de Aral mostra o que pode acontecer quando uma estratégia econômica ultrapassa os limites naturais de um território. A prioridade dada a uma cultura agrícola destinada à exportação levou ao desvio dos rios que sustentavam o lago, em uma aposta de que o ambiente suportaria a mudança. Décadas depois, as consequências continuam recaindo principalmente sobre as populações que já viviam na região muito antes dos grandes planos econômicos soviéticos.

Os barcos abandonados sobre a areia são, por isso, mais do que vestígios de uma atividade que desapareceu. Eles representam uma advertência sobre rios desviados, aquíferos explorados além da capacidade de reposição e bacias inteiras pressionadas para sustentar novas safras. O que aconteceu na Ásia Central deixou uma evidência difícil de ignorar: os efeitos de uma decisão tomada hoje podem permanecer por gerações, e o mundo já sabe como essa história pode terminar.