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Trump diz que não pretende regular inteligência artificial e fala em ‘conspiração doentia’

Presidente norte-americano denuncia "conspiração doentia" e "farsa" sobre a IA. Conselho de Segurança das Nações Unidas anuncia reunião, na próxima semana, para debater tema

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Donald Trump foi o responsável pelo retorno dessa franquia de sucesso
Créditos: depositphotos.com / palinchak

Declaração recente do britânico Jacob Coxon, pesquisador de inteligência artificial e ex-funcionário da OpenAI e da Anthropic, acendeu o alerta sobre os riscos inerentes à nova tecnologia. “As pessoas que estão construindo a IA acreditam sinceramente que ela pode matar todos até o fim da década. Isto não é uma jogada de marketing”, destacou Coxon.

Nesta segunda-feira (14/9), o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) anunciou que realizará uma reunião para debater o tema na próxima semana, em Nova York. Uma fonte diplomática da França, que ocupa a presidência rotativa do Conselho, disse concordar que a IA representa uma “ameaça existencial” para a segurança mundial.

Por sua vez, Volker Türk, alto comissário da ONU para os Direitos Humanos, avisou: “Estamos à beira de uma mudança irreversível, que afeta não apenas nós, mas também as futuras gerações”. Turk instou uma ação urgente de mobilização das estruturas multilaterais para regulamentar  a IA. E foi além: “Todos os direitos humanos estão ameaçados por essa tecnologia, incluindo o direito à vida”.

Apesar das advertências, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, denunciou uma “conspiração doentia” contra a IA e descartou regulamentar a indústria do setor. “A IA assumir o controle do mundo, destruir a humanidade e todas essas coisas ruins é uma farsa”, reagiu Trump em sua plataforma Truth Social. “Existe uma conspiração doentia em curso contra a IA e os centros de dados, e a única parte feliz com isso é a China”, afirmou.

Dario Amodei, diretor-executivo da Anthropic, engrossou o coro dos críticos sobre a maneira e a velocidade com que a IA tem se desenvolvido. Ele cobrou uma desaceleração da tecnologia. “Precisamos controlar o ritmo na fronteira tecnológica. (…) O ritmo de desenvolvimento não significa interromper o treinamento de modelos ou o progresso técnico, mas sim garantir que as empresas dediquem tempo suficiente para alinhar e proteger seus modelos, e que avaliadores externos possam confirmar isso. Nossa estrutura de ritmo é uma tentativa de reforçar ainda mais nosso compromisso com a segurança e incentivar uma corrida rumo à excelência”, escreveu o chefe da Anthropic. 

Avanço

A inteligência artificial impacta o futuro de várias áreas da sociedade: emprego, saúde, defesa, biossegurança, educação, energia nuclear, entre outras. Cientista da computação britânico e professor da Universidade da Califórnia, Berkeley, Stuart J. Russell afirmou ao Correio que a inteligência artificial está se movendo tão rapidamente, que podemos ter chegado ao ponto em que os sistemas de IA são mais inteligentes do que nós em um senso prático: eles são capazes de ditar o que acontece, e nós não.

“Minhas preocupações principais são a perda de controle irreversível, conforme previsto pelo matemático inglês Alan Turing em 1951. Não é fácil mantermos o poder para sempre sobre entidades mais poderosas do que nós mesmos”, advertiu. “Uma vez perdido o controle, deixamos de ter qualquer voz sobre a nossa própria continuidade.”

Outra preocupação de Russell diz respeito a uma possível falha sistêmica. “Isso envolveria uma deterioração e o colapso da coesão social humana — incluindo os sistemas econômicos — ou uma dependência e enfraquecimento permanentes”, afirmou. “Também apontaria o uso indevido catastrófico da IA por parte de humanos, como, por exemplo, a criação de novos patógenos ou ataques a infraestruturas críticas.” Para Russell, a recusa de Donald Trump em regular a IA não parece se basear em fatos sobre a tecnologia. 

Professor de matemática da Universidade Stanford, Mohammed Abouzaid disse ao Correio que as ferramentas mais poderosas da IA estão nas mãos de poucas empresas. “A questão de saber se os matemáticos se tornarão dependentes dessas empresas ou se conseguirão construir os próprios sistemas alternativos é motivo de grande preocupação para a área”, comentou.

“Assim como outras atividades humanas, a matemática depende tanto de trabalho quanto de capital para produzir conhecimentos. À primeira vista, pode parecer que as capacidades da IA visam substituir humanos na produção matemática. Isso só ocorreria se não houvesse um efeito de complementaridade — se as ferramentas de IA não permitissem a criação de uma quantidade tão maior de matemática a ponto de necessitarmos de muito mais matemáticos para compreendê-la. O resultado ficará claro com o tempo”, concluiu Abouzaid, vencedor do Prêmio New Horizons in Mathematics.